O caso Edgar Martins (1)

imagem3
A fotografia de Edgar Martins que gerou controvérsia em 2009

Ontem descobri algo que me deixou perturbado. As polémicas sobre fotografia são abundantes, especialmente quando são anunciados os prémios da World Press Photo, mas não esperava ver uma das minhas referências, Edgar Martins, envolto numa controvérsia feroz. Contudo, aconteceu. Edgar Martins foi sujeito ao mesmo tratamento que tiveram Paolo Pellegrin e Paul Hansen, embora em circunstâncias muito diferentes.

Ter adquirido conhecimento desta polémica despertou a minha curiosidade – de tal maneira que me fez perder uma manhã a navegar na net à procura das causas desta controvérsia em lugar de pôr o trabalho em dia ou ver as digitalizações do meu último rolo FP4, que me chegaram esta manhã via Dropbox (conseguem conceber maior sacrilégio que este?). Aparentemente, tudo começou quando um indivíduo qualquer foi gritar fraude para a internet clamando que uma das imagens de Edgar Martins incluída na série End of the Second Gilded Age, que lhe fora encomendada pela New York Times Magazine em 2009 para ilustrar as consequências da crise dos subprime, com a sucessão de casas começadas a construir e deixadas a meio que esta crise essencialmente imobiliária provocou, foi manipulada através de um filtro do Photoshop que inverte parte da imagem, criando a simetria de um objecto visto ao espelho, o que contrariou o contrato que Edgar Martins celebrara com o New York Times, no qual estava inscrita uma cláusula que vedava o uso de manipulação digital nas imagens a apresentar. Em consequência, o slideshow publicado no website da New York Times Magazine com as fotografias daquela série foi desactivado e substituído por uma mensagem altamente desprestigiante para Edgar Martins.

Seguiu-se um rol de comentários fortemente depreciativos. A reacção geral à suposta fraude de Edgar Martins trouxe-me à memória o tipo de argumentos que foram usados em relação à fotografia de Paul Hansen de um funeral de crianças palestinianas em Gaza que recebeu o prémio da World Press Photo recentemente. Se a memória não vos atraiçoar, lembrar-se-ão certamente que um sujeito chamado Neal Krawetz alegou que a fotografia de Hansen era uma fraude por ser uma imagem composta. Mais tarde, uma investigação mais aprofundada estabeleceu que não foram movidos pixéis, destruindo assim as denúncias de fraude do Sr. Krawetz. Mais tarde ainda houve uma controvérsia do mesmo tipo com uma imagem de Paolo Pellegrin feita em Rochester, NY, com um ex-fuzileiro naval armado por motivo. Argumentou-se que a fotografia era falsa porque não podia ter sido feito na zona do “Crescente”, à qual a reportagem de Pellegrin aludia, o que levou a uma outra controvérsia – mas desta vez provou-se que a fotografia foi efectivamente feita a cerca de trinta quilómetros do “Crescente”.

Em todos os três casos, a ética dos fotógrafos foi sujeita a remoques amargos na internet. Eu não conheço Edgar Martins pessoalmente, mas conheço razoavelmente bem o seu método de trabalho. Edgar Martins é um fotógrafo obcecado com a simetria. Ele demora horas a compor e enquadrar. Edgar Martins usa uma câmara de grande formato Toyo 8×10 e dá-se a trabalhos fastidiosos para alinhar a câmara até obter a imagem que pretendia. O seu método de trabalho é extremamente exigente e traduz-se em imagens de quase perfeita simetria. Como no caso de Pellegrin, alguém fez uma imagem destacar-se de um trabalho inteiro e afirmou que o próprio fotógrafo era uma fraude, um mentiroso sem escrúpulos. Paolo Pellegrin teve a Magnum a endossar sua apologia e a controvérsia foi esquecida; Paul Hansen teve WPP a apoiá-lo. Em ambos os casos, o assunto foi esquecido e a vida pôde continuar. Edgar Martins teve de enfrentar as críticas sozinho. Até mesmo o New York Times assumiu que o seu trabalho era fraudulento. A sua defesa foi ridicularizada e, aparentemente, o homem passou a ser visto pela comunidade fotográfica como um farsante e um mentiroso.

A polémica parece-me ter assumido proporções desnecessárias. A imagem em questão foi manipulada recorrendo ao espelhamento, como o próprio Edgar Martins reconheceu. Não tive acesso ao contrato celebrado entre E. Martins e o New York Times, mas dando como certo que a cláusula que vedava a manipulação da imagem existia, Edgar Martins violou-a. Note-se, porém, que ele não falseou a imagem: a casa em questão existia e não foi adicionado nenhum elemento estranho à cena. O uso de manipulação da imagem é parte integrante do trabalho de Edgar Martins: só assim é atingível o grau de perfeição geométrica que as suas fotografias ostentam. Por vezes são adicionados objectos no enquadramento, mas aqueles estavam presentes no local: são simplesmente duplicados e colocados noutras áreas da imagem. Edgar Martins usa este método para conferir mais expressão às suas fotografias, fazendo-as corresponder aos seus ideais. Até aqui tudo bem: o problema foi que E. Martins apresentou as fotografias como sendo imagens analógicas sem edição. É inequívoco que violou a cláusula do contrato que havia celebrado. Será que isto faz dele um mentiroso, alguém que merecesse ter sido mais insultado e vilipendiado na internet que um assassino confesso? (Continua)

M. V. M.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s