As melhores fotografias de sempre (12)

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Orson Welles por Jane Bown (1951)

O retrato é, porventura, a modalidade mais difícil da fotografia. No retrato o fotógrafo não pode limitar-se a mostrar o rosto da pessoa retratada: tem forçosamente de, através dele, quem é essa pessoa: descobrir os traços mais importantes da sua personalidade e patenteá-los na fotografia.

Há muito de intuição na maneira como se retrata, mas se analisarmos bem as coisas este imperativo de mostrar a personalidade, e não apenas a pessoa, é apenas um prolongamento da maneira como nos relacionamos. Quando deparamos com alguém, o nosso cérebro produz uma impressão instantânea da pessoa; comparamo-la, através da sua expressão facial e corporal, com a informação que acumulamos na nossa memória e avaliamo-la através da nossa percepção. Muitas vezes esta forma de medir uma pessoa mediante os nossos padrões manifesta-se errada, mas esta primeira impressão vai ditar uma série de juízos que determinarão a nossa atitude para com essa pessoa. Desde a infância que aprendemos a olhar um rosto e interpretá-lo: faz parte do nosso sistema de afectos e de protecção contra os perigos, os dois factores mais importantes do nosso impulso de sobrevivência.

No retrato as coisas não se passam de maneira muito diferente, no sentido em que olhamos um rosto e o analisamos de acordo com os parâmetros que desenvolvemos desde a infância. Simplesmente, o retrato tende sempre a mostrar uma informação superficial, e normalmente favorável, sobre a pessoa retratada. O que é natural: quem se deixa retratar deseja ser visto pelo seu lado melhor.

Isto significa que, num retrato normal, apenas vemos uma parte da personalidade da pessoa retratada. Decerto é possível extrair conclusões, porque mesmo com um sorriso postiço e um ângulo benéfico é possível formular um juízo sumário sobre a pessoa, mas fazer um retrato que nos mostre a mente da pessoa e nos revele quem ela realmente é não está ao alcance de qualquer um. Mais: exige que o próprio retratado entre no jogo e entenda o que o fotógrafo está a querer transmitir. Um bom retrato é uma colaboração entre fotógrafo e retratado, impondo um entendimento entre ambos e um conhecimento perfeito da pessoa retratada por parte do fotógrafo.

Não é nada fácil fazer retratos que mostrem o mundo interior da pessoa. Alguns retratistas optam por incluir objectos no enquadramento que fornecem pistas para melhor conhecer o retratado: fotografar um escritor tendo por fundo uma estante cheia de livros, ou um pintor no seu atelier, é uma receita frequentemente utilizada, mas mostrar a personalidade de alguém retratando um rosto isolado requer, além de uma técnica fotográfica excelente, uma sensibilidade muito especial. É neste particular que Jane Bown (1925-2014) brilhou mais intensamente que qualquer outro retratista, com a excepção de Yousuf Karsh. Os retratos de Jane Bown, como este de Orson Welles ou os de Samuel Beckett e Morrissey, mostram rostos, mas neles consegue ler-se o mundo das personalidades retratadas.

Todos sabemos que o realizador de Citizen Kane era uma personagem intensa. Jane Bown compreendeu plenamente esta intensidade e capturou-a no olhar de Welles e na sua expressão facial, mas reforçou-a com recurso à iluminação, a qual é absolutamente prodigiosa. O isolamento do rosto é completo, graças à opção por uma iluminação – importa referir que Jane Bown trabalhava apenas com luz natural – que garante o maior contraste possível entre o rosto e o plano de fundo, reduzindo este último a uma escuridão completa e profunda. Se figurasse algum outro motivo no enquadramento, este retrato perderia sentido. O rosto de Orson Welles parece destacar-se da escuridão sem se livrar completamente dela, o que é bastante apropriado para um homem que gostava de cultivar o mistério à volta da sua vida.

Há uma força, neste retrato de Orson Welles, que me leva a escolhê-lo como uma das melhores fotografias de sempre; este é um retrato de uma profundidade e intensidade que, a meu ver, apenas foi atingido por outros retratos da própria Jane Bown, como o de Samuel Beckett. É, numa palavra, um retrato admirável de um homem admirável – feito por uma fotógrafa também ela admirável, cuja morte recente pode ter significado que o mundo da fotografia perdeu o último dos grandes retratistas.

M. V. M.

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