Nas nuvens

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As manhãs de chuva são um tédio. Especialmente as de Domingo, quando não há nada que nos obrigue a sair de casa. Tentei sair para fotografar, mas a chuva não me deixou, pelo que voltei atrás e sentei ao computador.

Como o tédio costuma inspirar ideias parvas, resolvi ver se o DxO Optics já se tinha decidido a abrir os ficheiros TIFF em escala de cinzas em que as digitalizações converteram as minhas fotografias. Népias. Nem sequer as reconhece – quanto mais abri-las. Isto é uma pena, porque os ajustes do DxO são particularmente eficazes – desde que não se confie na compensação da exposição «inteligente», que deixa sistematicamente as imagens subexpostas – e a redução do ruído é a menos destrutiva de todos os programas que experimentei. Os leitores mais veteranos poderão (ou não) lembrar-se que escolhi o DxO Pro 7 em detrimento do Lightroom 4 depois de ter testado ambos em 2012, mas hoje, em face desta limitação do DxO, resolvi tentar de novo o Lightroom. Podia ser que este último condescendesse em abrir e editar os ficheiros TIFF monocromáticos.

Antes de prosseguir, algumas palavras sobre a edição de imagem dos ficheiros digitalizados realizados a partir dos meus negativos: eu não sou um purista que entende que as imagens devem ser mostradas tal como saíram da câmara (ou do scanner); se puder recuperar uma imagem, tendo os meios para o fazer, seria tolo se me mantivesse arreigado a princípios obtusos. Mas também não sou dos que trabalham as imagens no computador até as tornarem noutra coisa completamente diferente daquilo que vi quando decidi premir o botão do obturador: as minhas necessidades quanto às fotografias analógicas convertidas resumem-se a alguns ajustamentos – em especial a redução das altas luzes, porque estas podem sempre sair um pouco exageradas quando se expõe para as sombras –, à remoção de manchas e ao recorte e rectificação do nível. Por vezes preciso de ir mais longe para recuperar uma ou outra fotografia subexposta ou sobreexposta, mas uso a edição com muita parcimónia. Tenho usado o Windows Live Photo Gallery para estes ajustamentos da exposição, mas este programa converte os ficheiros de escala de cinzas a 16% em RGB ao adicionar-lhes uma transparência. Para lhes devolver a natureza de imagens monocromáticas, uso o Photoshop CS e transformo-os em escalas de cinzas, mas o CS não serve apenas para isto: as suas ferramentas de correcção da perspectiva (que podem ser encontradas em Filter → Lens Correction → Custom) são bastante eficazes – embora não tanto como as do DxO. Isto é tão complicado que, se pudesse usar apenas um programa, seria uma enorme poupança de tempo e trabalho.

Pois bem: retomando o tema deste texto, resolvi experimentar o Lightroom. Tal como vaticinara há já algum tempo, quando a Adobe decidiu agrupar as suas ferramentas de manipulação de imagem na Creative Cloud, o Lightroom também já só está disponível nesta última. A CC não o incluía quando foi lançada, pelo que o Lr podia ser adquirido e instalado no computador sem estar ligado a um servidor mundial, mas agora só se acede a ele subscrevendo a Creative Cloud. Mesmo assim resolvi experimentar o Lightroom, que vai agora na versão 5.7; descarreguei-o – o que é uma operação fastidiosa e demorada – e não tardei a experimentá-lo.

Vieram-me de imediato à mente os motivos por que, quando fotografava exclusivamente digital, rejeitei o Lr em benefício do DxO. Este programa, apesar de ter uns filtros muito fancy, faz exactamente o mesmo que qualquer outro (Windows Live Photo Gallery incluído) no que toca à exposição. Permite, é certo, um ajuste muito preciso dos tons nas fotografias a preto-e-branco, mas no essencial não faz mais nem melhor que outros programas. Pelo contrário, a redução do ruído e o unsharp mask não são nada subtis e estragam mais do que consertam. Além disto, converte as imagens em RGB, pelo que nunca poderia dispensar o Photoshop CS se quisesse revertê-las para escalas de cinzas. Pior do que as insuficiências da aplicação (sim, porque, com a migração para a cloud, o Lr deixou de ser um programa para se tornar numa app) é o preço: o Lr pode ser subscrito pela quantia de €12,29 mensais, o que perfaz a quantia anual de €147,48. Contudo, é importante referir que a Adobe tem um preço especial se o «usuário» fizer uma subscrição anual: €146,71. O que quer dizer que a subscrição deste último plano significa uma poupança considerável: setenta e sete cêntimos! Ao menos têm sentido de humor…

Eu já estava à espera disto quando a Adobe engendrou a Creative Cloud. O Lr podia ser adquirido por menos do que esta anualidade e, mesmo que o seu utilizador actualizasse o programa todos os anos, nunca ficaria tão caro como estas subscrições. Agora quem tem o Lightroom (ou qualquer outro programa) só tem duas opções: ou mantém um programa desactualizado ou adere à Cloud. Que espertos que eles são: mesmo que alguém saque o Lightroom à borla, não vai poder senão usar uma versão desactualizada; pouco importa, aos responsáveis da Adobe, se alguém sacar o Lightroom. (O que até não será má ideia porque, tanto quanto me lembro, o Lightroom 4 era mais simples e claro do que este 5.7 e fazia o mesmo.)

Há mais: com a subscrição da Cloud, o utente assina um termo que permite à Adobe o acesso e recolha de informações sobre as suas fotografias. Eu acredito que a equipa do Photoshop use este acesso para melhorar o programa e traçar perfis dos utilizadores, das câmaras e das lentes, mas o potencial desta recolha para violação da propriedade intelectual é tão grande que mais vale que o consumidor consciente se mantenha afastado da Cloud. Não digo que a própria Adobe vá roubar as fotografias dos seus clientes, mas não é impossível que algum hacker pirateie a Cloud e se aproprie delas. O que pode ser um caso sério.

M. V. M.

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4 thoughts on “Nas nuvens”

    1. Não, Ricardo. Foi apenas uma experiência em que editei duas fotografias. Depois disto desinstalei a CC e o Lightroom porque preciso de espaço livre no disco. No entanto, se for à nuvem de tags que aparece na coluna do lado direito e clicar «Adobe Lightroom», vão aparecer os textos que escrevi quando o experimentei pela primeira vez. Já foi há quase três anos, mas não há diferenças substanciais entre a versão 4 que então usei e esta 5.7 actual.

      1. Estou tendo algumas dificuldades para trabalhar arquivos raw das minhas câmeras E M-1 e a D7100. Você me indicaria o DxO? Abraços!

  1. Sim, sem dúvida. O DxO tem uns presets automáticos que corrigem as deficiências das imagens tão bem que podem dispensar quaisquer outros ajustes. As correcções são feitas com base na câmara, na lente e na combinação de ambas, ao contrário do que acontece no Lightroom que, embora tenha perfis das câmaras e das lentes, não tem estas predefinições automáticas.
    Embora não tenha experimentado a versão actual (10), penso que não terá havido uma deterioração na qualidade desde a v9 – que não comprei por não ter diferenças substanciais em relação à 8. Além disto, o Ricardo não terá de aderir a uma subscrição anual… Contudo, faça o download da versão experimental e use-o durante os 30 dias antes de se decidir pela compra.

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