As razões do meu silêncio (3)

Eis-me, pois, chegado ao Largo do Rato a bordo da carreira 706 da Carris. Subi uma avenida a pé, que me fez ver que os campolidenses foram bem ajuizados ao votar em referendo a favor da substituição da calçada portuguesa por cimento – aquelas pedrinhas são incrivelmente escorregadias, especialmente se o calçado tiver solas de couro –, e eis-me no local do teste. Antes de entrar na sala dos testes, onde ficaria virado para uma parede só com um monitor e um teclado à minha frente, fui sujeito a um controlo de segurança mais completo do que o da maioria dos aeroportos: depois de me terem fornecido um folheto que começava com ameaças de procedimento civil e criminal e terminava com a proibição expressa de levar armas para a sala de testes, tive de retirar tudo dos bolsos e virá-los e fui passado por um detector de metais.

Sentei-me finalmente defronte ao monitor e ao teclado. A primeira parte era um teste de compreensão de um texto com perguntas de resposta múltipla extremamente capciosas, mas, quando abri o texto que deveria traduzir e que era o principal do teste, como referi no texto de ontem, senti-me quase eufórico: era um excerto de uma sentença do Tribunal de Justiça da União Europeia! Valeram a pena aquelas traduções de sentenças dos tribunais superiores: penso até que ia sobrepreparado (será que esta palavra existe?), pois ao fim de meia-hora já tinha a tradução feita e dediquei cerca de 35 minutos a rever a tradução.

Saí do teste com a mesma sensação que experimentava quando uma frequência ou um exame me corriam excepcionalmente bem em Coimbra, ou quando saio de uma audiência de julgamento sabendo que a sentença me vai ser favorável. Posso, evidentemente, estar enganado – mas o certo é que não voltei a pensar no que fizera no teste, o que, pelo menos comigo, costuma ser bom sinal.

Este grau de preparação, ou de sobrepreparação, (assumindo que esta palavra existe) implicou ter ficado com muito mais tempo livre do que esperava. E como pensam que o M. V. M. passou o seu tempo livre? Sim, acertaram – eu tinha levado a OM-2. Foi uma escolha que me fez hesitar, porque não queria que a expectativa de ir fotografar interferisse negativamente com o teste, mas escusava de me ter preocupado. Pelo contrário, ter-me-ia arrependido amargamente de ter estado em Lisboa e não ter levado a máquina.

Estação Baixa-Chiado do metro de Lisboa (imagem Wikipedia Commons)
Estação Baixa-Chiado do metro de Lisboa (imagem Wikipedia Commons)

É que Lisboa é um cenário maravilhoso para fotografia de rua. Que o digam o Rui Palha e o Peter Turnley. É certamente melhor que o Porto para este género de fotografia, embora por razões inefáveis que não sei bem explicar. Tomei o metro no Largo do Rato em direcção à estação da Baixa-Chiado. Foi ali mesmo que comecei a sessão: os túneis daquela estação têm umas formas absolutamente fantásticas, uma luminosidade sombria e uma textura que fez pensar se o arquitecto não seria um entusiasta de rolos Ilford, tal a afinidade daquelas passagens com o preto-e-branco. Estou ansioso por ver os resultados, embora seja possível que as fotografias tenham ficado um pouco subexpostas.

O Chiado é, de muito longe, a zona urbana mais bonita do país. É, ao mesmo tempo, clássico e contemporâneo: os imóveis podem ser pombalinos ou mais tardios, mas a vida que pulsa naquelas ruas é certamente a dos dias de hoje. Ali respira-se um ambiente cosmopolita e cem por cento urbano: não há nada de provinciano no Chiado. Não há, como no Porto, a sensação de bairro enorme que existe mesmo nas zonas mais frequentadas. Em Lisboa (ou pelo menos no Chiado) a vida é a de uma capital europeia do Século XXI, sem atavismos nem complexos de aldeia urbana. Neste aspecto, penso que muitas pessoas do Porto faziam bem em passar uma temporada em Lisboa de vez em quando: talvez assim perdessem um pouco do seu preconceito.

Isto não significa, de modo algum, que Lisboa seja uma cidade perfeita: há zonas onde o urbanismo feio, a desorganização, o excesso de tráfego (que inclui o estacionamento anárquico), a poluição, o amontoado imobiliário e a notória falta de manutenção e reabilitação tornam a cidade decididamente hostil, mas a Baixa Pombalina não pertence a esta Lisboa sufocante e francamente desagradável. Aqui a cidade convida a viver, a ver, a trocar impressões com estranhos e a percorrer as ruas felizmente desertas de trânsito com um sorriso nos lábios. As Ruas Garrett e do Carmo são um êxtase de cosmopolitismo e elegância; as que confluem para a Praça do Comércio são o esplendor da capital do império misturado com a vida contemporânea de uma cidade que parece sempre atarefada, que se diria um imenso organismo que respira e se move em concomitância com os que a habitam e a visitam. (Continua)

M. V. M.

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