O medo da publicidade

7fed7814555b11c6414dfb1577de687aUma noção que, infelizmente, ficou inculcada em mim desde a adolescência, é a de que não se deve fazer alusão a marcas comerciais quando se comunica publicamente. Esta noção, que hoje está completamente ultrapassada, vem de tempos em que qualquer menção a produtos e marcas na televisão tinha de ser acompanhada pela inclusão da legenda «PUBLICIDADE». Ou seja: prevalecia o entendimento segundo o qual aquelas alusões eram – ou, pelo menos, podiam como tal ser entendidas – uma forma de publicidade. Era manifesto, nos telejornais, o pudor dos pivots (que então não se chamavam assim) em referir marcas durante as notícias. Quando o faziam, quase pediam desculpa aos telespectadores. Por vezes viam-se obrigados a uma ginástica retórica inconcebível para não mencionar uma marca – mesmo que os espectadores ficassem mal informados por causa da omissão. Mesmo os concursos televisivos eram precedidos da menção «Este programa contém referências a marcas e produtos comerciais» (ou qualquer coisa parecida: já foi há tanto tempo…). Era anátema referir as denominações pelas quais os produtos e serviços eram publicamente reputados.

Eu não sei muito bem de onde vinha este pudor: talvez fosse uma reminiscência ideológica dos tempos do PREC, com o seu ódio fervoroso ao capitalismo, ou se calhar fundava-se em noções de concorrência completamente erróneas e hoje obsoletas. O que sei é que hoje, nos tempos da comunicação instantânea que a internet possibilita, este medo está a regressar – pelo menos aqui no Número f/. É verdade: eu tenho medo que a minha insistência em certas marcas de produtos possa ser interpretada como publicidade.

Há razões para isto. Existe gente estúpida e mal intencionada na internet e essas criaturas estão sempre à espreita. Esperam pacientemente pela sua oportunidade para caluniar bloggers e autores de websites apontando-lhes o sacrilégio e a infâmia venal e corrupta de estarem a ser pagos por uma determinada marca para escrever o que escreveram. Já me aconteceu: um sujeito de apelido Sarmento, que curiosamente faz publicidade a perfumes no seu Facebook, houve por bem comentar um dos meus textos insinuando que eu era pago para fazer publicidade. Rezava assim o seu comentário: «Não sei se o senhor é mais uns dos iluminados que andam por aí que de alguma forma determinada marca os acha grandes fotógrafos e lhes paga para mostrar que tem determinada marca e então até dizem mal da concorrência». (Chega. É quase escatológico remexer nisto. Apenas quis ilustrar que o furor anti-publicitário ainda está bem vivo e que uma pessoa que faça menção a uma marca será sempre suspeita de ser paga para fazê-lo e para dizer mal da concorrência.)

Por tudo isto, é sempre com algum receio de ser mal interpretado que menciono marcas: se digo bem dos seus produtos, tal pode ser lido como publicidade; se digo mal é porque sou pago por outra marca para dizer mal da concorrência. Além disto há que contar com os fanboys, que estão sempre prontos a interpretar qualquer menção que seja menos que positiva à sua marca de eleição como um ataque pessoal ao qual reagem da maneira mais marialva e agressiva que puderem.

Contudo, as razões para que eu continue a fazer alusão a marcas são melhores do que as que me poderiam levar a não fazê-lo. Em primeiro lugar, tenho a consciência perfeitamente tranquila: a minha conta bancária não regista quaisquer transferências monetárias provenientes das marcas que merecem a minha preferência (e também não me entregam malas com dinheiro, honi soit qui mal y pense); depois, é minha convicção que se um produto é bom é merecedor de elogios – e, inversamente, merece invectivas se é falho de qualidade; além disto, eu não sou mentor de ninguém nem me proponho influenciar seja quem for: as apreciações que faço são as minhas opiniões: estas são, tanto quanto possível, fundadas na minha experiência, mas não devem ser interpretadas como tentativas de exercer influência sobre o leitor; por fim, seria extremamente difícil escrever sobre material fotográfico sem fazer alusão a marcas e produtos: imaginem a confusão que os meus textos induziriam se, em lugar de me referir directamente às marcas, empregasse frases como «o famoso fabricante britânico de película a preto-e-branco», ou «a conhecida empresa de material óptico e fotográfico sediada em Tóquio». Digamos que, além de ridículo, seria limitativo. E faria a cabeça do leitor em água.

No Número f/ haverá sempre menção a marcas comerciais. Não o faço por publicidade, seja esta positiva ou negativa, mas por ser impossível escrever de outra maneira. O «famoso fabricante britânico de película a preto-e-branco» tem um nome, aliás ilustre, pelo qual é conhecido no mercado: Ilford. Eu sou um incondicional dos seus rolos Pan F, FP4 e Delta 100. Não posso fazer nada quanto a isto: as películas desta marca – em particular a FP4 – servem a minha linguagem estética como uma luva. A «conhecida empresa de material óptico e fotográfico sediada em Tóquio» é a Olympus. Como uso o seu material – embora lhe reconheça defeitos –, não tenho outra possibilidade que não seja a de escrever, escandalosa e rotundamente, a palavra «Olympus».

Inversamente, não é pelo facto de haver fanboys enraivecidos que vou deixar de criticar seja que marca for – mesmo as que uso. Há uma grande diferença entre as apreciações que formulo, conforme sejam positivas ou negativas: se, em relação a estas últimas, me sinto à vontade para dizer que evitem um produto que reputo de baixíssima qualidade – há o caso do Lomography Earl Grey para o atestar –, já quanto a um dos que aprecio, sou incapaz de dizer comprem-no. Isto é que seria publicidade. Ora, eu não sou pago para dizer aos leitores que comprem um determinado produto. Eu tenho consciência de que aquilo que é perfeito para as minhas fotografias pode não o ser para outras pessoas. Há quem não goste da nitidez quase clínica dos Ilford e prefira as texturas mais suaves – e realistas, diga-se – do Kodak Tri-X. Não vejo por que havia de opor fosse o que fosse a esta preferência. Quanto aos produtos de má qualidade, o meu gosto pelas questões da defesa do consumidor impele-me a recomendar aos leitores que os evitem.

M. V. M.

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1 thought on “O medo da publicidade”

  1. Caro MVM:

    Continue o seu caminho e não se desvie dele um milímetro que seja porque os cães lhe ladram ás pernas. Diz o povo (que tem sempre razão) que; Os cães ladram, mas a caravana passa, e certamente sabe também, que vozes de burros não chegam ao céu. Os seus comentários, reflexões e alusões a marcas, ajudam muito boa gente e não vejo neles qualquer tendência publicitária.

    Um abraço.

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