As melhores fotografias de sempre (4)

Thelonious-Monk-and-Baron-008

Ben Martin, sem título, (c) Time & Life Pictures/Getty Images

A fotografia que mostro hoje é uma opção estritamente pessoal que pouco tem que ver com factores como a sua importância histórica, o renome do fotógrafo que a fez ou a contribuição para o desenvolvimento da arte fotográfica. O fotógrafo, provavelmente poucos saberão quem era; a importância cinge-se ao grupo estrito dos amantes do Jazz – em particular, ao subgrupo (ainda mais estrito) dos apreciadores de Thelonious Monk; a fotografia, em si, também não figura em quaisquer álbuns de fotografias históricas, não é citada pelos coleccionadores e curadores e nunca a vi numa exposição. Diria que não é uma fotografia que tenha marcado a arte fotográfica – mas parece-me injusto que assim seja.

Também não é apenas pela sua excelência que escolho esta fotografia como uma das melhores de sempre. É por causa do motivo. Thelonious Monk foi um génio do Jazz que mudou este estilo de música ao introduzir a escala diatónica e foi também um dos nomes mais incompreendidos do Jazz. A sua falta de destreza técnica no piano chegava a ser embaraçosa – há gravações, como Miles Davis and the Modern Jazz Giants, em que parece adormecer durante os solos, obrigando o leader a incentivá-lo verbalmente –, e os seus solos de piano são em regra muito pobres, limitando-se a adornar a melodia com alguns floreados sem nunca fugir do tema, mas é justo dizer-se que não foi como solista que Monk contribuiu para o Jazz. Foi pelas suas composições e pelos grupos que reunia. Olhando para a sua discografia da época em que gravou para a Riverside, os seus sidemen incluíam músicos como John Coltrane, Sonny Rollins, Coleman Hawkins, Charlie Rouse, Thad Jones, Clark Terry, Oscar Pettiford, Wilbur Ware, Paul Chambers, Philly Joe Jones, Shadow Wilson e Roy Haynes. Os melhores entre os melhores, portanto.

A história de Pannonica de Koenigswarter, baronesa de Rothschild, não é menos interessante. Esta aristocrata, depois de uma viagem aos Estados Unidos, decidiu perder propositadamente o avião que a levaria de volta à Europa por causa do Jazz. Tornou-se uma patrona de muitos músicos – Charlie Parker morreu no seu apartamento – e, mal ouviu Round Midnight, uma das melodias mais fascinantes de Thelonious Monk (embora escrita a meias com Cootie Williams), apaixonou-se instantaneamente e decidiu que tinha de conhecer aquele homem. (Sim, o Round Midnight tem esse poder: ouçam a versão a solo no álbum Thelonious Himself e compreenderão tudo.) Thelonious Monk acabou por compor dois temas inspirados por ela, ambos gravados no álbum Brilliant Corners: Blue Bolivar Blues (Blue Bolivar era o nome de um hotel onde Pannonica se costumava hospedar) e Pannonica.

Há alguns anos – talvez quatro (ou mais, não me lembra bem) – estava a ler a revista 2, suplemento dominical do Público, quando deparei com uma reportagem sobre Pannonica. A reportagem era ilustrada por duas fotografias maravilhosas. Escolher qual delas era a melhor foi difícil: numa, Pannonica olhava Thelonious Monk com uma daquelas expressões que só se podem descrever recorrendo a uma palavra extremamente piegas: amor. Era uma fotografia feita no interior do Five Spot, clube onde qualquer músico de Jazz que quisesse merecer um bocadinho de respeito tinha de tocar. A outra fotografia era esta, com Thelonious Monk e Pannonica entrando no Bentley desta última, que estava estacionado defronte ao Five Spot.

Esta fotografia interessou-me pela sua atmosfera, realçada pelo grão da película que era bem visível na imagem impressa na revista (e não tanto nas poucas digitalizações que se podem encontrar na internet). É uma fotografia de reportagem que pode ter muito de mundano – os músicos de Jazz, convém não esquecê-lo, eram vedetas de enorme popularidade –, mas é soberbamente composta, feita com um sentido de oportunidade excelente e cheia de classe (o automóvel ajuda, evidentemente). É uma fotografia elegante que diz muito sobre a história do Jazz e da relação entre duas figuras que se tornaram proeminentes na mitologia do único género musical genuinamente americano.

Esta fotografia teve um efeito curioso sobre mim: fez-me sentir vontade de fotografar à noite, o que gosto de fazer de vez em quando. Contudo, deprime-me saber que nunca encontrarei uma cena tão simbólica e interessante como esta quando sair à noite armado com o meu tripé. Ainda mais preocupante é saber que, independentemente do motivo, nunca farei uma fotografia tão boa como esta.

M. V. M.

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