Ladies and gentlemen, meet Fan Ho (*)

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Quando pensamos em nomes históricos do estilo a que se convencionou chamar «fotografia de rua», é natural que nos ocorram os de Henri Cartier-Bresson, Robert Doisneau, Garry Winogrand, William Klein ou o daquela que, em poucos anos, subverteu as hierarquias que se estabeleceram ao longo de várias décadas: Vivian Maier. O leitor mais atento terá, eventualmente, reparado que todos estes fotógrafos são ocidentais: dois franceses, dois americanos e uma austro-francesa que fotografou a maior parte da sua obra nos Estados Unidos.

Esta predominância de ocidentais não é nada de espantar. A fotografia artística, afinal, nasceu na Europa com a própria fotografia. A Europa é pátria de Joseph Nicéphore Niépce, que inventou a fotografia, e dos pioneiros que cedo começaram a explorar o potencial estético da invenção de Niépce. Os Estados Unidos, por seu turno, não tardaram a compreender as possibilidades industriais da fotografia e em breve George Eastman estabeleceria a Kodak; seguiram-se os grandes fotógrafos americanos como Edward Weston ou W. Eugene Smith. Diria, pois, que a fotografia é uma manifestação artística de origem ocidental – sem qualquer sobranceria, mas com a frieza analítica de quem verifica um facto.

Nada disto significa que a fotografia artística deva confinar-se à Europa e aos Estados Unidos. As suas raízes ocidentais não implicam que a fotografia não se tenha expandido e não significam, de forma alguma, que apenas os fotógrafos destas partes do mundo devam ser considerados merecedores de crédito; apesar de ser indesmentível que foi daqui que surgiram os pioneiros, seria um erro clamoroso olhar apenas para o Ocidente quando se procuram grandes nomes da fotografia.

Os três parágrafos que precedem servem de prelúdio à apresentação de um fotógrafo que não é oriundo da Europa nem dos Estados Unidos. É possível que muitos, neste lado do planeta, não o conheçam; eu, até ao passado Sábado, nunca tinha ouvido falar nele (o que é mais ou menos natural, já que a minha erudição fotográfica não dá para encher uma folha de um bloco de notas com nomes de fotógrafos). Este desconhecimento não quer dizer que esse fotógrafo não seja um dos melhores de sempre: significa apenas que ainda não o conhecia. Agora que esta lacuna nos meus conhecimentos está preenchida, permitam-me apresentar-vos a obra de Fan Ho, fotógrafo natural de Hong Kong.

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Fan Ho é, possivelmente, um dos fotógrafos de rua mais inspiradores e cujo estilo é mais seguido por quem procura dedicar-se à fotografia de rua. Quem vir as suas fotografias na internet poderá, devido à quantidade de fotografias que se inspiraram nas de Fan Ho, pensar que estas últimas não são nada de original; a estes, apenas posso formular uma recomendação: que reparem bem nas datas em que essas fotografias foram feitas. Hoje há muitas fotografias ditas de rua que vivem da luz e das formas geométricas que podemos encontrar nas cidades, mas Fan Ho chegou lá primeiro. Antes dele, ninguém tinha explorado as relações entre luz e sombra e entre dimensões daquela maneira. O minimalismo geométrico que vemos em Ray K. Metzker foi primeiro explorado por Fan Ho. Digamos que é um fotógrafo que moldou a fotografia de rua e contribuiu para torná-la no que é hoje. Não é nenhum exagero afirmá-lo.

Arrow, 1958

O que me fascina, nas fotografias de Fan Ho (que não se limitou a fazer fotografia de rua, mas decerto contribuiu para expandir os seus cenários), é a maneira como joga com os volumes, as formas, as linhas, as proporções e a luz. A sua linguagem recorre, com enorme mestria, às condições de luz disponíveis, explorando o contraste de uma maneira tal que não é exagero dizer-se que foi o precursor da fotografia de rua contemporânea. A fotografia de Fan Ho desenvolve-se em cenários com um poderoso sentido geométrico, explorando frequentemente o contraste entre volumes e dimensões para exprimir, quer a grandiosidade de um cenário, quer o sentimento de pequenez e isolamento da pessoa na cidade. Tudo isto, diga-se, em fotografias belíssimas: o sentido estético de Fan Ho parte de ideias e conceitos simples – muitas vezes minimalistas – para criar composições rigorosas, mas nunca rígidas ou desérticas. E todas, invariavelmente, de um bom gosto e de uma qualidade estética absolutamente irrepreensíveis. De facto, se pensarmos na arte oriental como sendo carregada de ornamentações e de carga visual pesada, dificilmente atribuiremos a Fan Ho a sua naturalidade depois de olharmos algumas das suas fotografias; mais facilmente pensaremos nele como um ocidental. E, contudo, são muitas as suas fotografias em que o gosto pelo pormenor que identifica a arte oriental está presente: no rendilhado delicado dos ramos de uma árvore, na profusão de pormenores das ruas de Hong Kong ou nos chiaroscuri de transeuntes, que remetem instantaneamente para teatros de sombras.

Pensei que seria boa ideia compartilhar esta descoberta com os meus leitores. É possível que muitos já conhecessem a obra fotográfica de Fan Ho, mas estou certo que alguns passaram, tal como eu, ao lado de uma das figuras maiores da fotografia. O que é, convenhamos, uma injustiça.

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(*) Com os meus agradecimentos ao Paulo Moreira, que me apresentou a obra de Fan Ho.

M. V. M.

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1 thought on “Ladies and gentlemen, meet Fan Ho (*)”

  1. Não resisto em o felicitar pelo elevado nível, pelo qual têm pautado o blog, em especial pelos últimos posts.
    Agradecendo como leitor, a partilha de um nome (Fan Ho) do qual até a data, não me tinha suscitado curiosidade!

    Saudações.

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