As melhores fotografias de sempre (5)

W. Eugene Smith pode – repito: pode – ter sido o melhor fotógrafo de todos os tempos. É sempre arriscado formular um juízo desta natureza, o qual, para ser válido, implicaria duas qualidades que não possuo: o conhecimento – necessitaria de conhecer a fundo a obra de todos os fotógrafos do mundo, o que está para além das forças de qualquer ser humano – e a autoridade. Deste modo, uma asserção como esta teria sempre de ser lida com um grão de sal. Não há dúvidas quanto à importância de Cartier-Bresson, que é quase unanimemente – e por boas razões – considerado o melhor fotógrafo de sempre; foi o deus da fotografia, mas William Eugene Smith (1918-1978) era mais fotógrafo que HC-B – menos preocupado com traduzir conceitos artísticos em imagens e mais em transformar o que os seus olhos viram em fotografias que conciliassem a perfeição da execução técnica com a mensagem que pretendia transmitir.

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W. Eugene Smith, A Walk To The Paradise Garden (1946)

Smith foi, acima de tudo, um fotojornalista: cobriu eventos políticos, guerras, expedições humanitárias, surtos de doenças. Digamos que viu tudo: viu a humanidade na sua grandeza e miséria, na fortuna e na infelicidade, na generosidade e na mesquinhez. E, sempre que fotografou, fê-lo bem. Tão bem, aliás, que se torna impossível escolher qual de entre as suas fotografias é a melhor. Uma das fotografias que fez de Albert Schweitzer, aquando de uma expedição deste a África que Smith acompanhou, é um prodígio de expressividade; a imagem da criança deformada pela doença de Minamata transmite-nos sensações viscerais – nisto viria a inspirar James Nachtwey e uma panóplia de outros fotojornalistas – e é de uma execução técnica perfeita; todas as suas fotografias de guerra são excelentes. Os exemplos podiam suceder-se interminavelmente, porque W. Eugene Smith foi um fotógrafo prolífico: numa palavra, é impossível escolher uma fotografia que seja representativa e emblemática da obra de W. Eugene Smith – quanto mais dizer qual a melhor!

Atenta esta limitação, guiei-me apenas pelas minhas sensações nesta escolha. Muitas fotografias de fotojornalistas são sórdidas – não por alguma perversão ou propensão para a sordidez dos seus autores, mas por muito do que se passa no mundo o ser – ou, pelo menos, recordam-nos que vivemos num mundo horrível, mas tal não significa que os repórteres fotográficos não sejam artistas capazes de enorme beleza e sensibilidade. Assim, porque também não me interessa ver exclusivamente imagens de sordidez – ou melhor: de um mundo sórdido –, optei por mostrar aos leitores A Walk To The Paradise Garden. Por ser aquela que considero a fotografia mais bonita que já vi. Não apenas de W. Eugene Smith, mas em termos absolutos. Só Srinagar, de Henri Cartier-Bresson, merece partilhar esta apreciação, mas são fotografias muito diferentes. Nestes nossos dias em que os padrões de beleza fotográfica se resumem a hindus a fumar em HDR, esta fotografia até pode passar despercebida, mas há nela uma beleza, uma pureza e uma inocência que me comovem.

Esta fotografia é uma ilusão. Todas as fotografias são uma ilusão, mas esta, em particular, tem o efeito de nos fazer pensar que as crianças presentes no enquadramento estão realmente a transpor as portas do Jardim do Paraíso e a descobrir um mundo novo e fascinante, com o encantamento de que só as crianças são capazes. Os figurantes desta fotografia são os filhos de W. Eugene Smith, Patrick e Juanita, a quem o pai havia levado num passeio durante um dos dias em que recuperava de um ferimento provocado por um estilhaço quando cobria as batalhas da II Guerra Mundial no Japão. W. Eugene Smith, que tinha todas as razões para se sentir orgulhoso desta fotografia, discorreu sobre ela: Pat saw something in the clearing, he grasped Juanita by the hand and they hurried forward. While I followed my children into the undergrowth and the group of taller trees – how they were delighted at every little discovery! – and observed them, I suddenly realized that at this moment, in spite of everything, in spite of all the wars and all I had gone through that day, I wanted to sing a sonnet to life and to the courage to go on living it.

O resultado foi esta fotografia. Quem se der ao trabalho de procurar fotografias de W. Eugene Smith verá que é altamente atípica; depois de todos os horrores que presenciou, esta fotografia destoa do género a que Smith se dedicou. Foi uma conjugação de factores mais ou menos aleatórios que tornou a cena possível, mas que, no seu julgamento, mereceu uma oportunidade fotográfica única e irrepetível. Ter a visão necessária para antever a oportunidade fotográfica, agarrá-la e converter uma cena aparentemente banal numa obra eterna é o que distingue os fotógrafos geniais dos simplesmente bons.

Esta fotografia é maravilhosa: além da ilusão que produz, é, como disse o seu autor, um soneto dedicado à vida. No que esta tem de mais belo e mais puro. Não podia, de forma nenhuma, deixar de incluí-la nesta série de textos. Esta pode ser a fotografia mais bela alguma vez feita.

M. V. M.

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