Camera lust

Robert Doisneau, L' Avion de Papa
Robert Doisneau, L’ Avion de Papa

Conheço pessoas que têm centenas de máquinas fotográficas. Eu, com a minha mente pragmática e utilitária, só tenho três – e só uso, presentemente, uma delas. Curiosamente, em lugar de considerar que esses coleccionadores são pessoas doentes, quando converso com eles fico invariavelmente com a sensação de que o defeito é meu; de que me falta qualquer coisa, de que há um vazio que não consigo preencher. As conversas fazem-me sentir como se só tivesse uma camisa ou um par de peúgas: sinto-me miserável e carenciado.

Estes coleccionadores adoram câmaras e têm meios para as adquirir, manter e restaurar. Não me refiro apenas aos meios económicos, mas sobretudo aos técnicos: eles seriam capazes de reparar uma câmara dos anos 50 do século passado sem recorrer a vídeos no You Tube; eu nunca saberia substituir um obturador ou um fotómetro, nem com um técnico a mostrar-me o que devia fazer. Não tenho esses recursos. Se um dia chegar a ter um número de câmaras que possa ser considerado uma colecção, será por não me ter desfeito das câmaras mais antigas. Neste momento a minha colecção vai em três câmaras, uma das quais em compropriedade indivisa (e, por sinal, a única que não funciona correctamente).

Apesar de tudo, não posso dizer que me sinto desgostoso por não ter centenas de câmaras. A possibilidade de ter nem que fosse apenas meia dúzia delas esbarraria sempre com uma pergunta simples – para quê? (Reparem que não é porquê, mas para quê.) As pessoas a que me refiro nunca usarão a esmagadora maioria das câmaras que compõem a sua colecção, o que me faz perguntar para que as querem. Não entendo o coleccionismo, mas este é, obviamente, um defeito meu. Ter um oceano de câmaras teria de ter uma justificação, que seria necessitar delas. Neste momento as minhas necessidades resumem-se a uma máquina fotográfica, pelo que a outra (a outra que funciona, quero eu dizer) não está a ser utilizada. É mesmo assim: as minhas aquisições foram sempre baseadas no princípio da necessidade. Ter mais do que necessito é esbanjamento.

Significará isto que tenho tudo o que quero? Não. Há algo de que sinto falta. A minha OM e os rolos que uso são capazes de enorme qualidade, mas sinto que é possível ainda mais. Há sempre qualquer coisa que sinto que podia ser melhorada. Olho fotografias de Artur Pastor, Vivian Maier e Robert Doisneau e sinto nelas uma qualidade que é a que pretendo atingir. Há humanidade naquelas fotografias. Os contornos nunca são exagerados, mas a precisão com que são descritos é semelhante à que vemos com os nossos olhos. A resolução é fabulosa, mas sem os excessos que a pós-produção digital potencia; e a profundidade de campo é algo que precisa ser visto para se acreditar. Aquelas são fotografias em que tudo parece estar correcto, ponderado, equilibrado.

A OM e os Ilford não me dão este nível de qualidade. A película 135, embora capaz de excelentes resultados, não é mais que um compromisso. As fotografias a que me referi no parágrafo anterior foram feitas com máquinas de médio formato, mais concretamente com as Rolleiflex. Aqui está: esta é a minha única lacuna equipamental. Uma TLR. A única máquina que me causa anseios e desgosto de não a ter é uma TLR. Não me importaria se não fosse uma Rolleiflex: a Yashica Mat 124 G também produz belíssimos resultados, com a vantagem de ter um fotómetro incorporado (embora rudimentar e sujeito a falhas); a Mamiya C é uma máquina profissional que tem a vantagem de ter objectivas intermutáveis. Mesmo considerando as Rolleiflex, ficaria perfeitamente feliz com a 3.5F, com as suas lentes Schneider que são consideradas inferiores às Zeiss da versão 2.8F.

Na verdade, só aspiro a uma destas máquinas por sentir necessidade dela. A qualidade da película de médio formato é algo que quero atingir. Não é a máquina em si que me interessa: esta é um instrumento que só conta por ser um meio de atingir a qualidade que pretendo; não é um fim em si. Não por a qualidade ser decisiva para a maneira como fotografo, mas por ser algo que é sempre desejável. Especialmente aquela qualidade dos rolos de médio formato e a das TLR – que, do meu ponto de vista, continua inigualada.

M. V. M.

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