Arte e senso comum

Fotografia por Jürgen Klauke
Fotografia por Jürgen Klauke

O senso comum não sabe apreciar arte. Esta frase pode parecer pedante, mas é verdadeira. Há muitas causas para ser assim e uma delas é o facto de as elites tratarem a arte como sendo seu território exclusivo, com acesso vedado às multidões, porque não é certamente por as pessoas nascerem com um handicap intelectivo que não apreciam arte ou tomam por arte aquilo que na verdade não o é, mas lhes é mostrado como se fosse.

Claro que nos é fácil depreender que o povo não tem bom gosto quando vemos museus e exposições vazias e os comparamos com estádios cheios e lotações esgotadas nos concertos do Tony Carreira, mas essa asserção é superficial, além de injusta. Houve sempre limitações no acesso à arte e estas são de duas ordens: educacionais e económicas. Do lado da educação, a verdade é que não há um ensino para as artes: os sistemas de ensino universais não asseguram, no geral, uma educação para a arte. A educação artística que existe é selectiva, por ser condicionada pela outra limitação: a económica. O ensino das artes, sempre feito em escolas especializadas, é caro. Esta selecção pelo custo económico estende-se aos eventos artísticos, cujo acesso é também ele caro. Ora, o povo tem prioridades: primeiro é necessário assegurar as despesas básicas – a alimentação, a saúde, a habitação e a educação – e só depois, com o que sobrar, é que se poderá pensar no resto. Isto leva a que a arte se cinja a círculos com um certo poder económico.

Há decerto uma tendência para a democratização da arte, mas esta encontra a resistência das elites e é pervertida por um statu quo económico que induz falsas noções de arte para promover a sua comercialização. Os Il Divo são (ou foram: espero que tenham sido empalados num poste de alta tensão) imensamente populares, mas o que fazem não é arte, nem é sequer pastiche: é uma corrupção da arte que é apresentada como «música clássica para o povo». O mesmo na literatura, com os livros de Dan Brown e José Rodrigues dos Santos: vendem aos milhões, mas aquilo não é literatura. Deste modo, a verdadeira arte nunca perdeu – e provavelmente nunca perderá – o seu cunho exclusivo. O pouco da arte que é permitida ao povo é aquela mais acessível por se ter banalizado. Hoje todos conhecem o Finale da 9.ª Sinfonia de Beethoven, mas quem conhece o Concerto para Piano n.º 4 ou as Variações Kakadu? Muito poucos. O conhecimento generalizado de algumas peças clássicas é a excepção, não a regra.

Há um interesse fundamental em que assim seja: o acesso universal às artes poderia ser altamente subversivo. As classes que se pretendem produtivas e obedientes poderiam comungar dos princípios artísticos de autonomia e liberdade de pensamento e tomar consciência da sua condição de factores produtivos se isso acontecesse, o que seria indesejável por conter em si o potencial de subverter uma ordem que levou séculos a estabelecer. A arte é perigosa, pelo que convém mantê-la reservada – ainda que sob a aparência de uma democratização e livre acesso que são profundamente falsos.

A fotografia é uma das formas de expressão artística que mais se presta à confusão entre o que é meramente banal e o que tem verdadeiro conteúdo artístico. Por ser tão generalizada e acessível, a multidão que não está predisposta para a arte toma por artísticas fotografias que não o são e ignora as que na verdade o são. Acresce que na fotografia existe um factor que exacerba esta percepção, que é o seu vínculo aos objectos reais. Esta conjugação tem resultados altamente perversos, uma vez que as pessoas limitam-se a ver o motivo que figura no enquadramento e a apreciá-lo sob um ponto de vista meramente informativo: uma paisagem será sempre uma paisagem, independentemente de o seu autor ter empregado técnicas fotográficas que a distinguem; um nu fotográfico será sempre uma imagem de uma pessoa nua, etc. A estética também conta na apreciação, mas é frequentemente associada às propriedades do motivo e não à imagem em si. Não existe, entre a generalidade das pessoas, uma predisposição para interpretar uma fotografia artística de acordo com aquilo que ela é – uma emanação da mente do fotógrafo, a sua interpretação das coisas e do mundo. Quanto mais abstracta for a fotografia, menor será a predisposição para a entender.

Não se pense, a despeito do que ficou dito acima, que este é um fenómeno exclusivamente classista: há pessoas que têm acesso à arte e não entendem a fotografia artística. Há alguns anos envolvi-me numa discussão com uma senhora que se imagina poetisa e frequenta círculos artísticos e descobri que ela foi incapaz de distinguir uma fotografia de uma paisagem costeira com arrastamento causado por uma exposição longa dos milhões de fotografias do mesmo lugar que as pessoas tiram todos os dias com os seus telemóveis. Para essa pessoa, aquela era apenas mais uma entre esses milhões de fotografias (pela execução técnica, não era). Esta senhora é, obviamente, um produto do acesso aparente à arte que a sociedade faculta ao fazer passar por arte o que não o é; não tem uma verdadeira educação artística, apesar de viver na ilusão de ser uma apreciadora da arte. Do mesmo modo, aconteceu-me mostrar algumas impressões a um amigo extremamente inteligente que as olhou com o maior desprezo e desinteresse por não serem fotografias da família ou de paisagens reconhecíveis.

Estes são dois exemplos da prevalência do senso comum na apreciação de fotografias. Em ambos os casos, essas pessoas seriam capazes de identificar um propósito artístico noutras formas de arte, mas não na fotografia. Porque, para elas, a fotografia é finalística: serve o fim de descrever alguma coisa, reproduzindo a realidade tal como os olhos a percebem. Ora, arte não é nada disto: é exprimir uma maneira de ver as coisas e, sobretudo, de pensar a fotografia. Se as pessoas não estiverem predispostas a compreender isto, nunca ultrapassarão o patamar da apreciação básica do senso comum.

Que fazer de tudo isto? Quem se quer dedicar à arte tem duas opções: ou exprime as suas ideias sem compromissos ou se deixa levar pela aparência de arte e produz o que não mais é que banalidades, tornando-se assim mais um carneiro num vasto rebanho. Ser artista é ser a ovelha negra, é tomar consciência da realidade e procurar transformá-la através da sua arte. E é também estar preparado para ser incompreendido e impopular. Muitos fotógrafos que são hoje referências foram incompreendidos no seu tempo; outros são e foram impopulares a despeito da sua importância. Sendo as coisas como são, parece-me que fotografar para agradar a todos é estéril e nada trará de novo à fotografia a não ser um pequeno contributo para a sua desqualificação enquanto arte.

M. V. M.

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