Limões secos, agitação marítima e inspiração

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Foi penoso encontrar um tópico para escrever no Número f/. Hoje o meu cérebro assemelha-se a um limão seco: espremo e não sai nada. Ontem foi igual e nada me garante que amanhã não o será. Não sei por que isto acontece; ou até sei, mas não quero compartilhar as razões. Não cabem num blogue de fotografia.

Esta falta de inspiração pode vir de razões da minha psyche ou do facto de não haver nada de novo a dizer sobre fotografia (pensei escrever um texto sobre as razões por que o formato de sensor digital 4/3 não é assim tão mau, mas desisti por que não me lembrei de nenhuma). O que é estranho, e novo para mim, é que a desinspiração também afecte as minhas fotografias: este fim-de-semana fiz o número astronómico e incalculável de uma fotografia! Sim, leram bem: uma (1) fotografia. Uma fotografia em dois dias dá a média abissal de meia fotografia por dia. (Alguém consegue tirar meia fotografia?)

Neste caso, porém, há outras explicações para além da falta de inspiração. Os leitores sabem que me tenho dedicado, desde o penúltimo fim-de-semana de Dezembro, a fotografar comunidades piscatórias. Ou melhor: a fotografar em comunidades piscatórias (não é bem o mesmo). Pois bem: embora não o tenha sentido de maneira especial durante os dias em que fui a Vila Chã, Angeiras e Aguda, estas fotografias tornaram-se uma verdadeira obsessão para mim. Foi como se, de repente, não fizesse sentido fotografar outras coisas, ou noutros lugares. Gostei tanto de o fazer que quis ir mais longe e engendrei a ideia de fazer fotografias em que conseguisse captar momentos essenciais da actividade dos pescadores. Hélas, algo correu mal: quando me propus fazê-lo, o mar tornou-se bravo. Esta circunstância não afecta a pesca industrial que se pratica em Leixões, na Póvoa de Varzim ou mesmo na Afurada, portos que servem embarcações de grande porte, mas em Vila Chã e Angeiras torna-se absolutamente impeditiva. É muito simples: naquelas comunidades não se vai ao mar em dias de grande agitação marítima. As embarcações são demasiado pequenas e frágeis. Quando o mar está assim, até sair para o mar com traineiras é perigoso, como foi tragicamente comprovado pelo naufrágio da Santa Maria dos Anjos no dia 14.

Este fim-de-semana o mar esteve calmo, mas não tive qualquer possibilidade de ir fotografar numa comunidade piscatória. Também não é ao fim-de-semana que se podem fazer fotografias como as que tenho em mente, mas seja como for fui obrigado a ficar pelo Porto; tentei fotografar outros temas, mas de cada vez que vi algo que me pareceu remotamente interessante, desisti sempre. Levava o olho ao visor, expunha, focava e… voltava a arrumar a máquina no saco. Na minha mente, não há nada que se compare às fotografias que fiz naquelas praias e às que quero fazer nos mesmos locais (ou noutros semelhantes: trago na mente a ideia de ir à Apúlia um destes dias).

Não estranhem, porque eu fui sempre assim: quando me proponho alguma coisa, faço-a. Concentro-me nela até a terminar. É como se fazer outra coisa qualquer de permeio fosse uma impossibilidade. Com um pouco de sorte hei-de fazer as fotografias que quero e a inspiração para outros temas voltará – se o estado do mar ajudar, claro. Nunca fui muito dado a projectos de fotografia – mas nunca me interessei tanto por um tema como por este das vilas piscatórias. Olho as fotografias que já fiz com orgulho e quero fazer mais e melhor. Sinto que, enquanto não o conseguir, não vou querer fotografar mais nada.

M. V. M.

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