Esclarecimento (a propósito de um texto que pode ter sido mal interpretado)

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Há algumas semanas escrevi um texto intitulado Camera Lust. Queria, com ele, discorrer sobre a minha falta de apetite por coleccionar câmaras, mas usei expressões que podiam fazer com que o texto fosse mal interpretado. E foi. Um coleccionador de grande reputação, com quem tenho uma relação excelente, mostrou-se desagradado, como se o tivesse traído pela calada.

Não era nada disto que eu queria. A intenção desse texto era apenas a de dizer que não tenho qualquer propensão para o coleccionismo e não o entendo. As únicas colecções que tenho dificilmente podem ser consideradas como tal, pois consistem em acervos de livros e discos. E nem sequer são assim tantos. Dizer que são colecções é tão impróprio como dizer-se que alguém que tenha um guarda-fatos bem recheado é um coleccionador de roupa.

Simplesmente, com a linguagem por vezes sarcástica que gosto de cultivar, criei equívocos que lamento profundamente. Escrevi coisas como «…em lugar de considerar que esses coleccionadores são pessoas doentes, quando converso com eles fico invariavelmente com a sensação de que o defeito é meu…» Claro que os coleccionadores não são pessoas doentes – e eu fui muito pouco cuidadoso ao escolher este adjectivo: embora não o tenha usado com intuitos pejorativos, devia ter previsto que poderia originar equívocos -, mas sim entusiastas fervorosos. O sentido da frase que usei era o de exprimir a minha dificuldade em compreender o fenómeno do coleccionismo, já que sou uma pessoa utilitária e pragmática que gosta de ter apenas aquilo de que necessita e tem horror ao supérfluo.

Ora, o conceito de «supérfluo» é algo que varia de pessoa para pessoa. Para um coleccionador, nada é supérfluo: o seu objectivo é construir um acervo tão grande quanto possível de objectos que lhe agradam particularmente – quer sejam revistas de banda desenhada, selos, automóveis, fotografias, pinturas, livros antigos ou, no caso em apreço, máquinas fotográficas. Os coleccionadores têm, noutras palavras, uma paixão – a qual é inteiramente alheia aos meus esquemas mentais, que me levam a ter apenas aquilo de que necessito.

Não há nada de doentio em ser coleccionista. Coleccionar é, como disse, um sinal de paixão por algo. No caso da fotografia, esta tem uma história que está intimamente ligada à evolução das câmaras – quando não é condicionada por ela. Há máquinas que são tão importantes na evolução da fotografia que custam hoje fortunas avaliadas em números que chegam aos sete algarismos, como as Ur-Leica. Mesmo que não tenham essa relevância histórica, há que levar em conta que algumas câmaras têm um elevado valor estimativo – seja pelo apelo que criam ou pelas suas especificidades. Algumas máquinas fotográficas são fascinantes pela sua importância histórica, complexidade técnica, beleza ou, simplesmente, por serem exóticas. Mesmo se não são práticas ou, por qualquer outra razão, não podem ser usadas, estas máquinas são objecto do interesse do coleccionador ávido. Não há nada de mal nisto, nem a minha opinião prática e utilitarista é melhor do que a de um coleccionador que aspira a construir um espólio.

Fui extremamente desastrado na linguagem que usei. Corri o risco de, com ela, comprometer uma relação de estima e confiança que pretendo manter e ser digno dela. É evidente que não era essa a minha intenção. Retracto-me aqui em público porque a pessoa em questão merece-o. Mesmo se não era meu propósito criticar ou atacar os coleccionadores, acabei por obter esse mesmo efeito. De futuro terei mais cuidado.

M. V. M.

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1 thought on “Esclarecimento (a propósito de um texto que pode ter sido mal interpretado)”

  1. Como “profissional”, ocorre-me uma outra questão relacionada com o colecionismo…

    Não vejo um mercado de aluguer, pelo menos no Porto, que satisfaça a necessidade de testar e conhecer a fundo o diverso tipo de câmeras / objectivas, para cada umas das necessidades especificas da fotografia “comercial”…

    Pessoalmente, mesmo não me vendo como colecionador, acabo por ter um conjunto de câmeras / lentes que ainda estão em “transito”, ou melhor estão pelo estúdio á espera de um novo proprietário que lhe dé o justo “valor”…

    Este factor de ter o equipamento como ferramenta, aliado a algum apego emocional que se cria com alguns equipamentos, em que até de uma forma “pragmática”, leva tb a uma espécie de colecionismo…!

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