As melhores fotografias de sempre (10)

Cheguei à décima fotografia do que não é, nem quero que seja visto como tal, um top ten de fotografias. (Quero chegar pelo menos à dúzia.) Acreditem ou não, escolher estas dez foi uma tarefa inacreditavelmente difícil. O que eu me propus foi escolher fotografias de excelência, feitas por fotógrafos que são autores de obras de entre as quais é difícil – e porventura injusto – seleccionar uma da qual possa ser dito que é a melhor. Difícil, porque escolhi entre fotografias de mestres absolutos da fotografia. Tomemos o exemplo de Josef Koudelka: muitas das fotografias que ele fez antes da invasão de Praga são absolutamente notáveis; muitas delas merecem figurar numa lista das melhores de todos os tempos. Mesmo entre as que Koudelka fez durante a invasão de Praga, existem muitas que poderiam condignamente figurar numa listagem das melhores fotografias de sempre para além da que escolhi. Do mesmo modo, a minha opção por Srinagar, de Henri Cartier-Bresson, significou deixar para trás algumas fotografias que podem facilmente ser consideradas mais representativas do estilo de HC-B.

Contudo, também já disse aqui que o meu propósito foi escolher fotografias, mais do que fotografias de determinados fotógrafos. É porém inevitável mencionar aqui estes últimos: os bons fotógrafos fazem boas fotografias. Os melhores fotógrafos fazem as melhores fotografias. Ou melhor: as melhores fotografias de sempre foram feitas pelos melhores fotógrafos de sempre. As únicas excepções, nesta minha escolha, são a fotografia de Monk e Pannonica, de Ben Martin, e Power House Mechanic Working on a Steam Pump, que é uma fotografia excepcionalmente boa de um fotógrafo cujo principal fim não foi fazer fotografia artística.

Por tudo isto, é impossível abstrair dos autores quando o tema é as melhores fotografias.

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Robert Doisneau, Le Cheval Tombé, 1942

Um dos melhores fotógrafos de sempre é Robert Doisneau. Pelo menos é um dos com que mais simpatizo. A sua obra é extensa e diversificada, muitas das suas fotografias revelam ter sido uma pessoa com um sentido de humor extremamente refinado e subtil e, o que é mais importante, as suas fotografias são de enorme qualidade. A sua obra não pode, de maneira nenhuma, resumir-se a O Beijo no Hotel de Paris. Além disto, Robert Doisneau providenciou-me um ensinamento extremamente útil com o método a que chamou o pequeno teatro: escolher um cenário e esperar pacientemente que uma cena interessante se desenrole à sua frente. Esta – eu chamo-lhe Método Doisneau – é a melhor maneira de fazer fotografia de rua.

Curiosamente, a fotografia que escolhi para hoje não usa este método: é uma cena espontânea que Doisneau viu e lhe pareceu merecedora de ser fotografada. Nesta fotografia vê-se um cavalo que acabara de escorregar no gelo que cobria o pavimento e um número de populares à sua volta. Os transeuntes não esboçam um gesto que seja para ajudar o cavalo a levantar-se, criando a impressão de que este está deixado à sua sorte, lutando sozinho para se levantar. Não podia contar com a ajuda dos curiosos que, apesar do interesse aparente, são indiferentes ao destino do cavalo.

Ora, esta fotografia foi feita em Paris no ano de 1942. A esse tempo, a França estava ocupada pelas forças do III Reich. Muitos não tardaram em ver nesta fotografia uma analogia com a situação da França ocupada: os demais países ocidentais – i. e. os que estavam livres da ocupação nazi – permaneceram indiferentes à sorte da França durante demasiado tempo, tal como os transeuntes da fotografia. Viram a França ser invadida, com a constituição de um governo-fantoche em Vichy, mas nada fizeram para ajudar – exactamente como os populares que figuram no enquadramento. Coube à França livre lutar sozinha, impotente, contra a força desproporcionada do invasor – tal como o cavalo que, deixado à sua sorte, parece incapaz de se levantar sozinho. Os seus esforços seriam sempre em vão, tal como a luta de uma resistência heróica, mas mal armada e organizada. Só em 1944, dois anos depois desta fotografia, é que se deu o desembarque na Normandia. Dois anos demasiado tarde.

Eu não sei se Robert Doisneau teve a intenção de tornar esta fotografia num símbolo da França sob a ocupação nazi, ou se foram outros que a interpretaram dessa maneira. Em qualquer dos casos, esta Le Cheval Tombé é uma metáfora poderosa de uma circunstância histórica triste e lamentável. Parece-me bem mais digna de figurar entre as melhores fotografias de sempre que O Beijo no Hotel de Paris – por muito boa que esta última seja, não tem a carga simbólica de Le Cheval Tombé.

M. V. M.

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