As melhores fotografias de sempre (9)

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Henri Cartier-Bresson, Srinagar, 1948

Seria a mais cruel das injustiças escrever uma série de textos sobre grandes fotografias e não incluir nenhuma de Henri Cartier-Bresson (1908-2004). Apesar de ter tentado evitar os lugares-comuns (mesmo reconhecendo que entre estes estão fotografias de excelência), e sendo que o nome de HC-B é lugar-comum na história da fotografia, não há contudo como evitar incluir pelo menos uma das suas fotografias nesta série. A única dificuldade está na escolha e, tal como aconteceu com W. Eugene Smith, resolvi este problema optando por uma fotografia que, não sendo porventura representativa do principal género a que o fotógrafo se dedicou, é contudo a sua fotografia que considero mais bela.

Não há muito a dizer sobre Henri Cartier-Bresson. Ou melhor: tudo o que haveria a dizer já foi dito por outros – e bem melhor do que eu poderia fazê-lo. Contudo, penso que a importância de Henri Cartier-Bresson é frequentemente exagerada. Este exagero tem a sua origem numa assimilação entre alguns estilos de fotografia e o seu nome, da mesma maneira que se associa Picasso ao cubismo ou Kafka ao absurdo. Por outras palavras, fala-se de Henri Cartier-Bresson como se tivesse dominado a fotografia e como se fosse o único relevante nos estilos a que se dedicou. O que, além de injusto, é inexacto.

Cartier-Bresson foi um fotógrafo de extrema importância, mas não tanta como aqui na Europa gostamos de pensar. Apesar de ser havido como o precursor (ou pai) de vários géneros e estilos de fotografia, há muitos fotógrafos que tiveram um contributo fundamental para esta arte, precedendo cronologicamente Cartier-Bresson, sem que todavia lhes seja atribuído o lugar que merecem. Os primeiros surrealistas – HC-B é frequentemente referido como o precursor do surrealismo na fotografia – foram os dadaístas, entre os quais avulta Man Ray; HC-B é tido como o maior repórter ou fotojornalista (esta é outra paternidade que lhe é atribuída), mas W. Eugene Smith foi-lhe muito superior; Kertész e Brassaï – e mesmo nomes mais antigos como Steichen, Lartigue e Eugène Atget – faziam fotografia de rua antes de HC-B (outra paternidade que lhe é erroneamente atribuída).

Qual foi, então, a importância de HC-B para a fotografia? Foi, sobretudo, ter feito a fotografia de rua e o surrealismo melhor que qualquer outro. O que lhe conferiu essa superioridade foi ter formulado e aplicado o conceito de «momento decisivo» com a sua fotografia. Quase toda a obra fotográfica de Henri Cartier-Bresson se baseia naquilo a que chamou o momento decisivo. Este seu conceito é, na essência, a captura fotográfica de um instante que vai determinar toda a estética e conteúdo da fotografia. Há uma fracção de segundo em que, numa determinada cena que o fotógrafo vê através do visor da sua máquina, tudo se conjuga para resultar numa imagem fotográfica de relevo: é o momento em que a cena se organiza e dá origem a uma composição com interesse fotográfico. Isto pode parecer muito evidente hoje em dia, mas HC-B foi o primeiro a formular este conceito e a aplicá-lo.

O momento decisivo não é fácil de discernir ou de captar. Há, sobretudo na fotografia de rua, alturas em que esse momento é tão fugidio que desaparece antes de se ter tido oportunidade de captá-lo; e há outros momentos que são constituídos por eventos tão subtis que só um fotógrafo extremamente arguto e atento consegue percebê-los: um gesto, um olhar, um movimento. Exemplos de como Cartier-Bresson conseguiu fixar esse momento decisivo são dados por fotografias como a Derrière la Gare de St Lazare e a fotografia do ciclista de 1932.

O conceito de momento decisivo revolucionou a fotografia; o que antes era estático tornou-se dinâmico; e este conceito permitiu o nascimento de um novo género, a que se convencionou chamar reportagem, que esteve na origem do fotojornalismo. Com efeito, o que é o fotojornalismo senão a captura do instante em que os elementos cénicos se compõem no enquadramento para criar uma imagem significativa?

A fotografia que vos mostro captura um momento decisivo: aquele em que a mulher ergue as mãos. Este gesto confere toda a expressão à imagem. Esta fotografia é uma ilusão sublime: ainda hoje se discute o que as mulheres que figuram no enquadramento realmente faziam quando Cartier-Bresson as fotografou: uns dizem que estavam em oração, outros que choravam um infortúnio qualquer, mas o momento em que HC-B capturou aquele gesto, conjugado com o cenário, cria a ilusão de adoração da beleza que a paisagem simboliza, como se fosse a adoração da natureza e do mundo. Há nesta fotografia uma ilusão de sublime e de grandeza que torna esta fotografia, a meu ver, uma das mais importantes de sempre e certamente uma das mais belas.

Escrevi, quando comentei A Walk to the Paradise Garden, que só esta Srinagar se lhe comparava em beleza, mas são fotografias muito diferentes: mais humana e íntima, a do fotógrafo que aprendi a amar acima de todos os outros; mais grandiosa, divina e poderosa, a de Henri Cartier-Bresson. Não me cabe a mim dizer que uma é melhor que a outra; aliás, está para além dos meus conhecimentos atrever-me a seleccionar qualquer fotografia como a melhor ou mais bela de sempre. Como avisei desde o dia em que me propus fazer esta selecção das melhores fotografias de sempre, estas são escolhas pessoais, baseadas na minha sensibilidade e na maneira como eu vejo fotografias; não é nenhuma manifestação de autoridade nem tem nada que ver com estabelecer hierarquias (a ordem com que as apresento é completamente aleatória). Trata-se, simplesmente, do meu gosto.

M. V. M.

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