Vamos falar de coisas sérias (parte 1)

Lartigue_Grand_Prix

Parte 2|Parte 3

Ontem fui à Câmaras & Companhia entregar mais um rolo para revelar e digitalizar. Como quase sempre acontece naquela casa, cedo me envolvi numa conversa interessante, na qual se versou a fotografia de Jacques Henri Lartigue que surge no topo. Este é o tipo de fotografia que deixa o não iniciado confuso, por não fazer a mais pequena ideia como foi possível captar aquela distorção. Não é a distorção anamórfica típica das lentes grande-angulares, porque este tipo de distorção só se manifesta nos cantos da imagem e a roda do veículo está bem mais perto do centro do que das extremidades do enquadramento. A distorção deve-se, outrossim, a causas mecânicas, i. e. ao funcionamento das cortinas do obturador da ICA 9×12 usada por Lartigue. (A explicação pode ser encontrada aqui.)

Foi ao procurar informação sobre essa peça central de um equipamento fotográfico que me deparei com um fenómeno que não deixou de me perturbar: não há um único artigo sério escrito em português acerca do obturador. A página da Wikipédia foi escrita por um brasileiro que, além de ser manifesto que não percebe muito do assunto, se exprimiu num português que até pelos critérios da Wikipédia é vergonhoso. Proponho-me, deste modo, carregar sobre os ombros a responsabilidade de escrever um texto com um mínimo de rigor e clareza sobre aquele que é, provavelmente, o elemento mecânico – ou mecânico-electrónico – mais importante de uma câmara fotográfica.

1. O que é o obturador, como funciona e para que serve

O obturador é, usando uma linguagem muito simples e compreensível, uma barreira física à passagem da luz. As imagens fotográficas são captadas através da penetração da luz numa câmara estanque; dentro dessa câmara está uma superfície sensível à luz – a película ou o sensor – na qual a imagem vai ser gravada. Diz-se, quando a luz atinge a película ou o sensor, que estes estão a ser expostos. É isto que se entende por exposição. Esquecendo, por motivos de simplicidade, as outras variáveis da qual depende a exposição, sempre se dirá que esta última tem de ter uma determinada duração para ser efectiva. Dependendo da luz reflectida pelo motivo a fotografar, a duração da exposição – ou, num termo mais familiar para quem conhece a terminologia fotográfica, o tempo de exposição – pode ser extremamente longa (como acontece quando se faz fotografia nocturna) ou prodigiosamente curta, o que é requerido para congelar movimentos de alta velocidade ou para fotografar com aberturas amplas debaixo de luz intensa.

Ora, o tempo de exposição precisa de ser controlado com uma precisão extrema para que o registo da imagem tenha sucesso. O tempo durante o qual a superfície sensível vai estar exposta à luz é controlado através de um mecanismo que abre e fecha, permitindo a passagem momentânea de luz e assegurando que apenas a luz estritamente necessária à exposição atinge a película ou sensor. Este mecanismo é o obturador. É ele que impede a luz de expor a superfície sensível quando tal não é desejado e, inversamente, permite a sua entrada na câmara nas condições necessárias a obter a exposição. É bom de ver que a concepção de um mecanismo que abre e fecha numa fracção de segundo foi um desafio tecnológico gigantesco que os pioneiros da indústria fotográfica encontraram: o mecanismo deve, não apenas ser fulgurantemente rápido, mas também de uma precisão infalível.

É possível, em teoria, gravar uma imagem fotograficamente sem a existência de um obturador; era assim, de resto, que as câmaras primitivas gravavam as primeiras fotografias. Simplesmente, mesmo as exposições dessas câmaras pioneiras (que podiam durar um dia inteiro!) tinham de ser finalizadas para que a chapa fosse revelada. Isto podia ser feito de uma forma extremamente simples tapando a lente, mas este procedimento não era prático quando se pretendiam tempos de exposição curtos. Deste modo, cedo surgiu o primeiro obturador, que obturava a passagem de luz deslizando verticalmente, como a lâmina de uma guilhotina. Este tipo de obturador, que nas primeiras câmaras era um simples painel de madeira que mais tarde foi substituído por tecido – de onde a denominação cortina -, tinha a vantagem de possibilitar tempos de exposição de 1/1000, mas trazia consigo o inconveniente de ser lento, fazendo com que a exposição não fosse uniforme ao longo do plano vertical da imagem, e pouco durável, uma vez que os materiais empregues – especialmente os da cortina propriamente dita – nem sempre suportavam as enormes acelerações a que eram sujeitos. (Continua)

M. V. M.

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2 thoughts on “Vamos falar de coisas sérias (parte 1)”

  1. O trabalho de Lartigue, vai um pouco além as das limitações técnicas de que sofria na altura, sendo para mim um exemplo de admiração, que pela sua idade, quer sua “ingénua” abordagem…!

    Relativamente ao obturador, habitualmente associado ás cortinas, ocorre-me referir uma outra abordagem tecnológica, que supera as limitações destas, falo do Leaf shutter:
    http://camerapedia.wikia.com/wiki/Leaf_shutter

    Tecnologia, presente em equipamentos como os da phase, ou mesmo fuji x100, que possibilitam sincronismos com o flash até 1/4000:
    http://www.phaseone.com/Camera-Systems/Leaf-Shutter-Lenses.aspx

    http://en.wikipedia.org/wiki/Shutter_(photography)
    http://camerapedia.wikia.com/wiki/Leaf_shutter
    http://www.kern-photo.com/2013/01/why-leaf-shutter-lenses-matter/

    Saudações

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