Mais perto

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Robert Capa disse um dia: «se as fotografias não são suficientemente boas, é porque não se está suficientemente perto». Sabendo-se que Robert Capa (o seu nome verdadeiro era Endre Friedmann) dedicou a maior parte da sua carreira ao fotojornalismo, esta sua frase tem, sobretudo, o sentido de estar perto da acção, como ele esteve no Dia D, mas não deixa de servir para todos os demais géneros de fotografia.

Desde que comecei a lidar com material fotográfico sério que descobri a veracidade e utilidade do imperativo de nos aproximarmos dos motivos. O facto de ter estado limitado a uma lente de distância focal única durante alguns meses fez-me mudar por completo a minha maneira de fotografar. Essa lente tinha o campo de visão equivalente a uma grande-angular de 34 mm, o que frequentemente me obrigava a aproximar dos motivos para que eles tomassem a dimensão que eu queria no enquadramento – o que foi algo a que não estava habituado, porque infelizmente a minha experiência anterior fora com uma compacta equipada com um zoom.

Habituar-me a estar próximo do que queria fotografar trouxe-me inúmeros benefícios. Pude explorar melhor os motivos, procurando os melhores ângulos de visão, mas sobretudo pude envolver-me mais com o que fosse que estava a fotografar. Permitiu-me, sobretudo, estudar o motivo, de maneira a determinar qual a melhor maneira de fotografá-lo: decidir qual o melhor ângulo, a melhor luz e o melhor momento. Se estivermos longe nada disto é possível.

Isto é válido para qualquer objecto, mas também para pessoas. Há uma regra (não escrita) que me parece de uma razoabilidade inequívoca: não é possível fazer boas fotografias de pessoas se não se estabelecer uma ligação com elas. Claro que, se tudo o que queremos é que uma pessoa figure num enquadramento, esta regra não é obrigatória, mas quando a pessoa é o próprio motivo da fotografia, nada substitui a criação de um laço qualquer com ela, ainda que muito superficial e passageiro. O simples pedido de consentimento estabelece essa ligação. Suponho que a asserção de Robert Capa que citei no início deste texto também é válida neste contexto: trata-se de nos aproximarmos da pessoa – não apenas fisicamente, mas através dessa relação de empatia. Se a fotografia não resultar é porque não estivemos suficientemente perto.

A melhor maneira de chegar perto dos objectos e das pessoas? Simples: usar uma lente de distância focal fixa (uma prime, para os que gostam de anglicismos). Embora chegar mais perto para fazer melhores fotografias não seja uma questão estritamente técnica, o que é certo é que as primes obrigam-nos a chegar perto das coisas. O enquadramento faz-se aproximando-nos do motivo. Em contrapartida, os zooms tornam o fotógrafo preguiçoso e impedem a aprendizagem da fotografia ao dispensar esta necessidade de chegar perto do motivo: quando tudo o que se tem de fazer para enquadrar uma cena é rodar um anel da objectiva, está a perder-se o aspecto fundamental da proximidade – que, repito, não é apenas física – com o motivo. Há que ir lá; o anel de zoom tem de ser as nossas pernas.

Esta foi uma lição importante que aprendi com uma lente modestíssima; em lugar de a sua distância focal fixa ser uma limitação, provou ser uma fonte de conhecimento. Infelizmente, mais tarde deixei-me acometer do ensandecimento de pensar que precisava de um zoom. Foi a maior asneira que fiz no que respeita à aquisição de material fotográfico. Com um zoom não se aprende nada.

Mas isto não era para ser sobre equipamento: era para ser sobre a citação de Robert Capa. O seu sentido é literal porque Capa era um fotojornalista que queria estar dentro dos acontecimentos que cobria. Mesmo assim, isto de estar suficientemente perto pode ter outras derivações. Estar perto das coisas não significa apenas proximidade física – mas esta traz consigo outros tipos de proximidade. A melhor maneira de experimentar isto é mesmo usando lentes de distância focal fixa.

M. V. M.

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1 thought on “Mais perto”

  1. Eu comecei a tirar retratos com uma lente fixa de 40mm porque era a que tinha comprado e durante uns tempos achava que devia comprar outra de 85 mm ou assim para retrato, mas entretanto esqueci o assunto porque com distancias focais desse genero (85mm, 135mm, etc) ficamos muito longe do retratado e perde-se um bocado o mood…

    Além disso, nesses casos o fundo fica demasiado desfocado e eu prefiro que se perceba alguma coisa do fundo (embora com destaque da pessoa) do que um fundo completamente ausente, que leva a que o retrato possa ser feito ali, ou noutro sitio qualquer.

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