W. Eugene Smith e eu

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Posso não ter uma câmara nova, ao contrário do que levei alguns a pensar com o meu texto do dia 1 de Abril, mas ao longo da semana que passou ganhei muito mais que isso: uma admiração fervorosa por um fotógrafo verdadeiramente excepcional, um dos mais importantes de sempre cujas fotografias nunca páram de me impressionar. Esse fotógrafo, essa eminência da fotografia, é W. Eugene Smith.

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Enquanto escolhia imagens para figurar nos textos que tenho dedicado às melhores fotografias que conheço, deparei frequentes vezes com as de William Eugene Smith. Já conhecia A Walk to the Paradise Garden, a fotografia à qual dediquei um texto por considerá-la a mais bonita de todos os tempos (a par com Srinagar, de Cartier-Bresson); do mesmo modo, os meus olhos já passaram por muitas outras fotografias de W. Eugene Smith, mas aprofundar as pesquisas sobre a sua obra é fascinante: não há uma única que possa dizer que é mal executada ou de gosto discutível, mesmo quando ele fotografou a fome, a morte e a doença. Mesmo quando feitas em circunstâncias em que é obrigatório ser rápido e não há muito tempo para pensar, todas têm um sentido impecável de composição e uma estética facilmente reconhecível. É preciso dizer, a este propósito, que W. Eugene Smith era um perfeccionista: era um fotógrafo que dava uma importância extrema à revelação e à ampliação, a qual trabalhava diferentemente conforme fosse para exposição ou para impressão em livros ou revistas, e cortava abundantemente as fotografias. «[I crop] for the benefit of the pictures» – afirmava W. Eugene Smith. «The world just does not fit conveniently into the format of a 35mm camera.»

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Albert Schweitzer, por W. Eugene Smith

Em muitos aspectos, W. Eugene Smith é um precursor. As suas fotografias tendem para o low key, com sombras carregadas e contrastes intensos, o que podemos considerar ser a tendência actual do preto-e-branco. As suas fotografias são intensas e induzem sentimentos profundos em quem as vê. Ao contrário de um Robert Capa (e eu a dar-lhe: mas a verdade é que as suas fotografias mais famosas, Morte de um Soldado Lealista e as do desembarque na Normandia, são péssimas de um ponto de vista estritamente técnico), as fotografias de reportagem de W. Eugene Smith estão próximas da perfeição, sem contudo comprometer o que quer que fosse quando se tratou de transmitir a mensagem. É esta qualidade, a que chamo frequentemente mestria, que distingue W. Eugene Smith dos seus pares: ele converteu fotografias documentais em obras de arte, nisto inspirando toda uma geração de fotojornalistas (entre os quais os do Bang Bang Club, como Kevin Carter e o nosso João Silva). Quase arrisco a dizer que há um estilo fotojornalístico anterior e outro posterior a W. Eugene Smith.

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Afirmei, no meu texto sobre A Walk to the Paradise Garden, que W. Eugene Smith é mais fotógrafo que Henri Cartier-Bresson. Mantenho esta afirmação a despeito de já ter cunhado HC-B de «o deus da fotografia». Claro que, para manter a coerência, posso sempre dizer que a fotografia é politeísta, mas o que quis dizer é que HC-B fotografou para converter os seus conceitos artísticos em imagens; o facto fotográfico vem depois do conceito. Com W. Eugene Smith o facto precede o conceito artístico: é o dado, o objecto da sua fotografia. O que Smith fez foi mostrar o facto através de uma linguagem artística altamente sofisticada. A sua busca é pela imagem, não pelo conceito ou essência. Curiosamente, entendo também que esta diferença entre estes dois monstros da fotografia é a consequência das concepções artísticas, filosóficas e culturais diferentes que sempre vigoraram na Europa continental e nos países anglo-americanos: nestes últimos prevalece o pragmatismo, enquanto na Europa se tende a privilegiar conceitos puros. Não que os anglo-americanos desconheçam os conceitos; pelo contário. Simplesmente, estes não são um prius. A fotografia de Henri Cartier-Bresson é a ilustração de uma concepção artística, a de W. Eugene Smith é uma aplicação prática de um conceito a uma realidade pré-existente. Nela, o importante é a captura do momento; a arte não é a razão em si, mas a forma como o objecto é mostrado.

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Discussões filosóficas à parte, resta o facto de as fotografias de W. Eugene Smith me causarem sensações intensas. Quando olho as fotografias de Albert Schweitzer ou as suas fotografias de guerra (é preciso ter também em consideração que Smith pode ser considerado o primeiro fotógrafo ensaísta), sinto na pele e no cérebro as emoções que W. Eugene Smith pretendeu transmitir. Por causa da mensagem, sem dúvida, mas também pela forma como são mostradas. Há nelas um conteúdo emocional que não vejo em muitos outros fotógrafos célebres.

Depois há, evidentemente, A Walk to the Paradise Garden, fotografia que posso ver constantemente sem nunca perder a ternura que ela me induz. Se W. Eugene Smith só tivesse feito esta fotografia, mereceria ainda assim todo o respeito e admiração que adquiriu. É o meu fotógrafo favorito? Não posso afirmá-lo peremptoriamente, porque tal implicaria conhecer a fundo a obra de todos os fotógrafos do mundo – mas posso dizer, a partir das fotografias que conheço dele, que é aquele cuja obra mais reverencio.

M. V. M.

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