As melhores fotografias de sempre (7)

Kertesz_The_Fork

André Kertész, O Garfo

Sim, o que estão a ver é um garfo. Esta fotografia é um clássico do modernismo: tudo o que nela conta é a forma. De muitas maneiras, O Garfo é uma ruptura: ruptura com o que o próprio Kertész fez até então, ruptura com o estilo de fotografia que se impusera como tradicional durante os finais do Século XIX até ao advento do modernismo. Este movimento – e deve notar-se que André Kertész não foi o seu nome principal, nem sequer podendo ser definido como um modernista – libertou a fotografia da sua condição de sucedâneo da pintura.

Isto teve repercussões inimagináveis na fotografia artística: mais do que descrever um motivo, mostrando-o fielmente tal como a nossa percepção o vê – o que de resto seria impossível por a fotografia apenas mostrar duas dimensões e por causa do preto-e-branco –, o modernismo procurou uma linguagem abstracta que, embora partindo de objectos reais (*), os mostra desligados das referências da realidade – ou talvez seja melhor dizer livres da sua própria realidade. Digamos que a fotografia subverteu todas as concepções vigentes até então e libertou o fotógrafo, que agora podia explorar a linguagem fotográfica sem os constrangimentos da identificação com a realidade e das regras do pictorialismo que à época dominavam a fotografia.

Esta libertação implicou que a fotografia tivesse deixado de ser uma descrição do real para se tornar numa mera alusão a ele. O que contava, para os fotógrafos desta época, era a busca das formas, independentemente de qualquer sentido ou mensagem e longe das convenções até então vigentes. O modernismo foi frequentemente incompreendido, como se pode depreender da passagem de O Olhar do Fotógrafo, de Michael Freeman, onde pode ler-se (p. 147) o comentário de M. F. Agha, director artístico da Vogue nos anos 20 do Século passado, sobre a fotografia modernista: «A fotografia modernista é facilmente reconhecida pelo seu assunto. Ovos (qualquer estilo). Vinte sapatos em fila. Um arranha-céus, fotografado num ângulo modernista. Dez chávenas de chá em fila. Uma chaminé de fábrica vista através dos ferros de uma ponte ferroviária (ângulo modernista). O olho de uma mosca aumentado 2000 vezes. O olho de um elefante (do mesmo tamanho). O interior de um relógio. Três cabeças diferentes de uma mulher sobrepostas. O interior de um caixote do lixo. Mais ovos.» O que não se pode dizer, contudo, é que o modernismo não influiu decisivamente na fotografia que veio a fazer-se durante e depois dele: essa influência foi tão determinante que operou uma verdadeira revolução na fotografia artística.

O Garfo, de André Kertész, é uma aplicação dos conceitos modernistas. É uma fotografia quase parnasiana na sua concepção formal, porque não tem nada de verdadeiramente substancial a dizer: é apenas a fotografia de um garfo. E, ao mesmo tempo, esta singeleza e aparente vacuidade tem muito a dizer: tem a dizer que pode existir beleza e perfeição nas formas simples de um objecto usado quotidianamente – o que é o mesmo que dizer que o interesse fotográfico não está cingido a rostos ou paisagens e que é o olhar do fotógrafo que comanda a estética e a temática. Esta fotografia diz também, por consequência, que tudo pode ser fotografado, desde que dali resulte uma composição com valor artístico.

Mais importante do que isto é que a beleza deixou de estar no motivo para se centrar na própria fotografia, na própria imagem. O fotógrafo deixou de ser obrigado a descrever o real, a descrever fotograficamente as coisas em concordância com a percepção que temos delas. Ao contrário da pintura, porém, a fotografia tem a limitação de partir sempre da realidade dos objectos vistos pela máquina. O que muda é a forma como estes são fotografados – já não para ilustrá-los, mas para mostrá-los à luz da maneira como o fotógrafo as vê. As formas são fotografadas como algo puro e independente das qualidades do objecto. Kertész fotografou um garfo, Weston fotografou legumes e uma sanita. Há nestas escolhas dos motivos, evidentemente, um elemento de provocação determinado pela ânsia de ruptura com a linguagem tradicional, mas há também uma procura de formas puras, de uma estética que, estando presente nos objectos, se desprende deles para ganhar autonomia e vida própria.

Concentremo-nos neste garfo: ele está pousado subtilmente, delicadamente, sobre um prato vazio; este parece uma metáfora da própria imagem: é como se a substância das coisas não interessasse para nada. E, contudo, as formas são incrivelmente elegantes: os dentes do garfo, a curvatura do cabo e a linha do prato formam curvas que, de tão harmoniosas, chegam a ser sensuais; os tons sofisticados conferem uma expressão de luxo sóbrio e despojado à imagem; e as sombras contribuem para a estrutura da fotografia como se fossem elas mesmas um objecto. O Garfo é uma fotografia genial na estética e na composição, mas também no modo como confronta o espectador com a sua apreciação. Fotografar um garfo não passa de um absurdo aos olhos do senso comum, habituado que estava a encontrar a beleza de um rosto ou de uma paisagem. André Kertész não foi tão provocador como Man Ray, mas com O Garfo contribuiu para emancipar a fotografia, para a libertar dos espartilhos temáticos e estéticos, mudando o centro de gravidade do objecto para a imagem em si mesma e treinando o espectador a olhar para lá do óbvio.

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(*) Mas nem sempre: algumas fotografias desta época incluíam artefactos sobrepostos à imagem, como as ranhuras da caixa de ressonância de um violoncelo na célebre fotografia de Man Ray, o que introduzia elementos alheios à realidade com que a câmara se deparara.

M. V. M.

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