Uma questão pertinente

81hZeYpCYsL._SL1500_O texto anterior pode levantar uma questão pertinente. Os leitores com mais sentido prático não deixarão decerto de a ter feito. Fotografar com película nos dias que correm implica adquirir um rolo (ou chapas), revelá-lo e, por fim, digitalizá-lo. No fim, o que temos é um conjunto de doze ou trinta e seis ficheiros digitais. Ora, a questão pertinente é a seguinte: não seria muito mais simples, já que o objectivo é obter ficheiros digitais, fotografar com uma câmara digital? Isto pouparia as três etapas a que aludi acima e o resultado final seria o mesmo.

Seria? Não tenho bem a certeza. Pela minha experiência não o seria certamente, mas esta está condicionada pelas razões que referi no texto de ontem. As razões que levam as pessoas a fotografar com máquinas analógicas situam-se maioritariamente no campo emocional. Acreditem ou não, fotografar com uma máquina analógica é um prazer. No meu caso particular – que, não representando a generalidade de quem fotografa, é decerto comum a muitos –, fotografar com rolos é muito mais recompensador. Eu já não passo sem accionar a patilha de avanço da película depois de premir o botão do obturador. Este é um gesto que me faz sentir que estou a fotografar a sério e, de qualquer modo, parece-me um procedimento muito mais agradável do que a rotina que habitualmente se tem depois de disparar com uma câmara digital, que é a de verificar a imagem no ecrã. E estou a fotografar com uma máquina sólida e bem construída, o que é muito mais do que se pode dizer da maioria das DSLR contemporâneas.

O próprio acto de manusear rolos torna o uso de máquinas analógicas mais divertido: oferece uma percepção de materialidade e um envolvimento físico com a fotografia que o digital não pode reproduzir. Não se pode mudar o sensor de uma câmara digital, mas com a fotografia analógica é como se trocássemos de sensor sempre que instalamos um rolo novo. Podemos usar sensores a cores ou ter uma câmara exclusivamente dedicada ao preto-e-branco sem pagar o dinheiro que custa uma Leica M Monochrom.

Mas também há factores racionais. A qualidade, desde logo. Por mais que tentasse, usando os melhores programas de edição de imagem e respectivos plug-ins, nunca consegui dar às fotografias digitais a preto-e-branco o aspecto que obtenho, sem usar a edição de imagem, quando uso rolos como os Ilford. Para obter um resultado minimamente semelhante tenho de gastar eternidades no computador com cada fotografia – e o que tenho, no fim, é uma triste imitação. Quando se fotografa a cores, não há nada que se assemelhe a um rolo de slides. É necessário gastar muito dinheiro em equipamento para conseguir estes níveis de qualidade com o digital. Já que refiro o preço, é possível adquirir uma máquina fotográfica analógica e boas lentes por cerca de €500; quanto é que se gasta comprando uma câmara digital full frame e lentes das mesmas especificações? A diferença de preço dá para comprar, revelar e digitalizar rolos até ser-se velhinho (*).

Há, nas boas fotografias analógicas, uma veracidade e autenticidade que o digital não consegue imitar. Olho para fotografias feitas nos anos 50 com câmaras como as Rolleiflex e comparo-as com fotografias feitas hoje com câmaras digitais; estas últimas parecem irremediavelmente inautênticas e inverosímeis. Há demasiado de tudo: demasiado contraste, demasiada resolução, cores demasiado vívidas. As fotografias digitais nunca conseguem ilidir a percepção de terem sido feitas com computadores; a fotografia analógica, essa, é humana.

O principal argumento a favor da fotografia analógica é, contudo, o prazer que se retira dela (e que é ainda maior, presumo, quando é o próprio fotógrafo quem revela os negativos). Concedo que muita gente pense de maneira diferente e entenda que as vantagens de fotografar digital sobrelevam ao prazer (que até podem não sentir) de expor películas. Os fotojornalistas e outros profissionais abandonaram há muito a fotografia analógica, mas fizeram-no por ser mais prático fotografar digital, não necessariamente pela qualidade acrescida. Tudo depende, em última medida, de factores subjectivos e emocionais que não podem ser medidos ou quantificados. Estes factores podem levar muitos – e certamente fazem-no – a manterem-se fiéis às películas. Fotografar digital ou analógico são experiências muito diferentes, mas o primeiro daqueles domínios não cria emoções: é tudo demasiado frio, demasiado cibernético e demasiado simples, sem que haja um envolvimento físico. Lembra-nos que estamos a resvalar para uma imaterialidade electrónica. Alguns procuram impedir que esta tendência interfira com os seus prazeres. Daí que prefiram comprar LPs, conduzir automóveis com caixa de velocidades manual e expor película. É a forma que encontram de dar expressão material aos seus pequenos prazeres.

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(*) Claro que só me permito dizer estas coisas porque entrego os meus rolos em muito boas mãos: uma película mal revelada pode ser frustrante e desmentir tudo o que referi sobre a qualidade da imagem da fotografia analógica.

M. V. M.

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1 thought on “Uma questão pertinente”

  1. Pegando no que refere ” Não se pode mudar o sensor de uma câmara digital” e no seguimento da imagem da Nikon DF, por experiência própria e de colegas, vejo queixas generalizadas relativamente ao aspeto “empastelado”, com que ficam as imagens em especial os tons de pele.

    Cenário comum, aos restantes modelos de câmeras nikon com sensor sony, que vejo serem trocadas por modelos mais antigos, sempre por essa razão…!

    É esta na minha opinião, a questão mais critica, a “personalidade” e características únicas que cada modelo de câmera/sensor têm, tal como o que se verifica com as películas…!

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