O que eu aprendi com as melhores fotografias de sempre

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Ainda não acabei. Quero publicar mais algumas das fotografias que entendo serem as melhores de todos os tempos, mas para já – enquanto não me lembro de mais nenhuma –, penso ser oportuno formular algumas considerações, não sobre as fotografias em si, mas quanto ao processo que me levou a seleccioná-las.

Os meus critérios na escolha destas fotografias foram, não necessariamente por esta ordem, a apreciação estética, a sua importância histórica e o conteúdo de cada uma. Reputo todas estas fotografias de belíssimas; em todas existem elementos estéticos e composicionais que as tornaram históricas, mas são, sobretudo, fotografias extremamente expressivas. Todas elas têm uma mensagem, contam uma história que não necessita de palavras para ser compreendida. São todas fotografias que têm um valor intrínseco, nenhuma delas é uma ilustração.

Evidentemente, é necessário ter uma predisposição para ver uma fotografia para além da sua estética. Algo que me surpreendeu, enquanto escrevia os respectivos textos, foi quanto pude extrair de cada fotografia: os textos saíram-me mais palavrosos do que esperava, mas senti que deixei ainda muito por dizer sobre cada fotografia. Cada uma tem uma complexidade e um contexto que carecem de interpretação e observação atenta. Cada um dos fotógrafos – e deve atentar-se que todos, com a possível excepção de Ben Martin, autor da fotografia de Pannonica e Monk, são monstros da fotografia – exprimiu magistralmente as suas ideias e a sua intenção fotográfica com estas fotografias. Isto é muito mais importante do que o domínio da técnica, mas possivelmente, em muitos casos, não poderia ter sido obtido se não existisse mestria técnica.

Tomemos o exemplo de Power House Mechanic Working on Steam Pump, de Lewis Hine: esta fotografia ilustra o esforço e a dureza do trabalho, mas a mestria técnica tem aqui o efeito de criar a ilusão de que homem e máquina são um só. Este efeito é criado através do enquadramento e da continuidade das linhas e vectores formados pela máquina e pelo operário, as quais são de tal maneira harmoniosos que dão uma fluidez à fotografia, fazendo com que os olhos percorram a imagem num continuo. Fotografias como estas não estão ao alcance de qualquer um, mas mais importante é que a técnica contribuiu para que o fotógrafo exprimisse a sua intenção da melhor maneira possível.

Todas estas fotografias – de novo com a excepção da de Ben Martin – são imensamente populares. Não procurei que a popularidade fosse critério da escolha, mas esta característica é inevitável por causa da sua enorme qualidade e da importância que todas elas assumiram dentro da fotografia dita artística. Não é uma questão de popularidade propriamente dita, mas de notoriedade e reconhecimento. Apesar de ter tentado fugir aos lugares-comuns – não haverá textos sobre Derrière la Gare de St. Lazare nem Le Baiser de L’Hôtel de Ville, a despeito da sua importância –, não é possivel contornar as fotografias que seleccionei. São populares, não por irem ao encontro do gosto das multidões, por serem tão boas.

E que retirei eu das fotografias que mostrei para as minhas próprias fotografias? Muito pouco ou nada. Quando muito, ver estas fotografias – algumas das quais já conheço há dezenas de anos – ensina-me a fotografar com algum sentido, a mostrar algo que seja relevante. Eu nunca farei uma fotografia que tenha uma milésima parte do valor de cada uma das que mostrei e conto continuar a mostrar. Isto não me desmotiva porque todas estas foram feitas em circunstâncias que não vivi e nunca se repetirão. Além de não ser fotojornalista nem aspirar a uma participação na vida pública com as minhas fotografias, vivo numa época e num lugar onde muito pouco de relevante acontece e o que acontece tem pouco ou nenhum interesse fotográfico. Resta-me retirar ensinamentos estéticos e composicionais, bem como procurar fazer fotografias que tenham vida própria. Esta é, de resto, a mais difícil das tarefas que se põe a quem fotografa.

Não podia terminar esta apreciação intercalar sem mencionar aquele que foi o ensinamento mais importante desta observação das melhores fotografias de sempre: conhecer a obra fotográfica de W. Eugene Smith. Esta foi a maior revelação de todas desde que dedico a minha atenção à fotografia. Eu conhecia algumas das suas fotografias – poucas, mas algumas –, mas aprofundar o conhecimento da obra de Smith foi uma das melhores coisas que me aconteceu. Saber que este homem que viu tudo o que há para ver no mundo era de enorme integridade, nunca aceitando compromissos, e viveu enormes dificuldades por causa deste seu carácter – conta-se que tinha 18 dólares na sua conta bancária quando morreu –, fez-me admirar o homem para além da sua obra. Se pudesse e tivesse meios para tanto, dedicaria uma parte substancial da minha vida e dos meus esforços a promover e divulgar a obra e a vida deste gigante da fotografia, deste nome que foi, no meu entender, o maior de todos na história da arte que em boa hora resolvi abraçar. W. Eugene Smith foi porventura o maior e mais satisfatório ensinamento que extraí destas minhas pesquisas.

M. V. M.

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2 thoughts on “O que eu aprendi com as melhores fotografias de sempre”

  1. Embora menos reconhecido e mais contemporâneo, ocorre-me sugerir o trabalho de Constantine Manos e lançar o repto a um conjunto de posts, sobre fotógrafos portugueses, como o de Aurélio Paz dos Reis.

    1. Obrigado pelas sugestões, mas estas entradas são sobre fotografias, não sobre os seus autores. Manos tem boas fotografias, mas nenhuma que me pareça ser uma das melhores de sempre.
      Quanto aos portugueses, já me referi aqui a Artur Pastor, Daniel Blaufuks, Eduardo Gageiro, Alfredo Cunha e muitos outros. Há uma série de textos com título «Em busca da excelência» em que me refiro a alguns deles. O Aurélio tem fotografias fantásticas – mas, hélas, nenhuma que tivesse mudado o mundo. Tal como o meu conterrâneo Domingos Alvão, aliás.

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