Triste

Dream, por W. Eugene Smith

 É extremamente frustrante ver que as pessoas que visitam o Número f/ se estão absolutamente a borrifar na fotografia enquanto forma de expressão artística. Quase ninguém leu os textos que tenho estado a publicar sobre aquelas que entendo serem as melhores fotografias de sempre, mas em contrapartida, se decidir escrever qualquer coisa sobre os efeitos da abertura no bokeh, tenho assegurada uma invasão de leitores.

Faz-me pena que seja assim. O que me interessa, na fotografia, é o facto de ser uma forma de exprimir conceitos artísticos ou, pelo menos, de descrever objectos reais através de uma linguagem artística. Os nomes que reverencio contribuíram para a evolução da fotografia e são para mim de tal maneira importantes que procuro o máximo de informação sobre eles e conhecer tantas das suas fotografias quanto possível. Não para procurar copiar o que eles fizeram – o que seria patético, no mínimo – mas por ser uma forma de estar perto deles. Não fisicamente – seria impossível, porque muitos já não estão entre os vivos –, mas num outro plano, onde todas as considerações comezinhas são postergadas.

Tenho, como disse, pena de ver que tão poucos têm este entendimento da fotografia. Quando penso no assunto, descubro que a técnica tem vindo a perder importância nas minhas fotografias. Olho para o que fazia há três anos e por vezes envergonho-me de ter feito fotografias que apenas eram manifestações de domínio das técnicas fotográficas; hoje procuro que as minhas fotografias digam algo, o que é muito mais difícil e exigente do que fazer arrastamentos à beira-mar ou pannings. W. Eugene Smith disse: «What use is having a great depth of field, if there is not an adequate depth of feeling?»

É a mensagem das fotografias que me importa. É o que elas são capazes de dizer, não a forma como foram feitas ou o material empregue, que me interessa. Evidentemente, há coisas que só se podem exprimir se houver um domínio da técnica, mas tudo fica por aí: quando se inverte a ordem das prioridades já não estamos a fotografar, mas a testar as capacidades do equipamento.

Ainda por cima os conceitos estéticos das pessoas estão cada vez mais banalizados. Felizmente já passou a moda das flores com muito bokeh, mas subsiste o gosto perverso por arrastamentos e, mais preocupante ainda, noto uma tendência para fotografar anciãos hindus (ou sikhs: o que importa é que tenham barbas e turbante) a fumar, com o fumo pairando à frente das suas caras. Com, evidentemente, tratamento HDR. E zás, toca a imitar o Joel Santos, porque aquilo é o que está a dar. Amanhã será outra coisa qualquer.

Não sei o que é pior: se é esta falta de gosto generalizada ou o facto de quem fotografa tentar agradar às massas que ostentam esses gostos vulgares. Tenho para mim que as pessoas que fotografam assim estão a procurar o reconhecimento da pior maneira possível. Muitos grandes fotógrafos levaram décadas até ver ser-lhes dado o devido valor; alguns fotografaram apenas porque sentiam necessidade de se exprimir, sem pensar na notoriedade. O reconhecimento e a notoriedade vêm naturalmente, se os fotógrafos tiverem valor suficiente para merecê-lo. Não é por uma fotografia ter centenas de likes no facebook que é boa. A verdadeira beleza das fotografias não está na imagem em si, por mais retocada e rebuscada que seja, mas nas emoções que ela transmite. É necessário entender isto: sem esta compreensão, que passa por sentir o que se está a fazer (sem isto, como bem disse Kertész, as fotografias não têm qualquer valor), nunca seremos capazes de boas fotografias. Estas até podem ser admiradas pela técnica, mas a sua qualidade estética será esquecida ao fim de alguns segundos, submersa na torrente de fotografias pretensamente maravilhosas que inunda os nossos computadores todos os dias.

Eu não posso obrigar ninguém a ler os meus textos, nem a gostar das fotografias de Dorothea Lange, Josef Koudelka, Richard Avedon e W. Eugene Smith que comentei aqui no Número f/; apenas posso sentir-me triste por ver que isto de pouco conta e que uma mentira de 1.º de Abril sobre a aquisição de uma máquina fotográfica desperta mais interesse do que aqueles textos. Simplesmente, como não estou predisposto a comprometer a minha maneira de pensar, não vou desistir desta linha que estou a dar ao blogue. Parece-me mais importante conhecer fotografias excepcionais do que discorrer sobre as subtilezas científicas da profundidade de campo.

M. V. M.

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5 thoughts on “Triste”

  1. Ei, MVM! Eu tenho lido com agrado os teus textos sobre as melhores fotografias de sempre, mas normalmente quando nao tenho nada a dizer… estou calado… e shares também nao sou de fazer, dá muito trabalho ser avençado da Facebook, Inc. Se calhar há mais quem faça o mesmo. É o que dá teres um blog com uma audiencia pouco moderna :).
    (acabei com um smile para dar um ar de modernidade…)

    PS: Mesmo sem grande entusiasmo da audiencia, pelo menos conteudo original o teu blog tem, nao conheço mais nenhum blog em portugues que fale destes temas.

  2. PS3: há quem, como eu, leia o teu blog no feedly ou noutro agregador do género, pelo que nao consegues ter ideia de que posts sao mais lidos ou menos lidos.
    E na realidade, isso de estatisticas é coisa para nao se estar a perder tempo.

    Abraço

    1. Olá Groucho Marx e obrigado pelas tuas palavras. A minha preocupação não é as estatísticas: é mesmo o desinteresse. Provavelmente sou eu que estou errado e a remar contra a maré, mas quando vejo que recebo uma série de comentários depois de publicar um texto sobre uma questão técnica e que, ao publicar sobre grandes fotógrafos, tenho duas ou três visualizações, fico triste. Eu sei que a maior parte das pessoas entende que a arte é uma coisa elitista e, como não fazem parte de nenhuma elite, preferem não se interessar por arte.
      Se formos a falar no facebook, bem… olha, hoje é dia santo, mudemos de assunto!
      Abraço
      M. V. M.

  3. ;)

    Subscrevo os comentários anteriores.

    Por coincidência o que refere no post, comentei há dias com um outro fotografo, no seguimento de uma workshop:
    http://www.serralves.pt/pt/actividades/o-olhar-fotografico-com-julio-de-matos

    Obrigado pelo post, pois faz-me sentir “menos mal”, pois chego a duvidar de q o defeito é meu, de utilizar o equipamento e a técnica apenas como fim para chegar é mensagem / estética!

    Situação análoga, ao de ser visto com um ser de outro planeta, por não ter clube de futebol ou “social media accounts” (aka. facebook, instagram, etc..)

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