Recordações

Img - 024

Eu não fotografo para guardar recordações. Num certo sentido, posso dizer que tenho pena por não me sentir nem um bocadinho impelido para guardar memórias fotográficas dos momentos mais significativos da minha vida.

As razões para que isto aconteça são de duas ordens. A primeira tem que ver com o modo como os bons momentos me marcam. Se os vivo, sou capaz de guardar na memória cada segundo deles. Momentos como o meu primeiro beijo romântico, o dia em que cheguei a Coimbra para frequentar a faculdade ou (por exemplo) aquele em que comprei a OM estão gravados indelevelmente na minha memória e nada os apagará. Não é por não ter fotografias desses momentos que os vou esquecer. O mesmo se diga da família e dos amigos: não preciso de fotografias para os recordar. Isto vale também para as férias ou viagens que fiz e os locais por onde passei: se me impressionaram, as suas recordações vão permanecer. Aliás, ver fotografias desses momentos, embora tenha a virtude de trazer de volta à memória rostos que havia esquecido, não me faz suspirar ou chorar com as saudades. Estas últimas estão sempre presentes (quando existem) e não necessitam de uma imagem visual para aparecer. Basta-me convocá-las. Aliás, ver fotografias pode ter um efeito perverso, que é o de me pôr a analisá-las criticamente em lugar de reviver os momentos que nelas ficaram fixados.

O que me leva à segunda ordem de razões. Eu fotografo para exprimir plasticamente o que vejo. Não fotografo uma coisa por me parecer bonita, ou pelas recordações que me vai despertar no futuro, mas por ter um potencial gráfico que me parece merecedor de ser fixado numa imagem fotográfica. É evidente que podia compartimentar as minhas fotografias, dividindo-as entre o álbum de recordações e as fotografias feitas com intenção criativa, mas não tenho qualquer interesse nisso. Como já disse, ver fotografias antigas pode ser interessante, mas apenas como documentos. Ver um grande acervo de fotografias da família, como o que os meus pais juntaram, permite-me saber como eram os meus avós e como as pessoas se vestiam na época deles, mas este interesse é meramente documental. As fotografias dessa época eram demasiado encenadas para exprimir a vida tal como ela era vivida.

Pode muito bem acontecer que me venha a arrepender de ser assim e que, no futuro, não tenha nada que ver quando quiser convocar os bons momentos da minha vida. Pode a memória, na qual tanto confio, um dia falhar-me; se isto acontecer (vade retro!), porém, tal significará que a dementia senilis me atacou, pelo que as recordações serão indiferentes.

Embora possa não parecer, isto ainda vem a propósito da viagem a Lisboa de Terça-feira, dia 10 de Março. As fotografias que fiz não foram para me recordar desse dia (e que havia para recordar?), mas para exprimir o que vi através da minha linguagem estética. Na qual, diga-se, só há lugar para o preto-e-branco, por ser mais apto a fixar linhas, formas e contrastes do que a cor. O preto-e-branco não é necessariamente o que nos vem de imediato à mente quando pensamos sobre qual a melhor forma de fotografar momentos inesquecíveis das nossas vidas. Deste modo, a minha dúzia de fotografias de Lisboa dificilmente me servirá para recordar a viagem. O meu propósito não era esse, mas outro.

Aliás, o facto de as minhas fotografias não se referirem a momentos, mas sim a coisas e lugares, pode vir a trazer-lhes uma natureza intemporal (para a qual o próprio preto-e-branco contribui), no sentido em que estão desligadas das circunstâncias de tempo em que foram feitas. Não existe o risco de parecerem datadas – ao contrário das fotografias a cores, que são facilmente situáveis no tempo. Mas também admito que possam ser consideradas mais frias e menos humanas por não estarem ligadas a momentos significativos. É um risco que corro voluntária e conscientemente.

Tudo isto pode significar que eu sou um péssimo turista. Contudo, a única coisa que lamento, das fotografias lisboetas, foi não ter querido ou podido fazer mais. As que fiz ficaram satisfatórias, não mais. Gostava de ter feito mais. Da próxima levo mais dois rolos no bolso.

M. V. M.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s