As forças do mal

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Erich Salomon

Ultimamente tem-me dado para reflectir sobre a capacidade aparentemente ilimitada que o ser humano possui para praticar o mal. Choca-me, em particular, a barbárie e animalidade de que muitos são capazes, a sobranceria dos poderosos em relação aos fracos, a ascensão dos medíocres pela mentira e pela trapaça e a falta de escrúpulos que leva alguns a pensar que todos os meios são legítimos para atingir os seus fins. Tudo isto serve para comprovar o pressuposto kantiano de que o homem é mau por natureza e apenas se livra da sua maldade pela razão – desde que não procure, como com frequência acontece, cobrir a sua maldade sob um manto de racionalidade, desde logo a dos argumentos cientificamente demonstrados.

Isto vem a propósito de muita coisa. Há facetas da vida contemporânea que me fazem pensar que o ser humano perdeu, em definitivo, a capacidade de analisar crítica e moralmente as suas acções e erige o mal infligido aos outros como padrão de conduta, com uma amoralidade e anomia que, de tão frias e tão brutalmente impostas, me causam medo.

A história do Ocidente está repleta de exemplos desta barbárie, que tem vindo a recrudescer, por atavismo, depois de um período em que a razão pareceu prevalecer (pelo menos na Europa). Uns procuram disfarçá-la sob a capa da religião; outros tentam justificar os seus actos sob argumentos pretensamente racionais que, todavia, não resistem a alguns segundos de reflexão; e outros, por fim, praticam o mal porque podem, porque não conhecem barreiras nem necessitam de justificações.

Descansem se pensaram que este era mais um texto que, a despropósito, se afasta do tema da fotografia. A conexão existe e é mais um motivo de reflexão sobre a natureza humana. Este texto vem a propósito do fotógrafo alemão Erich Salomon (1886-1944), cuja história é demonstrativa da cegueira do mal.

Erich Salomon nasceu em Berlim no dia 28 de Abril de 1886. Apesar de a sua formação ter pouco que ver com as artes – Salomon desenvolveu interesse pela zoologia e pela carpintaria quando jovem e veio a licenciar-se em Direito pela Universidade de Munique –, Erich Salomon tornou-se fotógrafo freelancer em 1928, aos quarenta e dois anos. A sua actividade era baseada na reportagem, podendo dizer-se que era um fotojornalista independente, mas um fotojornalista que era muito diferente dos outros.

Salomon fotografou políticos, estadistas e dignitários, mas as suas fotografias tinham um cunho imensamente pessoal: ao contrário da maioria dos repórteres, que procuravam fotografias rígidas e formais, Erich Salomon fotografava-os em momentos de descontracção, como por ex. nos intervalos de cimeiras, quando os dignitários relaxavam entre duras negociações. Conta-se que Salomon era particularmente discreto quando fotografava, mas que a sua presença era mal aceita pelos visados; contudo, ele persistiu no seu modo de fotografar até que Aristide Briand, primeiro-ministro francês e um dos redactores do Pacto Briand-Kellogg, declarou que nenhuma cimeira seria levada a sério se Erich Salomon não estivesse lá.

As fotografias de Erich Salomon foram uma ruptura com o estilo convencional que regia o fotojornalismo e uma influência profícua que ainda hoje se manifesta. (Há um bocadinho de Erich Salomon em repórteres como o «nosso» Enric Vives-Rubio.) Deveria, pois, ter sido respeitado, reverenciado e cumulado de honrarias, se não fossem os factos de ter vivido numa Alemanha que se deixou levar pela loucura colectiva e ser judeu. Salomon fugiu da Alemanha e exilou-se na Holanda, mas foi traído por um delator nazi holandês, capturado e preso em Auschwitz em 1944, onde morreu.

Foi ter lido a nota sobre a data e lugar da morte de Salomon («1944 Auschwitz») num dos livros que comprei ontem que me conduziu a estas reflexões amargas. Erich Salomon foi preso e morreu por ter nascido judeu; por algo que não estava no seu domínio controlar ou modificar. Pode dizer-se que a culpa que levou à sua prisão e morte num campo de concentração foi a de ter nascido – ou, pelo menos, de ter nascido nas suas circunstâncias.

A morte de Salomon não foi mais nem menos injusta do que a de qualquer outra vítima do III Reich; contudo, chocou-me por ser a de alguém que fazia da fotografia profissão e, sobretudo, pela sua gratuitidade. O único crime que Erich Salomon cometera foi o de ter nascido judeu. O nazismo foi, possivelmente, o ponto mais baixo que a humanidade atingiu; foi a vitória, felizmente passageira, de uma força malévola que repugna à razão, à justiça e à sensibilidade de qualquer pessoa de formação sã. Nunca devia ter acontecido. Nunca podia ter acontecido. Contudo, as forças do mal que assassinaram Erich Salomon continuam presentes, ainda que sob formas e ideologias diferentes.

M. V. M.

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