Flickerices

Alguém me explica o que tem isto de especial?
Alguém me explica o que tem isto de especial?

O fenómeno voltou a acontecer, desta vez com a fotografia que ilustra o texto de hoje: tal como no mês passado, uma das fotografias que publiquei no Flickr foi parar ao Explore e adicionada ao grupo In Explore. Neste caso o número de visitas foi menos impressionante, o que é compreensível: esta fotografia não é tão interessante como a de Dezembro. Aliás, nem vejo o que tem de especial, a não ser o facto de o motivo ser um automóvel simpático. Tal como no mês passado, isto não me impressiona muito: apenas prova que esta fotografia foi vista por muita gente. Não há nada de especial nisto.

O Flickr é, de resto, apenas uma forma de mostrar fotografias. E nem sequer é a melhor para o fazer: o ideal, para quem quer fazer carreira na fotografia, é ter um website apresentável. Ver o que é seleccionado no Explore não me entusiasma sobremaneira. A maior parte das fotografias seleccionadas é-o com base no elemento meramente visual, não na impressão duradoura que uma fotografia possa causar no espectador.

Isto não significa que não haja excepções. Embora as pessoas que escolhem as fotografias que figuram no Explore não sejam exactamente curadores de arte, há algumas imagens que se impõem pela sua enorme qualidade (não, não estou a apontar para mim mesmo com o polegar). Uma delas é esta Five Mile Drive, que descobri hoje nas minhas explorações do Flickr, da autoria de Zachary Snellenberger, um jovem de Seattle. Uma visita à sua página (ou, na linguagem do Flickr, ao seu photostream) mostrou-me que a fotografia para a qual liguei não é, nem de perto nem de longe, a sua melhor. As fotografias de Z. Snellenberger causam impressões no espectador, quer pela escolha dos temas, quer pela linguagem visual, com uma opção por cores subtis que transmitem estados de espírito de um modo extremamente expressivo.

Embora não tenha muito tempo para vasculhar o Flickr à procura de novos talentos, tenho procurado seguir as fotografias de vários jovens em função do interesse que aquelas me despertam – ou, no caso de Ellar Coltrane, por causa da sua participação no fantástico Boyhood. Na maioria das suas fotografias há um elemento de narcisismo, manifestado pela presença insistente do próprio fotógrafo nos enquadramentos, que me deixa sem saber muito bem o que pensar: será uma maneira requintada de fazer selfies, ou não tinham modelos à mão? Contudo, não é por isto que deixam de ser válidas – tal como não o deixam de ser por causa de algumas manipulações da imagem que são facilmente perceptíveis.

Seja como for, há nas fotografias destes jovens fotógrafos um elemento muito importante de experimentalismo que me agrada por diversas razões: são fotografias que me deixam perplexo e pregam partidas à minha mente. Snellenberger e um outro jovem que entretanto deixei de acompanhar, um belga de nome Ian Komac, fizeram fotografias surrealistas que lembram René Magritte e Yves Klein. Isto é fantástico! O facto de haver jovens fotógrafos a fazer experiências – mesmo que estas possam parecer absurdas de vez em quando – significa que estão a empurrar os limites formais da fotografia, o que é bom e é garante que a fotografia pode evoluir enquanto forma de expressão artística. Muitas das fotografias que vejo são extremamente intimistas, relatando o mundo interior dos seus autores. Isto é muito melhor do que tentar impressionar as multidões com fotografias que gritam «vejam-me!» Isto é o que eu, que recebi uma influência extremamente profunda de Daniel Blaufuks na apreciação que faço da fotografia, pretendo ver nas fotografias que se fazem hoje: quero que elas me deixem a pensar nelas e no que os seus autores pretenderam exprimir. Quero, por outras palavras, ver fotografias que sejam desafios ao intelecto.

Ainda bem que há jovens a fotografar assim, porque isto significa que há esperança no futuro da arte fotográfica e que as gerações futuras não podem ser por inteiro subsumidas ao lugar-comum dos catraios para quem fotografar significa tirar selfies e publicá-las no facebook. Isto, num tempo em que vivemos soterrados por avalanches de fotografias menos que medíocres que nos são atiradas aos olhos todos os dias via internet, é para mim motivo de satisfação e esperança: significa que a fotografia artística não vai morrer.

M. V. M.

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1 thought on “Flickerices”

  1. Curioso a questão da “arte” como definição, algo q me têm dado uma luta enorme, mesmo na fase de revisão de um artigo cientifico, já aprovado para publicação!

    Onde ficam as fronteiras do q é arte, nomeadamente na fotografia. Por ser um “terreno tão pantanoso”, ocorre-me sempre como paralelo, as discussões “sobre o sexo dos anjos”…!

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