Do efémero

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Igor Stravinsky por Arnold Newman

Eu não sou grande apreciador de fotografias antigas. Do mesmo modo que não gosto de tudo o que seja datado. É um fenómeno extremamente curioso que hoje sejamos capazes de olhar com admiração uma pintura de Botticelli ou Rembrandt e que as do início do Século passado pareçam obsoletas (à falta de melhor termo). Pelo menos é assim que as vejo; outros pensarão de maneira diferente. Quando vejo um quadro de Mondrian, parece-me algo concebido para decorar um edifício dos anos 40 ou 50 marcado para demolição. É possível que, daqui a alguns séculos, essas obras possam ter o mesmo estatuto que a pintura das escolas renascentista ou flamenga, mas por enquanto apenas me parecem fora de moda.

Moda, aliás, é a pedra de toque neste particular. É como se, em lugar de serem correntes artísticas, o surrealismo e o modernismo tivessem sido modas. Isto não acontece apenas na pintura. Na literatura também. Os livros de Stefan Zweig cheiram a mofo, mas o nosso Eça não. Os poemas tardios de Mário de Sá-Carneiro – aqueles cheios de onomatopeias – são piores do que poemas como Fim, do mesmo autor. Os movimentos estéticos vanguardistas, que em Portugal se fizeram representar por Almada Negreiros ou Mário Cesariny, parecem-me efémeros e, portanto, datados.

A fotografia não deixa de ter algumas semelhanças com essas artes – mas, como é uma arte jovem, não conheceu um período a que possamos chamar clássico. Há apenas um período pré-Leica e pré-Rolleiflex e um movimento posterior. As fotografias feitas antes de a fotografia se ter tornado portátil sofrem de problemas que obstam à minha apreciação: eu não consigo olhar para certas fotografias de Edward Steichen, Alfred Stieglitz, Alvin Langdon Coburn e outros sem as considerar irremediavelmente datadas, uma espécie de pré-história da fotografia em que as limitações técnicas eram um obstáculo à expressão dos artistas.

Esta é uma apreciação estritamente pessoal. Não posso, de modo nenhum, negar a importância que Steichen, Stieglitz, Man Ray ou Edward Weston tiveram para a evolução da fotografia. De uma maneira ou de outra, eles livraram a fotografia da sua condição de sucedâneo da pintura. Hoje a fotografia cingir-se-ia a retratos e paisagens se não fossem esses pioneiros; sem eles, a fotografia não teria evoluído e não seria uma forma de expressão plástica autónoma. Simplesmente, as suas fotografias, a despeito da importância histórica que não é possível negar-lhes, parecem-me hoje irremediavelmente ultrapassadas.

A qualidade da imagem é um factor fundamental nesta apreciação. Estou convicto de que, se esses nomes que citei tivessem à sua disposição meios mais actuais, a minha opinião seria radicalmente diferente. É que eu não sou capaz de apreciar fotografias desfocadas – quando o desfoque é o resultado de uma limitação técnica, e não intencional – e fotografias baças, sem contraste. Não é só uma questão de técnica ou de equipamento: tal como a poesia ou a pintura, a fotografia seguiu aquelas tendências que podem ser subsumidas ao conceito de modas. Houve fotografia modernista e surrealista, mas não posso dizer que goste de uma fotografias das costas nuas de uma mulher às quais foram sobrepostos os orifícios da caixa de ressonância de um violoncelo (Man Ray), ou de um indivíduo enfaixado numa cadeira (Juergen Klauke). Compreendo muito bem que os autores deste período quiseram transcender as significações óbvias que imperavam até então na fotografia, mas o que fizeram foi criar ou aderir a modas passageiras; modas datadas que, quando se olha para elas, não se identificam como clássicas ou intemporais, mas simplesmente como velhas. Não antigas, mas velhas. O que é muito diferente.

Há excepções. Evidentemente que as há. As fotografias de Ansel Adams não poderão nunca ser consideradas velhas e datadas. Adams compreendeu como nenhum outro a singularidade da fotografia enquanto forma de expressão plástica, tendo levado a técnica fotográfica a um nível que se aproximou da perfeição; Arnold Newman criou uma linguagem estética única ao retratar artistas de uma forma inteiramente coerente com a obra destes; e, evidentemente, Edward Weston (cujas obras pictoriais são velhas e datadas) subtraiu a fotografia à ditadura dos significados óbvios ao extrair formas abstractas de objectos reais. Contudo, prefiro as fotografias que retrataram a vida: W. Eugene Smith, Henri Cartier-Bresson, Alfred Eisenstaedt, Margaret Bourke-White e Dorothea Lange, na fotografia documental; Richard Avedon e Helmut Newton nos estilos mais mundanos. O que está para trás é, sem dúvida, importante, mas há nessas obras, a despeito de merecerem todo o respeito e admiração, algo de morto, de bafiento, de velho que obsta à minha apreciação. O que tem muito pouco a ver com o conteúdo dessas fotografias primevas, residindo firmemente no campo da mera estética. Mas a fotografia é uma arte visual; vê-se com a mente, mas também com os sentidos.
M. V. M.

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