As melhores fotografias de sempre (14)

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Kishin Shinoyama, Dois Nus Vistos de Trás, 1968

Anda na internet uma discussão sobre o livro Immediate Family, de Sally Mann, que foi reeditado recentemente (a primeira edição é de 1992). Sally Mann fotografou os seus três filhos durante a infância na sua casa de férias, no estado de Virginia, onde a família pratica um estilo de vida, digamos, de comunhão com a natureza. Deste modo, Immediate Family inclui fotografias das suas crianças nuas. Em 1992, data da primeira edição, o livro foi aclamado universalmente – e com bons motivos, porque as fotografias de Sally Mann nunca são menos que muito boas; a reedição, contudo, foi sucedida de críticas de pessoas para quem nudez é o mesmo que sexo e fotografia de crianças é sinónimo de pornografia infantil.

Não deixa de ser curioso que a primeira edição de Immediate Family, há vinte e três anos, tenha passado incólume pela filtragem dos puritanos, enquanto a reedição deste ano foi por eles criticada. Ao que parece, neste lapso de tempo regredimos e deixámos que os hipócritas ditassem as normas de conduta segundo as quais devemos viver. É certo que os tarados existem e devemos estar alerta para eles – especialmente quando se trata de crianças –, mas nem todos os que fotografam crianças são pedófilos. Sally Mann não o é certamente. Aliás, considero que os puritanos e os abusadores infantis são as duas faces da moral pútrida vigente na maioria das sociedades de influência ocidental; uns são os seus guardiães, os outros o seu produto. A imundície que os puritanos vêem nas fotografias de Sally Mann está na mente deles, não na da fotógrafa. Importam-se de nos devolver a inocência do tempo em que não se misturava fotografia artística com pornografia, nem nudez com sexo desviante? É que, pelos vistos, muita coisa mudou (e para pior) em apenas vinte e três anos!

Apenas quis, com isto, chamar a atenção para este debate de que tomei conhecimento ontem. As palavras acima servem também de introdução à temática da fotografia que hoje apresento, cujos principais motivos são dois corpos nus. A nudez foi quase sempre reprimida, ou pelo menos erigida em tabu, nas sociedades ocidentais; foi, em regra, vista como sinal de devassidão e sempre conotada com a sexualidade. A nudez foi-nos apresentada como algo de que nos devemos envergonhar pelo seu carácter pecaminoso e lúbrico. A nudez é, para esta moral, sinónimo necessário de sexo (como se este fosse ele mesmo pecaminoso por natureza).

Não tem de ser assim. Como disse acima, a malícia está na mente dos críticos, não na de quem o descreve a nudez de forma artística. O corpo humano, quando não está corrompido por vícios e pela passagem dos anos, é uma das coisas mais belas que a natureza tem para mostrar. Se não for a mais bela. É, também, do ponto de vista estético, eminentemente orgânico e natural: o corpo não conhece linhas e ângulos rectos ou transições abruptas; um corpo são é uma composição harmoniosa de formas curvilíneas. Nada que não saibamos desde há milénios, porque a arte sempre se interessou pelo corpo humano. Mostrar o corpo desnudado é, deste modo, um imperativo estético: só assim se pode perceber a sua beleza, a sua harmonia. Admiremos um David, uma Vitória de Samotrácia ou uma Vénus de Milo: nestas esculturas há uma exaltação do corpo, não concupiscência ou pecado.

E admiremos esta fotografia de Kishin Shinoyama (n. 1940). Admiremos a maneira como os corpos dos modelos se integram harmoniosamente com o enquadramento, criando formas orgânicas que se integram nos demais elementos, parecendo fazer parte deles. As curvaturas dos corpos formam uma continuidade com a rocha em que se sentam, o que lhes confere uma organicidade e uma naturalidade que raramente se encontra noutras fotografias de nus.

Por que escolhi esta fotografia como uma das melhores de sempre? Porque Shinoyama tratou os corpos como formas puras, conferindo-lhes a aparência de partes integrantes da natureza. Fez uma composição plástica brilhante, jogando com as curvaturas daqueles dois corpos de uma maneira que leva a abstrair que pertencem a pessoas: são formas puras. Olhando esta fotografia, os corpos assemelham-se a duas conchas, duas formas naturais que podem facilmente ser encontradas no ambiente em que a fotografia decorre e se fundem com ele. Nesta fotografia vejo o legado de Edward Weston, o primeiro a trazer formas puras para a fotografia, mas através de matérias diferentes. No caso de Dois Nus Vistos de Trás, a matéria é o corpo humano. Esse mesmo de que não nos devemos envergonhar e cuja plasticidade se presta a ser usado pelas artes – mesmo que não seja meramente para o ilustrar, mas para usá-lo como forma pura.

Ao mesmo tempo, fotografias como esta são uma mensagem. O emprego do nu na arte não deixa de ser uma forma de luta contra o preconceito, a hipocrisia e a moral falsa que, nunca tendo sido vencida, parece agora vingar pela via dessa abjecção a que se convencionou chamar «politicamente correcto». Esta minha escolha não é de todo alheia à necessidade de desmontar o preconceito e a falsidade. Há decerto fotógrafos que levaram o nu para o campo da provocação aberta, mas não é o caso de Kishin Shinoyama. No seu caso, provavelmente nem estas cogitações são pertinentes, porque ele limitou-se a usar as formas puras do corpo com um propósito artístico e estético, modelando-o para criar uma ilusão soberba. As mentes reprimidas poderão não gostar desta fotografia, mas aqueles sem malícia não a acharão menos que admirável.

M. V. M.

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