Em busca da excelência, parte 6

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Fotografia de Artur Pastor/Arquivo Municipal de Lisboa

Antes do mais, um pouco de política a servir de prólogo e explicação. Apesar de eu ser um homem de convicções, que acredita na justiça social – na justa distribuição da riqueza e na igualdade de acesso aos bens essenciais, como a saúde, a educação ou a justiça – e condena aquilo em que a sociedade se tornou (ou sempre foi, pelo menos aqui no Ocidente), não posso, em consciência, identificar-me com uma certa esquerda que tomou conta daquilo a que, por preguiça, chamamos «cultura». Esta esquerda, que é estúpida, cega, dogmática e arreigadamente fundamentalista, tomou conta do pensamento artístico como se fosse a sua dona; promoveu sistematicamente os seus e condenou ao esquecimento quem nela não militava.

Isto teve como resultado que muita arte tivesse permanecido desconhecida até o preconceito ideológico ter começado a tornar-se insustentável e a muralha ter começado a abrir fendas. No caso da fotografia, em Portugal só eram (e devidamente, deve dizer-se) reconhecidos os «fotógrafos de Abril»: Eduardo Gageiro e Alfredo Cunha. Presuntivamente, Gérard Castello Lopes era, aos olhos da pseudo-intelectualidade que dominou as artes, um fascista. Porque ilustrou o Portugal pobre, rural e atrasado que Salazar nos deixou de legado. Ora, se Castello Lopes era um proscrito, torna-se fácil perceber por que motivo só agora começamos a conhecer a obra daquele que, quase por acidente, quase por mero acaso, se tornou – ou pelo menos deve ser reconhecido como tal – num dos fotógrafos mais importantes de Portugal. O nome deste fotógrafo ilustríssimo e prodigiosamente talentoso é Artur Pastor (1922-1999).

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Fotografia de Artur Pastor/Arquivo Municipal de Lisboa

Não quero fazer aqui uma biografia de Artur Pastor. Alguém teve o bom gosto de criar uma página completíssima na Wikipedia com todos os elementos relevantes sobre a sua vida e obra. Contudo, não deixa de ser interessante que Artur Pastor tenha descoberto o gosto pela fotografia acidentalmente, depois de ter feito fotografias para ilustrar uma tese sobre botânica. É que o restante das suas fotografias, que corresponde ao grosso da sua obra, não deixa de ter um carácter eminentemente documental, como se Artur Pastor quisesse ilustrar e catalogar por imagens o Portugal do seu tempo. Isto poderia tornar as suas fotografias imensamente desinteressantes, se não fosse o facto de ser extremamente dotado do ponto de vista artístico: as suas fotografias são documentais – no sentido em que documentam algo –, mas não tanto que o seu lugar seja na arquivística; são fotografias às quais preside um sentido impecável de composição e de grandeza, integrando assim o género artístico – mas não tanto que se tornem abstractas e se perca a informação que o autor quis transmitir com elas.

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Fotografia de Artur Pastor/Arquivo Municipal de Lisboa

É esta capacidade de ilustrar sem prescindir dos princípios artísticos que torna a fotografia de Artur Pastor única. A vontade de mostrar os motivos não deu lugar à necessidade de tornar as fotografias inteligíveis a todos, como se fossem destinadas a figurar em postais. É uma opção radical – com ela, Artur Pastor renunciou ao comercialismo fácil – que resulta extraordinariamente bem: fotografias que dão a conhecer Portugal e os portugueses, com os seus hábitos e labor de gente pobre, mas com um lado sofisticadíssimo em linha com a melhor fotografia de reportagem que se fazia à época (pense-se em Koudelka ou Cartier-Bresson, ou mesmo no nosso já referido Castello Lopes). Com efeito, as fotografias de Artur Pastor (cujo espólio foi, felizmente, salvo do esquecimento pelo Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa em 2001) estão entre as melhores do seu género: são fotografias com um conteúdo estético incrível que contam histórias sobre como se vivia naquele tempo sem necessidade de palavras.

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Fotografia de Artur Pastor/Arquivo Municipal de Lisboa

Os mais aficionados, como eu, poderão notar que as fotografias de Artur Pastor têm, além da qualidade estética e do poder narrativo, uma resolução e nitidez fora do comum. Pois é – Artur Pastor não o fazia por menos: usou uma Rolleiflex, uma Mamiya C33 e, mais tarde, uma Nikon F90X. Não resta, perante esta informação, nenhuma surpresa por as fotografias de Artur Pastor terem tanta qualidade. É evidente que isto se torna trivial perante uma obra que, a despeito da singeleza das suas intenções, adquiriu grandeza graças ao seu conteúdo eminentemente artístico – mas o certo é que duas daquelas câmaras eram TLR de médio formato e a outra era daquela que é, sem dúvida, a melhor das marcas japonesas. Pode não ser importante, mas duvido que as fotografias de Artur Pastor fossem tão respeitadas se tivesse usado material inferior. Os melhores trabalhos carecem das melhores ferramentas.

M. V. M.

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