As melhores fotografias de sempre (3)

É provável que alguns leitores, diante da notícia da minha putativa aquisição de uma Nikon Df, se tenham esquecido de reparar na data em que o texto de ontem foi publicado. Pois é – foi no dia 1 de Abril, dia dos enganos; no dia das mentiras. No fools’ day. Como pôde alguém pensar que o meu compromisso com a fotografia analógica ia ser rompido?

De volta à série de textos sobre grandes fotografias: já que aqui estamos, devo esclarecer que esta série não contemplará o Beijo no Hotel de Paris de Doisneau, o Derrière la Gare de St Lazare de Cartier-Bresson, nem a menina afegã de Steve McCurry. Não me parece importante aludir a estas fotografias, a despeito da sua importância e da dos seus autores, porque hoje são lugares-comuns da fotografia. Alguns poderão dizer que Migrant Mother também o é, mas eu discordo: esta última tem uma carga emocional que nenhuma das três que referi consegue atingir. A fotografia que vou versar hoje também não tem uma carga emocional extraordinária, mas não é por isso que deixa de ser uma grande fotografia. Por diversas razões.

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Richard Avedon, Dovima With Elephants, 1955

A moda deixou há muito de ser um mero fenómeno de vaidade ou frivolidade. No início da segunda metade do Século XX, os criadores parisienses conviviam nos mesmos círculos que escritores, pintores e filósofos. Aquilo que eles criavam, posto não poder ser elevado ao estatuto de arte, despertou o interesse de inúmeros artistas. A moda teve sempre uma conexão íntima com a imagem, desde logo com o cinema e também – obviamente – com a fotografia.

Fotografar moda poderia ser uma mera forma de mostrar e documentar as criações dos costureiros. As fotografias poderiam muito bem ser feitas exclusivamente em estúdio e em boudoirs, com os modelos em poses mais ou menos estáticas, o que conviria perfeitamente à sua publicação nas revistas de moda. Simplesmente, como a moda teve o contágio das artes a que aludi acima, algumas mentes irrequietas começaram desde cedo a rondar os círculos da alta costura. Algumas casas compreenderam a necessidade de fazer algo mais que meramente mostrar imagens estáticas para projectar publicamente as respectivas marcas e quiseram rodear as suas criações de cenários grandiosos, luxuriantes, exóticos ou simplesmente estranhos. E, como as pessoas se vestem essencialmente para se mostrarem atraentes, o erotismo, que andava de mãos dadas com a arte, não tardou muito a imiscuir-se na fotografia de moda.

Outras mentes irrequietas, como as de Richard Avedon e Helmut Newton, viram rapidamente as possibilidades da fotografia de moda e elevaram-na a um estatuto artístico. Também eles viam na fotografia de moda algo mais do que mostrar vestidos. Daqui nasceu uma aliança entre fotografia e moda que, se é certo que hoje não merece muitas cogitações, nos anos 50 e 60 do Século XX abalou os conceitos fotográficos vigentes e mostrou que a moda é muito mais que uma preocupação de mulheres ricas e frívolas: é também um condutor de ideias estéticas e expressivas.

Richard Avedon (1923-2004) não foi um pioneiro da fotografia de moda – houve outros antes dele, como Cecil Beaton e Edward Steichen – e também não foi exclusivamente um fotógrafo de moda; simplesmente, foi um dos primeiros a introduzir conceitos artísticos vanguardistas na fotografia de moda. Dovima With Elephants tem nela gravadas as correntes artísticas do Século XX, como o modernismo e o surrealismo, mas aplicados ao género de fotografia onde o seu aparecimento era mais improvável. Dovima With Elephants é uma fotografia de moda – a modelo, Dovima, veste uma criação de Christian Dior datada de 1955 –, mas é muito mais que uma fotografia de moda.

Olhando esta fotografia, o que me ocorre é procurar respostas para algumas perguntas – que tipo de mente era a de Richard Avedon? Como funcionava ela? Que esquemas mentais levaram Avedon a formular um conceito tão absolutamente extraordinário como este? O cenário que Richard Avedon engendrou é pura e simplesmente portentoso, uma manifestação genuína de génio e originalidade. Foi como se tivesse imaginado o cenário mais grandioso, espectacular, improvável e imprevisível para fotografar moda e o tivesse aplicado. As minhas interrogações têm que ver com o espanto que é existir uma fotografia de moda como esta: por vezes torna-se difícil perceber o que impele o génio humano. Esta fotografia é extraordinária: o contraste entre a elegância e a força, entre a delicadeza e a animalidade… penso que só o próprio Richard Avedon saberia por que caminhos andou a sua mente até produzir este conceito absolutamente incrível.

A moda não é um fenómeno frívolo. As nossas roupas – ou melhor – a maneira como (as) vestimos – são o nosso cartão de visita. A moda está completamente embebida em sociologia e psicologia e é um fenómeno cultural a cuja influência ninguém pode dizer estar imune. Que artistas como Richard Avedon tenham feito arte com a moda apenas demonstra o seu alcance e importância.

M. V. M.

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