As melhores fotografias de sempre (2)

Josef Koudelka. Se eu recebesse um euro (€1,00) por cada vez que escrevi aqui este nome, por esta altura já tinha uma fortuna na filial suíça do HSBC.

Há várias razões para que seja assim. Josef Koudelka (n. 10 de Janeiro de 1939) é um dos grandes fotógrafos mundiais. O facto de ter menos notoriedade que outros fotógrafos famosos não retira nada às suas qualidades. Aliás, muita da reputação de que goza deve-se, não às qualidades intrínsecas das suas fotografias, mas à sua coragem de fotografar Praga aquando da invasão da então Checoslováquia pelas forças do Pacto de Varsóvia. Acresce a isto o facto de ter sido o primeiro fotógrafo cuja obra pude conhecer em livro, como já narrei aqui. Ver as fotografias daquele livrinho foi para mim uma verdadeira revolução.

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Josef Koudelka, sem título, Praga, 1968

Esta é uma das fotografias mais importantes de sempre. O episódio da história que serve de contexto a esta fotografia é conhecido: em 1968, Alexander Dubček tentou mudar o regime comunista que regia a então Checoslováquia com um conjunto de reformas que ficou conhecido como a «Primavera de Praga». A U. R. S. S. e o Pacto de Varsóvia não aceitaram a afronta e invadiram a Checoslováquia. Foi uma invasão violenta e sangrenta, mas muitos não se conformaram. Especialmente os jovens. Todos nos lembramos decerto de Jan Palach, o estudante de vinte anos que se imolou aquando da invasão. Pois bem: esta fotografia é a ilustração perfeita desse inconformismo, da revolta perante o absurdo da violência dos meios empregues para silenciar a liberdade. Nesta imagem, que é possivelmente a mais simbólica da invasão de Praga, um jovem discute com soldados a bordo de um tanque das forças invasoras. É simbólica em mais que um sentido: retrata a coragem, antes de mais. Só a coragem poderia levar um homem só a discutir com militares num tanque. Neste sentido a fotografia de Josef Koudelka é quase um hino, mas há mais: também se vê aqui a impotência da razão diante da força bruta. Contudo, mesmo derrotada, a razão que o jovem homem simboliza mantém-se altiva, orgulhosa e obstinada. Derrotada, talvez, mas nunca vergada.

Nesta fotografia não se vê o interlocutor do jovem. É um prodígio de composição que nos diz que o opressor não tem rosto. O outro militar que figura no enquadramento parece olhar o jovem com estranheza, provavelmente imaginando que era um lunático. Também aqui não posso deixar de ver a tensão entre a razão e a brutalidade das armas, que tem a força por único argumento a opor aos do jovem. A única arma que o jovem tem é a razão, que o impele a confrontar os invasores, representados pelo militar a quem ele se dirige. Ele sabe que não ganhará e que a luta é demasiado desigual, mas não pode deixar de manifestar o seu repúdio pela invasão – quem sabe procurando apelar em vão ao bom senso dos invasores, como apenas um jovem idealista e inteligente, mas ingénuo, poderia fazer. Há nesta fotografia, acima de tudo, um duelo tenso entre a pureza dos ideais da Primavera de Praga e a brutalidade obscena com que os sonhos de liberdade foram assassinados. Esta fotografia de Josef Koudelka é brilhante em todos os aspectos, mas a sua carga simbólica torna-a numa das imagens mais poderosas que conheço.

A composição é de uma mestria que nunca vi noutras fotografias de temas semelhantes. Mesmo se as questões técnicas são secundárias, a perspectiva é absolutamente fantástica, com a sensação de profundidade a destacar o jovem e a deixar o espectador adivinhar o que se passa no plano de fundo. O uso de uma grande-angular favorece a criação de um ponto de fuga que atrai os olhos para o plano principal. A execução é perfeita: eu tenho de dizer aqui, a este propósito, que considero as fotografias que Robert Capa fez do Dia D um falhanço técnico e estético clamoroso – a despeito da fama que justa ou injustamente adquiriram –, que apenas em parte se pode atribuir ao estado de desenvolvimento do material fotográfico nessa época e às condições em que as fotografias foram tiradas. Nas fotografias de Praga, Koudelka chegou mais perto – e foi precisamente Capa que disse que se as fotografias não são suficientemente boas é porque não se está suficientemente perto – do que Capa e fê-lo com uma mestria técnica que se aproxima da perfeição; e, sobretudo, com uma carga simbólica de que Capa nunca foi capaz. Considero, por tudo isto, que Koudelka é melhor fotojornalista do que Robert Capa alguma vez foi.

Depois da série de fotografias na qual esta se inclui, Josef Koudelka ingressou na Magnum e abandonou a Checoslováquia. Foi graças a estas fotografias esplêndidas que adquiriu a reputação que tem hoje. É também em grande parte por causa delas que eu sou um amante da fotografia, do preto-e-branco e da película.

M. V. M.

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