Por que o 4/3 não é, afinal, tão mau como dizem

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Hoje proponho-vos desenjoar um pouco de tantas películas. Ao contrário do que poderá parecer a um leitor mais desavisado, eu tenho a perfeita consciência de que o digital é o formato dominante e não existe a menor possibilidade de a película voltar a ser o meio mais popular de fotografar. Não vai acontecer. É apenas um nicho, algo que apenas uns poucos adoptam pelo prazer que lhes dá. Dizer exactamente quantos são esses poucos é difícil e, embora me pareça incontestado que o seu número está a crescer, tal não muda a realidade que é a prevalência esmagadora do digital.

Fotografar digital tem inúmeras vantagens. É possível fazer centenas de fotografias por sessão, é fácil editar e enviar as imagens e a fotografia torna-se acessível a muitos que não têm os conhecimentos necessários para fotografar com boas máquinas de película. Embora esta última seja mencionada como uma vantagem, pode ser facilmente incluída entre as desvantagens, porque à democratização da fotografia que o digital trouxe logo se sucedeu uma banalização, mas não há nada de mau em que um chefe de família possa hoje fotografar os momentos passados com a sua mais-que-tudo e os filhos sem precisar de enviar rolos para o laboratório e sem ter de se preocupar com as minudências da exposição que a película implica.

Muitos optam por apontar as Sony Mavica ou as Kodak DCS como as primeiras câmaras digitais capazes, mas a verdade é que a primeira câmara DSLR concebida para funcionar integrada num sistema completa e exclusivamente digital foi a Olympus E-1. Esta câmara foi lançada em 2003, meio ano depois de ter sido anunciado o sensor 4/3 que a equipava e dois anos após o anúncio da parceria entre a Kodak e a Olympus para desenvolver um sensor de área consideravelmente menor que o 135 que se tornou referência na era da película. Embora o sensor 4/3 não se tenha estabelecido como padrão, já que a indústria rapidamente se voltou para os formatos APS-C e full frame, e só tenha sido verdadeiramente reconhecido quando foi montado nas mirrorless da Olympus e Panasonic, este sensor não deixa de ter os seus méritos.

A principal vantagem de um sensor de área reduzida é permitir a construção de corpos e lentes muito mais compactos do que os usados nos formatos 36×24 e APS-C. Apesar de, no que diz respeito aos corpos, essa vantagem não se ter tornado muito evidente com as DSLR – a despeito de a Olympus ter construído aquela que era a câmara reflex mais compacta do mundo, a E-400, a topo-de-gama E-5 era uma câmara substancial –, os benefícios de um sensor de área reduzida tornaram-se evidentes a partir da introdução no mercado da Olympus E-P1; mas é quanto às lentes que a vantagem do 4/3 se torna óbvia: basta comparar o zoom 35-100 da Panasonic com os 70-200 da Canon e da Nikon. Este formato de sensor permite a construção de lentes muito mais leves, estreitas e curtas, com uma qualidade idêntica e propriedades ópticas semelhantes às concebidas para formatos maiores. Note-se, porém, que este benefício só se tornou possível com o advento das mirrorless, uma vez que a a distância entre o elemento posterior da lente e o sensor que era imposta pela existência do espelho obrigava a que a dimensão das lentes para 4/3 fosse praticamente idêntica à das lentes usadas nos formatos maiores.

Mesmo as desvantagens que geralmente são conhecidas são de relativamente pouca monta. Apesar de a superioridade dos sensores 36×24 ser evidente, os 4/3 conseguiram superar as suas vicissitudes e, em alguns casos, revertê-las a seu favor. A profundidade de campo, que é a principal fonte de críticas a este sensor, rapidamente se mostra numa vantagem por permitir uma focagem melhor. Quando se usam sensores de maior área torna-se extremamente difícil manter todos os planos em foco; com sensores 4/3 essa tarefa surge bastante facilitada – e, desde que se usem lentes com uma distância focal longa e se fotografe perto do motivo, não se perde muito do afamado bokeh que todos parecem desejar. Quanto ao ruído, a evolução verificada nas últimas gerações de sensores 4/3 atenuou substancialmente um problema que parecia insolúvel; o mesmo pode ser dito quanto à gama dinâmica, mas este é um problema complexo que carece de mais desenvolvimento:

