Diário de viagem, parte 1

1309301284Na Quarta-feira, dia 18 de Fevereiro, o M. V. M. foi a Évora. Poderão alguns perguntar o que me levou ao Alentejo a meio de uma semana de trabalho; a verdade é que não fui em viagem de lazer, mas em trabalho.

Eu não sei ao certo quantos juristas lêem o Número f/, mas, sejam eles quantos forem, estão acostumados à figura do apoio judiciário. Pois bem: nos finais de 2014 fui nomeado defensor oficioso de uma pessoa contra quem fora requerido um procedimento especial de despejo, invenção socrática criada com o único propósito de facilitar a vida aos senhorios. Tendo requerido no processo que a desocupação fosse diferida, arrolei duas testemunhas para fazer prova da existência dos pressupostos legais do diferimento. A arrendatária residia, como já devem ter imaginado, em Évora, mas o «Balcão Nacional do Arrendamento», onde são deduzidos os pedidos de despejo e de outros factos jurídicos relacionados com o arrendamento, é no Porto. Em consequência, o sistema de apoio judiciário nomeia advogados da comarca do Porto – mesmo que o arrendatário não resida no Porto –, o que é irracional e estúpido mas as coisas são assim mesmo e eu tive de me deslocar a Évora para a inquirição das testemunhas que arrolara. O que significa que perdi um dia inteiro de trabalho e passei nove horas da minha vida no interior de autocarros para estar presente numa diligência que durou menos de meia hora.

A viagem foi planeada com a antecedência aconselhável. Mais de uma semana antes da deslocação, estudei os melhores meios de transporte e optei pelos autocarros da Rede nacional de Expressos. A alternativa era o comboio, mas este, além de mais caro, obrigava-me a embarcar às 05h30 no Alfa Pendular para chegar a tempo.

Viajar de autocarro tem apenas um problema: é mais lento. Fora isso, os autocarros são muito confortáveis – dois deles incluíam estofos de couro! – e os condutores são seguros e experientes. O único reparo que a viagem até Lisboa, onde fiz transbordo para um outro autocarro com destino a Campo Maior e paragem em Évora, me mereceu, foi o facto de o assento estar avariado: reclinava sem possibilidade de deter o movimento. Foi estranho que, tendo sido o primeiro passageiro a reservar um lugar, tivesse de escolher aquele que, aparentemente, era o único assento avariado. Oh well…

Quem viajar pela A1 em direcção a Lisboa e contemplar a paisagem pode ficar com a impressão de que Portugal é um país feio. O que se vê, pelas janelas do autocarro, é um sem-fim de fábricas, algumas abandonadas e outras em laboração, armazéns e estabelecimentos, entrecortados por mata invariavelmente constituída por eucaliptos e pinheiros bravos. (Ou melhor: pinheiros. Em Portugal distinguimos entre pinheiros bravos e mansos, mas estes últimos são, na verdade, abetos; pelo que «bravo» é um adjectivo desnecessário.) Uma paisagem feia que em nada contribui para causar uma boa impressão a quem viaja.

Em Lisboa mudei de autocarro. Era de novo um chassis Volvo com carroçaria Irizar, mas com estofos de tecido. Em contrapartida, a paisagem, que no percurso anterior se fora tornando mais feia e industrial à medida que o autocarro se aproximava de Lisboa, mudou drasticamente depois da travessia do Tejo. Atravessei a Ponte Vasco da Gama com uma única interrogação na minha mente: quantos milhões terá embolsado o construtor à custa daquela obra? Chegado à outra margem, os campos extensos e copiosamente regados eram habitat de milhares de aves. Compreendi instantaneamente por que um amigo que reside em Alcochete se dedica tão apaixonadamente à fotografia ornitológica: as espécies de aves devem ser às centenas.

Esta lezíria foi progressivamente dando lugar a uma paisagem plana e frondosa à medida que o autocarro ia entrando no Alentejo. Aqui, pelo menos nesta época do ano, os campos são verdes, de um verde intenso e bonito que nem no Minho, que é frequentemente adjectivado de «verde», consigo ver. (Talvez o adjectivo, no caso do Minho, tenha mais que ver com o vinho do que com os campos, quem sabe?) No Alentejo que percorri, o que mais se vê é sobrado, com as árvores descascadas; há muita vinha e algumas (poucas) oliveiras, que se distinguem ao longe pela palidez da folhagem. Nada de pinheiros – apenas alguns bordejavam a autoestrada – nem de eucaliptos. Os alentejanos são mais sagazes que os nortenhos e deportaram os eucaliptos para a nativa Austrália. (Continua)

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