As melhores fotografias de sempre (11)

Coltrane

John Coltrane por Francis Wolff, 1958

Demorei muitos anos a compreender o Jazz. Tive de atravessar um longo processo em que me desfiz de ideias preconcebidas e entendi que o Jazz é uma linguagem musical extremamente complexa e sofisticada que, para se exprimir convenientemente, exige dos seus músicos o mesmo tipo de conhecimentos musicais que se requerem de um músico de orquestra. Adquirido este grau de compreensão do Jazz, e depois de ter tido contacto com as suas correntes mais importantes, pude finalmente apreciar Jazz. Hoje tenho a maior reverência por este estilo e pelos seus músicos e compositores. A despeito da liberdade de execução que Ornette Coleman trouxe ao Jazz no final dos anos 50, improvisar – o Jazz vive sobretudo do improviso – não é algo que esteja acessível a qualquer um e só os muito dotados conseguiram inscrever o seu nome na história do Jazz.

Um destes últimos é John Coltrane, que figura nesta fotografia que constituiu o tema do texto de hoje. Mas não é – ou não é apenas – sobre Coltrane que quero escrever: é sobre as relações entre o Jazz e a fotografia. Com o Bebop, o Jazz tornou-se num estilo de vanguarda; os ambientes em que era tocado e o estilo de vida dos músicos e compositores, bem como a sofisticação que esta música atingiu nesse tempo, concederam ao Jazz um estatuto de arte que antes não lhe era reconhecido. Foi a partir dessa época que o Jazz conheceu o interesse de músicos como Günter Schuller e de académicos que dedicaram os seus estudos a esta forma de arte. Era deste modo inevitável que os fotógrafos artísticos se interessassem por Jazz – não apenas por uma comunhão de modos e estilos de vida, mas também por interesse profissional.

Na segunda metade dos anos 50 do Século XX, a Blue Note contratou o designer Reid Miles e começou a usar um estilo gráfico extremamente sofisticado e inovador para as capas dos seus álbuns. Além de um grafismo minimalista, mas elegante, a Blue Note usou algumas das melhores fotografias de músicos de Jazz alguma vez feitas para produzir capas que revolucionaram o modo como os LPs deste estilo musical eram apresentados. Estas capas, para as quais as fotografias contribuem de modo decisivo, deixaram todo o artwork anterior irremediavelmente datado, transmitindo uma ideia de modernidade que faz com que ainda hoje a maior parte das capas dos álbuns da Blue Note lançados a partir da segunda metade da década de 50 seja actual e apreciada pela sua estética. As concepções gráficas de Reid Miles, deve dizer-se, eram de tal maneira eficazes que se tornou possível conceber capas de enorme impacto visual prescindindo da fotografia (o melhor exemplo é a capa de Somethin’ Else, de Cannonball Adderley, que ainda hoje é um exemplo da qualidade da concepção gráfica das capas da Blue Note).

O fotógrafo a quem a Blue Note recorreu para criar estas capas foi Francis Wolff. As fotografias eram, evidentemente, a preto-e-branco, em chiaroscuri ou com as altas luzes tingidas (mais frequentemente de azul, por razões óbvias). Francis Wolff fotografou praticamente todos os músicos de Jazz que tocaram ou gravaram no período compreendido entre 1956 e 1965; como, com algumas excepções, todos os grandes nomes do Jazz gravaram pelo menos um álbum para a Blue Note, pode inferir-se que quase todos eles foram fotografados por Francis Wolff.

As fotografias de Wolff tinham tanto de revolucionário como os grafismos de Reid Miles. Em lugar de mugshots ou de fotografias meramente documentais, Wolff optou por fotografar os músicos em momentos singulares, transmitindo a atmosfera dos clubes e estúdios e capturando momentos que precediam ou sucediam as gravações e actuações. Deste modo, é frequente encontrar capas em que os músicos surgem em enquadramentos extremamente invulgares (para a época) e com expressões que levam a deduzir que Wolff os surpreendeu: com efeito, raramente as fotografias de Wolff são encenadas ou obtidas com recurso a poses, sendo espontâneas e naturais como os improvisos dos músicos retratados.

Um destes músicos foi John Coltrane. A fotografia sobre a qual escrevo foi feita por Francis Wolff durante a gravação de Blue Train e usada na capa do álbum depois de recortada e tingida. A atitude corporal de John Coltrane diz quase tanto sobre ele como a sua música ou uma biografia: apesar de ser evidente que gozava um momento de descontracção (possivelmente entre duas gravações), a sua expressão facial permaneceu concentrada e meditativa, como se pensasse nas progressões harmónicas que usaria no próximo improviso. É preciso dizer que John Coltrane era um músico extremamente exigente consigo mesmo, tendo levado a sua arte musical a extremos nunca atingidos por outros músicos; embora possam parecer livres, os seus improvisos eram o resultado de um enorme trabalho intelectual que levou a que se tornasse na referência para todos os saxofonistas que lhe sucederam. A fotografia de Wolff que serviu de capa a Blue Train descreve tudo isto: nela é patente o esforço intelectual despendido por John Coltrane, a sua concentração e a intensidade com que se dedicava à música.

Apesar de o design de capas de Jazz ter atraído fotógrafos excepcionais como Lee Friedlander, as capas de álbuns de Jazz da nunca mais tiveram a mesma qualidade depois de Francis Wolff ter abandonado a Blue Note em 1965. Ainda hoje as fotografias de Wolff e os designs de Reid Miles permanecem inimitados e servem de referência e inspiração. Como em muitos casos, foi-me difícil, atenta a qualidade do trabalho de Francis Wolff, destacar uma das suas fotografias – mas penso que escolhi uma das melhores, pelo que é capaz de transmitir ao espectador – em especial se este for um entusiasta de Jazz.

M. V. M.

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2 thoughts on “As melhores fotografias de sempre (11)”

  1. Confesso que me agrada este novo modelo para o blog. Tem um ar muito limpo e enxuto, pecando apenas por ser pouco intuitivo na hora de procurar a caixa de comentários.
    Mas este blog é mais para ler e menos para comentar:)

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