As melhores fotografias de sempre (8)

Uma fotografia de um fotógrafo vivo! A lista dos autores das fotografias que mostrei nesta série de textos podia ser interpretada como um obituário de grandes fotógrafos, mas hoje, apenas pela segunda vez (o outro fotógrafo vivo presente nesta série é Josef Koudelka), apresento uma fotografia feita por um autor que ainda não morreu: Ralph Gibson (n. 16 de Janeiro de 1939) ainda é vivo e é provável que ainda pegue numa câmara de vez em quando. (Não faço ideia.)

Já que falo nos autores das fotografias: um leitor sugeriu-me nomes de fotógrafos para mostrar nesta série. Foi um contributo interessante que agradeço, mas estes textos sob o título As Melhores Fotografias de Sempre são sobre as fotografias e não sobre os seus autores. Estes podem ser referidos, mas não numa perspectiva biográfica: as menções servem para prover um contexto às fotografias, a despeito de muitas delas valerem pelo que são, independentemente de quem as fez.

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Ralph Gibson, sem título, da série O Sonâmbulo, 1968

Esta é uma dessas fotografias que têm um valor expressivo intrínseco: a imagem é autosuficiente e não necessita de qualquer contexto para que a mensagem seja compreendida, mas é uma daquelas cuja interpretação é aberta a cada espectador, que retirará sentidos dela de acordo com a sua sensibilidade e imaginação.

Eu não sei que chamar a esta fotografia. Surrealista? Mas como, se lhe falta o elemento do irreal? Esta fotografia, e os objectos que figuram no enquadramento, são reais. Expressionista? Talvez, no sentido em que procura exprimir sensações interiores do artista, mas se olharmos a obra de Ralph Gibson no seu conjunto – a sua obra é composta, em grande parte, por nus -, torna-se difícil rotulá-lo dessa maneira. O que, de resto, não é importante: o que conta, na apreciação de uma fotografia, não é compartimentá-la numa determinada escola ou corrente, mas vê-la. E extrair dela as impressões que for capaz de causar.

Há nesta fotografia uma exploração do mundo interior. Algumas fotografias de Ralph Gibson têm a característica de, parecendo retratar as ideias do autor, estarem na verdade a remeter para o mundo interior do espectador. Esta, tal como as outras da série O Sonâmbulo, é uma delas. Esta fotografia parece descrever um sonho – ou um pesadelo, dependendo da sensibilidade e do estado de espírito de quem a vê. A perspectiva, comprimida pela orientação vertical e pela quase ausência de espaço à volta do motivo, torna a fotografia claustrofóbica, angustiante – quase sufocante, de tão intensa. O vazio do corredor, e aquele que se vislumbra atrás da porta, induz sensações de estranheza e desconforto. Ao mesmo tempo, esta fotografia evoca sensações de familiaridade, como se todos já tivéssemos visto aquela porta entreaberta – algures, num tempo de que não nos recordamos mas está presente. Vagamente presente.

Esta fotografia não pode deixar de ter sido uma inspiração para o nosso Daniel Blaufuks. Como Gibson, também ele explora as ambiguidades da memória nas suas fotografias. Há em ambos uma linguagem que é muito semelhante – curiosamente, ambos fizeram fotografias em que uma mão segura um relógio de bolso e uma com uma mão segurando um espelho no qual se vê o reflexo da personagem – e remete para memórias fragmentárias.

Nesta fotografia vê-se uma mão preparando-se para agarrar o puxador da porta, envolta numa luz subtil; a mão é uma sombra, o que abre espaço à sensibilidade e à imaginação. Apenas se vê aquela mão, mas sabe-se que, atrás da porta, está alguém. Quem? O facto de a mão ser apresentada como uma silhueta torna-a fantasmagórica; causa perturbação e medo, mas um medo difuso e subtil que nos invade pouco a pouco; a mão escanzelada, de dedos finos e compridos, deixa adivinhar que é alguém malévolo (a morte? O anjo da morte? Todas as interpretações são permitidas), mas Ralph Gibson joga com os significados que atribuímos à luz e à sombra, fazendo com que a imaginação nos leve a pensar no que acontecerá quando se abrir a porta: veremos uma figura sinistra, ou a luz que transborda da porta entreaberta (a luz é associada a sensações de paz e bem-estar e tem uma forte conotação divina) mostrará algo de bom e agradável, mas estranho – quem sabe uma figura querida que já não está no nosso meio?

Nunca saberemos, nem de resto era essa a intenção de Ralph Gibson. O que ele quis foi deixar-nos a adivinhar significados para esta fotografia; foi jogar com a nossa sensibilidade, os nossos medos e a nossa imaginação. Esta fotografia é ambígua, mas prega partidas ao espectador. É isto que, a meu ver, a torna numa das melhores fotografias de sempre.

M. V. M.

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2 thoughts on “As melhores fotografias de sempre (8)”

  1. Pode ser uma das melhores fotografias de sempre, mas, pelos erros de perspectiva irreal das sombras e pela altura do tecto da sala por trás da porta (que nos é dada também pela respectiva sombra), penso que é uma montagem. Não sei se estes erros são intencionais ou não, mas o que é certo é que me fazem confusão e me impedem de ver e interpretar com clareza esta fotografia.

    M. M.

  2. O erro de perspectiva que vê deve-se ao uso de uma grande-angular. É extremamente difícil obter uma simetria perfeita com estas lentes.
    Se reparar bem, a altura do tecto é a mesma na sala atrás da porta e no corredor. Se é uma montagem, é muito bem feita porque não há descontinuidade nas tábuas do soalho (lembre-se que nesta altura não havia Photoshop). Mesmo que fosse, a fotografia não deixa de causar impressões subjectivas, que são mais importantes que quaisquer considerações técnicas.

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