O caso Edgar Martins (2)

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A imagem da polémica

Penso que Edgar Martins procedeu mal: se tivesse informado que recorreria à edição de imagem antes de celebrar o contrato, a sua boa fé ter-se-ia tornado inabalável. Perante essa declaração, o New York Times poderia ter aceitado as imagens – que, diga-se, são de uma qualidade estonteante, como é habitual com Edgar Martins – ou ter recusado os termos propostos. Neste último caso, só restaria a Edgar Martins não assumir quaisquer obrigações.

Não sei se Edgar Martins omitiu informação sobre os seus métodos de trabalho por cupidez, de modo a não deixar de receber os ganhos originados pelo contrato – como muitos alegaram –, ou se não quis comprometer a integridade do seu trabalho mostrando imagens não editadas. Repito que, se foi este o caso, seria legítimo tê-lo feito se tivesse informado a outra parte. Não o fez; escolheu apresentar imagens editadas, a despeito de o contrato o proibir e de ter anteriormente clamado que as suas imagens não eram manipuladas. Ao tentar justificar a sua conduta com um texto de teor pomposamente filosófico, com alusões a Nietzsche, Susan Sontag e Roland Barthes, apenas pareceu arrogante. Ficou mal visto e colou-se-lhe a fama de mentiroso.

Este foi um episódio muito triste. Um dos fotógrafos que mais aprecio teve, afinal, uma conduta reprovável, cheia de sobranceria e pretensão. Se ele queria mostrar fotografias editadas, era legítimo fazê-lo – se tal correspondesse à vontade da outra parte contratual, o que não foi o caso. Seja como for, tudo se resume a uma violação de uma cláusula contratual. Não era necessário todo o histerismo que se seguiu. Alguns pareceram guardar um rancor eterno, de tal modo que ainda hoje ao nome Edgar Martins é associado ao adjectivo «mentiroso». Eu nunca me tinha dado conta desta questão – tive conhecimento da sua existência anteontem –, mas, aparentemente, houve quem nunca esquecesse. A conduta de Edgar Martins foi incorrecta? Decerto. Foi tão grave que justificasse uma enxurrada de insultos e o ressentimento eterno? A meu ver, não. Penso que o New York Times escolheu mal o fotógrafo, porque Edgar Martins não é um fotojornalista: é um artista que cria ilusões com as suas chapas e o recurso ao computador. Não era a pessoa mais indicada para mostrar realidades factuais através da fotografia. Esse é o trabalho dos fotojornalistas (e mesmo isto é discutível).

A internet é um bom meio para compreender a natureza humana em tudo o que tem de cobarde, aleivoso e perverso. Atrás de um monitor há-de encontrar-se sempre alguém pronto a descarregar a sua bílis e o azedume da sua vida sobre outrem, a coberto do anonimato que a internet lhe confere. Tornou-se normal – embora jamais aceitável – insultar, vilipendiar e caluniar nos espaços de comentários da internet. E, evidentemente, há sempre alguém disposto a ganhar uma fama efémera denunciando o que lhe parece ser um escândalo, como a pessoa que despoletou toda esta polémica, sem qualquer tipo de contemplação da possibilidade de estar a destruir uma reputação. A internet é um lugar onde este género de incidente pode assumir proporções de escândalo internacional. Os comentários que li a este propósito encheram-me de nojo: deixaram-me a pensar que, se se tratasse de um assassino ou um ladrão, teria recebido mais complacência e compreensão. Edgar Martins não matou nem roubou: apenas incumpriu um contrato. Podia – e devia – ter tomado uma atitude mais correcta, porque as partes de um contrato devem proceder de boa fé; Edgar Martins não o fez. Mas não causou prejuízo a ninguém – a não ser à sua própria reputação. Agiu mal posteriormente ao tentar justificar-se com sobranceria; Robert Musil escreveu: «o que importa não é o erro, mas o que fazemos depois dele». Pois bem: Edgar Martins escudou-se num exercício fastidioso de retórica e nunca, em momento algum, mostrou arrependimento. Não me refiro ao arrependimento teológico, porque a sua conduta não foi tão grave que justificasse o carregar do fardo da culpa, mas um simples pedido de desculpa e uma justificação coerente teriam decerto sido bem aceites.

Se analisarmos bem as coisas, nada disto é importante. Aliás, num tempo em que todos os fotógrafos recorrem extensivamente ao Photoshop, parece-me hipócrita condenar Edgar Martins por tê-lo feito. A qualidade da sua obra permanece intocável, mesmo que a consideração que E. Martins merece graças à qualidade da sua fotografia tenha ficado prejudicada. O tempo, e o valor imenso da sua obra, vieram atenuar as repercussões deste episódio na carreira de Edgar Martins. Foram-lhe entretanto cometidos outros trabalhos de tanta ou maior importância e hoje Edgar Martins é um dos grandes fotógrafos mundiais. O episódio que relatei não belisca o seu mérito e, se até os crimes mais graves prescrevem, por que há-de este inadimplemento de uma cláusula contratual ser lembrado hoje?

M. V. M.

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