É sabido que os sensores pequenos, devido ao tamanho das células sensíveis à luz (que saturam muito facilmente), têm uma gama dinâmica muito limitada – sobretudo do lado direito do histograma. Quanto menor a área do sensor, maior a propensão para estourar as altas luzes. Até os sensores maiores têm limitações quando comparados com a película (especialmente com os rolos de diapositivos coloridos). Contudo, este problema contorna-se facilmente se atendermos a que o digital implica uma forma diferente de expor: com película, a regra é a de expor para as sombras; no digital expõe-se para as altas luzes. Com isto perde-se pormenor nas sombras, mas as altas luzes são preservadas. O pormenor perdido nas sombras é, porém, fácil de recuperar; as câmaras da Olympus apresentam um algoritmo de processamento denominado SAT (Shadow Adjustment Technology) para recuperar o pormenor escondido nas sombras, embora só funcione com JPEGs. É bastante fácil levantar as sombras na edição da imagem sem grande detrimento da qualidade: o ruído que se torna aparente pode ser satisfatoriamente reduzido com as ferramentas dos melhores programas de edição.

O que é certo é que câmaras como a Panasonic GH4 e a Olympus E-M1 são louvadas pela sua qualidade. Ao analisar imagens produzidas com estas câmaras, as diferenças em relação aos sensores APS-C são difíceis de detectar e a qualidade está muito mais próxima da dos sensores full frame do que há seis anos, quando foram lançadas as primeiras mirrorless com sensores (Micro) 4/3. Esta evolução leva a poder questionar-se a necessidade de adquirir uma DSLR com sensor APS-C. Os únicos problemas são a focagem automática por detecção de contraste – que, não obstante, tem evoluído significativamente – e não ser possível ter um visor óptico, agora que a Olympus matou a sua linha de DSLRs. Os visores electrónicos estão a evoluir, mas não é bem a mesma coisa. Em todo o caso, um visor electrónico é mil vezes preferível a usar o ecrã.

Diria, por tudo isto, que hoje em dia há poucas razões para criticar um sistema que é olhado do alto pelos utilizadores de câmaras full frame (os quais, por sua vez, são olhados de cima para baixo por quem tem câmaras de médio formato…). Claro que um sistema full frame garante melhores resultados – mas, atendendo ao preço, volume e peso deste último, o 4/3 parece-me uma alternativa sensata.

M. V. M.

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2 thoughts on “Por que o 4/3 não é, afinal, tão mau como dizem”

  1. Muito bem dito! O problema está na gama dinâmica, que em algumas imagens fica muito evidente. Creio que podemos contornar um pouco usando alguns filtros. Por enquanto, só usei um polarizado para as lentes Pana 25mm e Oly 12mm.
    Abraços!

    1. Não sei q reflexão adicional, possa fazer ao q foi escrito!
      Sou do tempo das Sony Mavica e por trabalhar em “informática”, no apoio aos clientes, acompanhei de próximo toda essa evolução… São tantos os equipamentos e a opiniões q tenho, q me vejo a levar a questão para outro patamar. A do serviço pós venda!

      Já tive um pesadelo, com o serviço de assistência técnica da Nikon em Lisboa e recentemente com o da Canon (Portugal), que me deixou perplexo de tão “obtusos” que são, no tratamento com os clientes, mesmo que do segmento profissional!

      Dos anos em que trabalhei em engenharia de sistemas informáticos, não tenho memoria de tão má experiência do contacto com uma empresa/marca, desde a cisco, dell, hp, symantec, nunca notei uma postura, q pela negativa se aproxima-se, da que vi por parte da Canon perante os seus clientes…!

      Em jeito de desabafo, alerto apenas para um aspeto “invisível”, a ter na escolha de equipamento!

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