Uma moda estúpida

É isto que acontece quando se usam rolos expirados: se ampliarem a imagem, repararão numas bolinhas subtis que surgem no plano de fundo. Há quem goste...
É isto que acontece quando se usam rolos expirados: se ampliarem a imagem, repararão numas bolinhas subtis que surgem no plano de fundo, no céu. Há quem goste…

Eu não gosto de patetices em fotografia. Detesto ver gente a entregar-se a coisas completamente estúpidas como desafios de fotografias, fotografar com phablets, fazer selfies, abusar do HDR e outros disparates. Talvez esta minha aversão se deva ao respeito que sinto dever conservar pela fotografia – ou se calhar talvez seja por levá-la demasiado a sério (e possivelmente a levar-me a mim mesmo demasiado a sério). Seja como for, sou avesso a brincadeiras com fotografias.

Estes disparates não afectam apenas os utilizadores de equipamento digital. Tenho acompanhado, na medida do possível, as tendências de quem usa película e apercebo-me de uma que reputo de completamente estúpida: o uso de filmes expirados.

Como a película é feita com matéria orgânica – o acetato que serve de base é obtido a partir de algodão –, ela deteriora-se com a passagem do tempo. Os elementos químicos tornam-se instáveis e isto tem por efeito que os resultados da revelação sejam imprevisíveis e incontroláveis. O grão acentua-se drasticamente, perde-se nitidez e as cores tornam-se imprecisas. Em alguns rolos, em particular nos de cor, podem surgir artefactos absolutamente indesejáveis. Por este motivo, os fabricantes estabelecem datas de validade a partir das quais não podem assegurar a sua qualidade. Quem usa películas expiradas fá-lo por sua conta e risco. De resto, é bem possível que a película perca as suas propriedades mesmo antes de expirado o prazo de validade: para que os elementos químicos que a compõem se mantenham estáveis, são necessários alguns cuidados na utilização e armazenamento. Por exemplo, os rolos não devem ser sujeitos a temperaturas superiores a cerca de 21º C. É por este motivo que muitas pessoas conservam os seus rolos no frigorífico – o que, atenta a natureza perecível dos componentes da película, é uma boa prática.

A decomposição dos elementos químicos da película repercute-se na diminuição da velocidade (sensibilidade), de modo que um rolo ISO 400 vai comportar-se, na prática, como se a sua sensibilidade fosse ISO 200 ou mesmo 100, no caso de ter decorrido um lapso de tempo muito longo entre a data de validade e a sua utilização. Isto produz, como é previsível, fotografias sobreexpostas e uma acentuação do contraste, mas também, uma vez que o rolo vai normalmente ser revelado de acordo com a sua velocidade nominal, uma exacerbação do grão.

Diria, deste modo, que o uso de rolos expirados é um perfeito disparate, mas existe uma tendência quase patológica para que o número de pessoas que os usa seja, aparentemente, cada vez mais extenso. Isto é perfeito para os lojistas que querem à força toda escoar o stock de filme velho, mas muita gente gosta dos efeitos da película expirada. As imagens a preto-e-branco são falhas de nitidez, têm em regra um contraste excessivo, são demasiado granulosas e, por vezes, surgem aberrações tão desconcertantes como o aparecimento de algarismos (no caso dos rolos 120) e de círculos em tons contrastantes, como resultado da decomposição das gelatinas. As fotografias a cores, por seu turno, têm, além dos problemas referidos para o preto-e-branco, uma descrição das cores irreal – por regra estas surgem demasiado saturadas – e desvios muito sérios nas matizes.

Todavia, há quem pense que isto tudo é imensamente divertido e se entretenha a comprar e expor películas expiradas. Esta é uma tendência que parece não parar de se disseminar, como uma verdadeira coqueluche. Eu não acho piada nenhuma a esta moda: é como se, de repente, toda a gente desatasse a vestir roupas encontradas nos caixotes do lixo e a consumir alimentos fora do prazo. Ainda por cima, as pessoas que usam películas expiradas gabam-se de que as suas fotografias são imensamente expressivas e têm muito carácter! Não é nada disso: aquelas fotografias são simplesmente fotografias defeituosas. Não fazem nada de edificante pela arte fotográfica. Podem agradar a lomógrafos e outras criaturas esgrouviadas, mas são simplesmente desagradáveis.

É possível que muita gente use rolos expirados por serem mais baratos e se enganem a si mesmos quando clamam essas tretas da expressividade e do carácter. A esses posso deixar um conselho: fariam bem melhor em adquirir rolos novos mais baratos – o Fomapan e o Agfa APX 100 são excelentes e não custam os olhos da cara – e fotografar menos, o que lhes traria a vantagem adicional de se tornarem mais selectivos e, por essa via, fotografarem melhor. Se o problema não é o custo, não existe desculpa para usar rolos expirados. Há certamente rolos novos que, pelas suas características, ajudam o fotógrafo a encontrar a sua forma de expressão: o Ilford HP5 e o Delta 400 têm um grão cheio de carácter e um contraste de chorar por mais, enquanto o Ferrania Solaris dá as cores saturadas que muitos procuram nos rolos expirados. Há sempre um rolo feito à medida dos gostos de cada um; é tudo uma questão de procurar e experimentar. Isto é mil vezes preferível a apresentar fotografias de m**** só porque é moda expor rolos expirados.

M. V. M.

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