O inquérito

Img - 034No final de 2014, a Ilford – que é, como sabem, o fabricante da melhor película existente à superfície da terra, a Ilford FP4 Plus 125 –, lançou uma pesquisa no seu website. Não posso dizer que os resultados me tenham surpreendido, porque coincidem em grande parte com o que tenho observado, mas talvez surpreendam alguns leitores – especialmente os que ainda teimam nesse anacronismo que é usar equipamento digital. Convém, porém, fazer uma ressalva: este questionário foi decerto respondido maioritariamente por utilizadores de película Ilford, o que pode retirar-lhe uma interpretação abrangente. Simplesmente, como, de entre as pessoas que usam filme, as que optam pelos Ilford são as mais inteligentes e conhecedoras do statu quo da indústria da película, os resultados são especialmente credíveis. (Estou a brincar!)

O amor pela fotografia analógica cresce a cada dia que passa. A prova é que, entre os ilfordianos que responderam ao inquérito, 30% tinha uma idade inferior a trinta e cinco anos, sendo que 60% destes usam película há menos de cinco anos. Para muitos, o interesse pela fotografia analógica começou depois de terem recebido uma máquina fotográfica de presente. Enquanto a primeira conclusão não me surpreende, o nascimento do gosto pela película através da doação de uma câmara é inesperado – a meu ver, pelo menos – e torna este fenómeno perturbadoramente semelhante ao do entusiasmo pelo vinil. (Referi-me a isto aqui e aqui.)

Dentre os que responderam ao inquérito, 98% usam película a preto-e-branco; deste número, 31% usa exclusivamente filme monocromático. Apenas 2% dos inquiridos usa película a cores. Este dado seria relevante se o inquérito não fosse da iniciativa da Ilford Photo, que, como é sabido, apenas fabrica película monocromática. O que, apesar de essa película ser a melhor do mundo, retira um pouco de universalidade aos resultado da pesquisa. Há decerto muito mais que 2% dos amantes da fotografia analógica a fotografar a cores.

Quanto às motivações que levam as pessoas a aderir à fotografia com película, o website da Ilford não as enumera de forma exaustiva nem providencia resultados que permitam formular conclusões, mas provê alguns exemplos de respostas, como «é divertido» (já sabia), «é retro» (também não há aqui nenhuma novidade), ou estas: «eu queria abrandar e pensar no que estava a fazer, em lugar de simplesmente fazer quinze versões da mesma fotografia até acertar», ou: «Devido à limitação de doze ou trinta e seis fotogramas pensa-se mais sobre a fotografia que se vai fazer, enquanto no digital só se dispara». Estas duas últimas respostas também não são novidade, mas mostram que há gente a pensar como eu. (N. b. eu não respondi ao inquérito.)

Conclui a Ilford Photo que o recente crescimento nas vendas de película pode ser atribuído aos novos utilizadores que chegam ao mercado. Este fenómeno é suficientemente importante para servir de pretexto à criação de um website destinado a prover aos seus visitantes um meio de encontrar um laboratório em qualquer parte do mundo, o www.localdarkroom.com.

Devo repetir que este inquérito não me traz novidade nenhuma: quando ando por lugares públicos vejo muitos jovens com máquinas de película e vejo-os também a ir a lojas como a Câmaras & Companhia comprar rolos Fomapan. Mesmo no infame facebook é fácil perceber este fenómeno. O que este inquérito fez, no meu caso, foi confirmar através de uma metodologia mais ou menos científica aquilo que eu já há bastante tempo concluíra de forma empírica. Mesmo que os resultados da pesquisa não sejam rigorosamente demonstrativos – é muito provável que apenas as pessoas que visitam o website da Ilford tenham respondido – fica confirmado o interesse crescente das gerações mais novas pela fotografia analógica. Especialmente entre os que gostam de expor película da Ilford, o que é uma conduta demonstrativa de extrema inteligência e bom gosto.

Penso que é possível concluir, mesmo correndo o risco de utilizar premissas a que falta um carácter verdadeiramente consistente, que há cada vez mais gente a usar película. As razões são específicas de cada um, seja pelo apelo retro ou pela necessidade de pensar melhor as fotografias, mas isto traz-me o conforto de saber que este é um fenómeno que perdurará durante muitos anos. O que é bom.

M. V. M.

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