As melhores fotografias de sempre (6)

Lewis_Hine_Power_house_mechanic_working_on_steam_pump

Lewis Hine, Power House Mechanic Working on Steam Pump, 1920

A relação do homem com a máquina é algo que tem preocupado todos os seres pensantes desde, pelo menos, a revolução industrial. A máquina foi criada para facilitar a vida ao homem ou para ajudá-lo a criar riqueza mais depressa? Usamos as máquinas ou são elas que nos usam a nós?

A propriedade dos meios industriais de produção criou novas formas de desigualdade social: se, antes da revolução industrial, existiam amos e servos, depois do advento da máquina a dicotomia transferiu-se para a relação entre capitalista e operário. A notícia da abertura de fábricas, normalmente nos grandes centros urbanos, levou milhares a migrar do campo para a cidade; cedo surgiram os excluídos, aqueles que não eram absorvidos pelas fábricas e, depois de terem perdido tudo à custa da ilusão de fazer fortuna na grande cidade, se remeteram à miséria. Esta, por seu turno, criou o ambiente propício para que o capitalista oferecesse muito trabalho a troco de muito pouco dinheiro – mas, sendo a miséria do lumpenproletariat a outra opção, muitos aceitaram uma vida cujo único sentido era viver pobremente produzindo riqueza para outrem.

A industrialização crescente trouxe, deste modo, a dependência da máquina. Os operários dos finais do Século XIX e início do século seguinte trabalhavam horas desmesuradas executando tarefas repetitivas. (Charles Chaplin caricaturou-as em Tempos Modernos.) Em muitos países, mesmo naqueles que já então eram havidos como sociedades evoluídas, a procura de bens industriais levou a um incremento da necessidade de mão de obra, inexistindo escrúpulos em usar o trabalho infantil. As condições de vida do operariado, sujeito a doenças e deformações físicas e vivendo numa pobreza sórdida sem acesso a habitação condigna e condições de ensino e saúde, levou ao desenvolvimento de doutrinas sociais e de ideologias que combateram e denunciaram esta degradação do ser humano, cada vez mais reduzido a um número e convertido numa peça de maquinaria – com a diferença de ser mais facilmente disponível e dispensável do que as peças propriamente ditas.

Esta simbiose perversa entre homem e máquina nunca foi tão bem ilustrada como nesta fotografia Power House Mechanic Working on Steam Pump, de Lewis Wickes Hine (1874-1940). Este americano foi um dos que, como Walker Evans ou Dorothea Lange, se propuseram relatar as condições de vida da América da primeira metade do Século XX através das suas fotografias. Hine era um sociólogo que usava a fotografia para denunciar as condições do trabalho do seu tempo, tendo-o sobretudo preocupado o emprego generalizado do trabalho infantil. Nas suas fotografias surgem frequentemente crianças e adolescentes que pura e simplesmente não deviam estar a trabalhar – muito menos nas condições que existiam nessa altura. A fotografia era, deste modo, um interesse instrumental – importante por ser a maneira mais eficaz de mostrar a realidade ao mundo, mas usada com um fim documental.

É por esta razão que Power House Mechanic Working on Steam Pump é tão interessante. Não deixa de ser um documento, mas executado com uma mestria que, provavelmente, foi para além da intenção de Lewis Hine. É que, do ponto de vista estético, esta fotografia é verdadeiramente prodigiosa: o enquadramento, a composição, a luz e o momento são perfeitos. Acima de tudo, a mensagem é perfeitamente transmitida com esta imagem: o homem parece parte da máquina, como se fosse uma peça dela. Os tons, os gloriosos tons do preto-e-branco, acentuam ainda mais esta impressão de homem-máquina. A dinâmica da imagem, com as suas linhas e vectores, é tão harmoniosa que pode causar a ilusão de que homem e máquina são um só, ilustrando a dependência da máquina de uma era industrial que havia então atingido o apogeu – ainda que à custa de toda uma classe trabalhadora miserável e sujeita a uma escravatura remunerada.

Esta é uma fotografia que me fascinou desde o primeiro momento que a vi. É um testemunho poderoso de uma época, realizado com uma mestria e perfeição de que poucas fotografias se podem gabar. Uma das minhas favoritas, e uma imagem fundamental na história da fotografia.

M. V. M.

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