A pilhagem

Há uma mania entre as pessoas que gostam de fotografar que começa a mexer com os meus nervos: essas pessoas vêem no facebook uma fotografia feita a um determinado motivo, ou num determinado local, que lhes parece interessante, e zás – decidem que é aquilo que mais querem fotografar na vida; vão todas ter com esse motivo, ou para esse lugar, e depois de tirarem cerca de um milhão de fotografias (aproximadamente) despejam-nas às pazadas no facebook. Tendo já sido vítima desta espécie de pilhagem de ideias, isto irrita-me por mais que um motivo.

O primeiro é que, ao fazerem isto, essas pessoas estão a renunciar a ser originais. A originalidade é algo que eu procuro afanosamente, por isso confesso que fico um pouco frustrado quando, estando a fazer fotografias de surf na Praia Internacional, me aparece um palhaço com uma Canon 650D e desata a fotografar surfistas; e, depois de eu ter publicado uma fotografia de barcos em Vila Chã a ilustrar um texto do Número f/, o mesmo pateta vai para lá na sua bicicleta e põe-se a fotografar o mesmo!

Provavelmente não devia irritar-me com isto: aquelas coisas estão ali e todas as pessoas têm o direito de as fotografar. Têm o mesmo direito que eu. O que me frustra é que as pessoas que procedem assim não têm sequer a noção de que, como alguém já estava ali a fotografar, existe a forte probabilidade de as suas fotografias serem iguais, ou muito idênticas, às que alguém fez antes dele. É como se um miúdo do secundário, depois de ler Os Maias, decidisse escrever um livro sobre um médico frívolo de Lisboa que tem uma relação carnal com uma mulher que, mais tarde, descobre ser sua irmã. Esse livro já está escrito, para quê fazer igual? Haveria era que procurar algo que ninguém fez – mas, infelizmente, nem todos pensam assim e, aparentemente, divertem-se imenso a fazer fotografias iguais a outras que viram antes. Gostos não se discutem…

Isto não chega a ser imitação ou usurpação porque é inocente – mas, francamente, é muito estouvado e pueril. Claro que toda a gente é livre de fotografar um motivo ou um local, mas, caramba – têm mesmo de ir fotografar aquilo? Só porque viram fotografias na internet, ou viram outra pessoa a fotografar? É que esta atitude parece um assédio! Entre os surfistas experimentados há uma regra não escrita: surfista que entra na água não ocupa a onda de outro. Pelo contrário, mantém-se afastado e dá espaço. Por que não pode haver uma norma de conduta como esta entre quem está a fotografar? (Claro que, por razões óbvias, isto não se pode aplicar aos fotojornalistas.)

As pessoas que procedem assim fazem-no por saberem que as suas fotografias vão ser vistas por gente que vai aprovar aquelas imagens. É uma maneira de seguir fórmulas de resultados seguros e comprovados, mas é também uma atitude incrivelmente estulta e leviana. Eu não sou assim: embora seja tão permeável a influências como outro qualquer, procuro sempre uma maneira minha de fazer as coisas. Era o que me faltava se me tornasse num carneiro, numa pessoa que vive reactivamente em função do que outros fazem e assume comportamentos imitativos. Estes comportamentos são perfeitamente aceitáveis em crianças que estão a modelar a sua personalidade, não em adultos. Além de falta de gosto, esta pilhagem de ideias demonstra falta de personalidade ou, pelo menos, de formação intelectual. É gente que segue trilhos já antes desbravados por alguém, que não se aventura a fazer nada de novo e que – oh, estultícia! – renuncia a criar e prefere fazer o que viu outros fazer. Não, isto não é para mim.

Eu não sei que valor as pessoas atribuem às minhas fotografias e, para ser franco, esse é assunto que deixou de me interessar. Eu não fotografo para ter muitos likes no facebook, mas para dar corpo às minhas ideias estéticas. Depois do episódio com a fotografia dos barcos de Vila Chã em que outra pessoa se resolveu inspirar (na falta de melhor termo), resolvi que o facebook é o pior lugar possível para mostrar fotografias. Acabou. Não estou disposto a ver alguém fazer fotografias iguais às minhas. É como se usassem as minhas ideias para fazê-las passar por suas.

Talvez não devesse, mas levo a fotografia demasiado a sério para me envolver em brincadeiras fotográficas ou permitir que brinquem com as minhas fotografias. Não sei o que isto pode parecer para quem leia, mas sinceramente não me interessa. Eu não tenho pretensões a ser um mestre da fotografia, mas também não quero ser um otário que os outros copiam porque não têm um pingo de imaginação e acham mais fácil fazer igual ao que viram fazer. Tenham lá paciência.

M. V. M.

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2 thoughts on “A pilhagem”

  1. Pessoalmente ocorre-me mais a analogia, das bandas de garagem, que começam por tocar “covers” de músicas das bandas preferidas… uma espécie de réplica de grandes obras de pintura…!

    Por sinal, já coloquei alunos de fotografia, a fazer “engenharia reversa” de fotos das preferências deles, replicando a técnica com novos enquadramentos por eles definidos…

    Julgo que ambas as coisas, fazem parte do processo de aprendizagem, quiça uma tentativa de superar o mestre..!

    1. A propósito de analógico vs digital e do “puxar o frame da película” juntamente com o facto de não ter opção de ver o resultado de imediato, podendo utilizar as melhores “ópticas” do mercado, lembrei-me da “velhinha” EPSON RD1-S

      en.wikipedia.org/wiki/Epson_R-D1

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