A explicação das coisas retro (2)

Uma causa importante da revivescência do vinil, que não mencionei no texto anterior para não o tornar demasiado extenso, está no seu uso por DJ’s. Embora exista a possibilidade de fazer sets em formato digital, seja em MP3 ou em CD, o que é certo é que o DJ, quando de reputação, é um verdadeiro ídolo para os jovens. (E menos jovens: aqui o M. V. M. tem enorme reverência por nomes como François Kevorkian, Laurent Garnier, Terry Francis ou Mr Scruff, entre muitos outros.) Os jovens que frequentam discotecas não querem ver o DJ a sequenciar sets num computador: querem vê-lo em acção. Querem ver malas cheias de 12” e mesas de mistura com dois decks e querem ver o DJ a manipular os vinis. Os DJ’s foram, de resto, quem manteve as prensas de vinil em funcionamento durante os anos em que o CD se impôs como formato mais popular e ameaçou o vinil de extinção.

São estas as razões que explicam o fenómeno da sobrevivência e do actual crescimento do disco de vinil; será que o que escrevi neste texto e no anterior pode ser transcrito para o campo da fotografia?

A meu ver, não: na fotografia pode haver casos em que se herda uma máquina fotográfica – mas, a menos que o herdeiro tenha previamente desenvolvido entusiasmo pela fotografia, não a usará. (Aliás, eu sou um exemplo disto mesmo: o facto de me ter tornado comproprietário em comunhão indivisa da Minolta 7S do meu pai não me tentou a usá-la a não ser depois de ter adquirido conhecimentos de fotografia.) Os motivos que levam os mais novos a interessar-se pela fotografia analógica podem incluir o desânimo pelo estado actual da fotografia, em que esta é tão fácil e acessível e, contudo, tão medíocre, mas não me parece que exista uma reacção à renovação incessante que se verifica na fotografia digital (tal como no áudio) que leve o jovem a optar pelo que é definitivo e permanente, por oposição à transitoriedade do digital. A possibilidade de alguém se cansar de comprar câmaras que deverão ser substituídas em dois anos é mais susceptível de afectar os fotógrafos experientes do que os jovens.

Por outro lado, uma máquina fotográfica analógica não é necessária para fazer fotografias. É preciso um gira-discos para tocar LPs, mas para fotografar existe a opção pelos meios digitais, o que exclui a impreteribilidade de usar uma câmara de película. Assim, a aquisição de uma destas últimas não é uma verdadeira necessidade.

Tudo isto dito, quais são os motivos que levam a que haja um interesse crescente pela fotografia analógica? A resposta a esta questão será muito mais completa e satisfatória se deixar de circunscrever este fenómeno aos mais jovens e abranger os fotógrafos experimentados, porque estes são um dos motores deste regresso ao analógico. Embora tenha dado ênfase aos jovens na revivescência do vinil, parece-me que o caso da fotografia é diferente e que este movimento tem um âmbito subjectivo bastante mais extenso. A principal causa que leva os mais velhos a interessar-se de novo pela película é, sem dúvida, o fastio de ter de acompanhar uma evolução tecnológica que nem sequer garante os melhores resultados. Ao fim de dois anos, a câmara digital adquirida com enorme esforço é substituída por uma outra e a primeira torna-se instantaneamente sucata. A fotografia analógica, essa, é estável, permanente e de resultados comprovados. Pode assim ser uma experiência bastante mais satisfatória que a fotografia digital.

Entre os jovens, o interesse pelos rolos começa entre os estudantes de arte que optam pela fotografia. Penso que não há nenhuma escola em que o estudante de fotografia não seja obrigado a adquirir uma câmara analógica e a revelar e ampliar os negativos. Há, evidentemente, boas razões para que assim seja: ao dominar o processo fotográfico analógico, o estudante tem uma compreensão muito mais abrangente do fenómeno da fotografia e da sua essência, que é a captação da luz e a fixação da imagem. O uso de uma máquina analógica habilita-o a compreender melhor o funcionamento de uma câmara: além de lhe estarem vedadas as facilidades da fotografia digital, que o dispensam de um conhecimento profundo das técnicas fotográficas, o facto de se ter de aprender a fazer bem à primeira estimula o conhecimento do processo fotográfico, o qual apenas termina com a revelação e ampliação da imagem. Estas duas últimas etapas são também essenciais para a compreensão da fotografia. Quem entender o processo que tem lugar quando se fotografa no domínio analógico entenderá facilmente o digital; o inverso não é verdadeiro.

Tenho notado que muitos destes estudantes acabam por desenvolver um enorme entusiasmo pela fotografia analógica, tornando-se utilizadores regulares de material fotográfico convencional. É compreensível que assim seja: o jovem tem, por definição, pouca disponibilidade económica; aquele que se interessa pela fotografia precisaria de um dispêndio substancial para adquirir uma câmara digital e respectivas lentes. Se, porém, optar pela fotografia analógica, pode adquirir uma máquina por pouco mais de €100 e uma lente por outro tanto. O dinheiro que gastará com o equipamento e com os rolos, a revelação e a digitalização será, mesmo que fotografe assim durante muitos anos, inferior ao que pagaria por uma câmara digital de qualidade equivalente à de uma SLR dos anos 70 e 80. Isto é ainda mais verdadeiro quando o interesse pela fotografia leva a querer resultados ainda melhores do que os da película de 35mm: um corpo Pentax 645 digital novo custa €7.300, ao passo que uma máquina analógica de médio formato pode ser adquirida por um preço médio de €500. Isto é extremamente tentador.

Penso que são sobretudo estas as razões pelas quais o interesse pela fotografia analógica se mantém vivo. Há outras causas, como o culto da Lomografia e o factor moda que está quase sempre por trás das escolhas retro, mas estas, posto que importantes, são relativamente marginais. Também não dou grande relevância a um motivo que descobri ser importante, que é o puro prazer de usar máquinas fotográficas analógicas, porque este é um factor que varia de pessoa para pessoa e não me parece tão determinante quanto os que enunciei. Tal como o vinil, isto é muito mais que uma moda.

M. V. M.

Anúncios

2 thoughts on “A explicação das coisas retro (2)”

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s