O meu fim-de-semana fotográfico

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A minha experiência com o Fomapan 200 chegou ao fim. Ontem esgotei o rolo e receberei as digitalizações para a semana. Em breve teremos recensão sobre o rolo dos estudantes de fotografia: stay tuned.

A minha experiência com o Fomapan coincidiu com o meu regresso à fotografia dita de rua, género para que não tenho muito jeito mas no qual insisto só pelo gozo que me dá. Depois das minhas fotografias lisboetas, em relação às quais o meu único lamento é serem poucas, redescobri o prazer que é andar pelas ruas à procura de pequenos teatros – usando uma expressão cara a Robert Doisneau – onde fotografar pessoas.

A este propósito, descobri que estou progressivamente a perder um traço de personalidade que pode ser um obstáculo quando se fotografa nas ruas: a timidez. Esta não me tem impedido, de um modo geral, de obter o que quero, mas confesso que tenho alguns problemas em abordar pessoas desconhecidas para fotografá-las. De uma maneira geral, não procuro o consentimento das pessoas para as fotografar porque pretendo que as minhas fotografias sejam espontâneas – eu não gosto de poses –, mas há ocasiões em que sinto que seria demasiado descaramento fotografar alguém sem o seu consentimento. Estou a trabalhar arduamente para ultrapassar aquilo que não é exactamente vergonha, mas é antes o receio do desconforto que a recusa me traria.

Mudando de assunto: ontem, enquanto queimava os últimos fotogramas do Fomapan na zona da Trindade antes de entregar o rolo na Câmaras & Companhia, deparei com uma tenda que abrigava uma feira do livro. Não tenho tido dinheiro para comprar livros – é sempre lamentável quando se tem de sacrificar as leituras para satisfazer necessidades comezinhas –, mas esta circunstância não me impediu de entrar e espreitar os escaparates. Os livros eram maioritariamente infanto-juvenis (categoria na qual é difícil encaixar os álbuns de BD de Milo Manara que estavam à venda), best sellers datados e livros práticos de escasso interesse, mas quando estava diante de uma estante cheia de livros de bolso da Taschen, a repositora colocou um álbum de bolso dedicado a Edward Weston. Por um preço impossível de resistir. Não o comprei porque ainda não havia terminado a sessão fotográfica e não é especialmente prático fotografar com livros debaixo do braço, mas hoje voltei lá e comprei-o. Trouxe também outro mini-álbum desta série Icons da Taschen intitulado Fotografia do Século XX – Museum Ludwig de Colónia. Foram duas aquisições que me souberam bem.

Edward Weston (1886-1958) foi um dos fotógrafos mais importantes de sempre. Depois de atravessar um período pictorialista (que, de resto, nunca abandonou verdadeiramente), interessou-se por formas puras – quer as encontrasse numa sanita, em legumes, moluscos, paisagens industriais e urbanas ou no corpo humano. Esta exploração das formas levou a que as suas fotografias perdessem a referência à realidade objectiva que a câmara vê e se aproximassem de uma linguagem abstracta. Weston foi um pioneiro modernista: apesar de, à luz da fotografia actual, as suas obras poderem parecer irremediavelmente ultrapassadas, ele foi um dos primeiros a aventurar-se pelo domínio das formas puras. O seu legado e influência são tão grandes que toda a fotografia moderna lhe deve algo.

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O outro livro não é tão interessante. Duas ou três fotografias, acompanhadas de textos curtos, de fotógrafos dispostos por ordem alfabética. De Adams, Ansel, a Witkin, Joel Peter – passando Por Ernst Haas, Henri Cartier-Bresson (a Taschen teve o bom gosto de não seleccionar a Derrière la Gare de Saint-Lazare), Diane Arbus ou W. Eugene Smith. Apesar de sucinta, não deixa de ser uma antologia interessante. Quanto mais não seja pelo preço: cada um destes livros custou-me €5,00, o que significa que satisfiz a minha avidez pela fotobiografia por apenas €10.

Não existe comparação possível entre ver fotografias impressas num álbum ou no monitor de um computador: as tonalidades são muito mais agradáveis e as imagens ganham uma (ilusão de) tridimendoinalidade que o monitor não consegue sequer imitar. Comprar livros de fotografia continua a ser a melhor forma de tomar conhecimento da obra de grandes fotógrafos, a despeito da facilidade que é encontrar milhares de fotografias através de uma simples pesquisa no Google. Os álbuns, contudo, são apenas pequenos sucedâneos da visualização de fotografias em tamanhos grandes numa exposição, mas vale sempre a pena – até porque não há exposições todos os dias e o álbum estará sempre à mão.

M. V. M.

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