O estado das coisas ou por que escrevo tão pouco sobre novidades da indústria fotográfica

Fujica-ST

Ao longo dos textos que tenho escrito desde meados de Junho de 2013 tenho insistido no tema da fotografia analógica. O eventual leitor poderá, a partir desta profusão de textos sobre tecnologias por muitos consideradas arcaicas, que vivo no passado; afinal, o que hoje se discute não é a velocidade da película (ou sensibilidade, já que até a Ilford Photo denomina este valor de «ISO», o que é um paradoxo de adaptação aos tempos modernos), os métodos e químicos usados na revelação, as ampliações ou a maneira correcta de expor quando se usa película a preto-e-branco. Nada disto: o que hoje se discute é se o iPhone é ou não uma alternativa válida às máquinas fotográficas verdadeiras e próprias e o que os fabricantes devem fazer para vender estas últimas, evitando o seu desaparecimento e tornando-as competitivas em comparação com os smartphones. É este o estado da fotografia actual no que diz respeito ao equipamento.

4035231082O que parece interessar aos consumidores é acompanhar as novidades da indústria fotográfica. Se passarmos os olhos pelos websites da especialidade, que vemos? Vídeo. Toda a gente quer vídeo 4K nas suas câmaras, mesmo que não saibam muito bem o que isso é. Telemóveis a ser sujeitos a testes como se fossem câmaras (quando, se estivessem frente a frente com uma câmara decente, perderiam em toda a linha). No que diz respeito às câmaras digitais propriamente ditas, a visita aos websites pode levar o leitor a acreditar que ingressou num universo paralelo caracterizado por um absurdo que faria Kafka e Camus reescreverem toda a sua obra: a Fujifilm lançou uma câmara cujo ecrã articulado se move para facilitar a feitura de selfies; a Pentax permitiu-se apresentar uma DSLR com uma fileira de LEDs no punho e comandos retroiluminados; e o duopólio conhecido como Canikon continua a apresentar modelos que são meros refrescamentos dos anteriores como se fossem revolucionários. Entretanto, os gadgets multiplicam-se. Ao que parece, os drones tomaram o lugar do falecido Google Glass na visão do futuro que os websites de material fotográfico gostam de impingir. Além dos drones, temos câmara com ângulo de visão de 360º (e qual de nós nunca sonhou com uma?), câmaras que mudam a focagem depois do disparo e outros disparates que só podem interessar a gente com mais dinheiro que juízo.

É este o estado das coisas na indústria fotográfica. Não consigo ver nada de interessante, nada sobre o qual valha a pena escrever num blogue de fotografia. Estas patetices que tentam impingir às pessoas são meras manifestações de desespero de uma indústria que já não sabe o que fazer para manter viva a voragem consumista em tempos de crise. Tentam impor a ideia, em obediência ao princípio da criação de necessidades que enforma a sociedade de consumo, que temos o dever de fotografar todos os instantes da nossa vida (e da dos outros) e partilhá-los em tempo real no facebook. Nada disto me interessa.

Rejeito esta lógica que está a destruir qualquer pretensão da fotografia em afirmar-se como forma de expressão artística. Não me parece ter qualquer interesse escrever sobre os 2 megapixéis que a Canon adicionou ao sensor da sua última DSLR, os drones não me trazem qualquer entusiasmo e não quero saber de telemóveis e vídeo para nada. Eu não sou exactamente um eremita: mando digitalizar os meus rolos e publico fotografias no Flickr, mas este estado das coisas parece-me falso e profundamente perverso. É por isto que prefiro escrever sobre películas.

Curiosamente, alguns dos textos que dedico à fotografia analógica, entre os quais as apreciações sobre os rolos que usei, estão entre os que são seguidos com mais atenção aqui no Número f/. Só Deus sabe por que isto acontece na era dos smartphones, dos drones e dos 2 MP adicionados aos sensores das DSLR. Pode muito bem acontecer que haja mais pessoas a reagir aos excessos de uma indústria que perdeu de vez o juízo e se estejam a voltar para o que é genuíno, quem sabe?

M. V. M.

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