Uma explicação

Fotografia por Charles Platiau/REUTERS
Fotografia por Charles Platiau/REUTERS

Eu não quero tornar o Número f/ num blogue de política; este espaço é e será sempre dedicado à fotografia. Quem vem aqui fá-lo na expectativa de encontrar informação sobre fotografia, não sobre política. Contudo, não consigo conceber a existência de alguém que viva apenas para a fotografia e não tenha outros interesses. Eu tenho. Há muito mais em mim que a fotografia, embora esta seja um interesse que tem vindo a ocupar um lugar cada vez mais proeminente nas minhas ocupações.

Há coisas muito mais importantes que a fotografia. As ameaças à liberdade são uma delas, pelo que não podia de modo algum ficar indiferente aos ataques de 7 de Janeiro. Contudo, mesmo nesta minha preocupação há uma relação, ainda que ténue e indirecta, com a fotografia. Deixem-me explicar:

Quando eu era criança, desenvolvi um gosto especial por banda desenhada. Aos oito ou nove anos era um leitor assíduo da revista Tintin, editada em Portugal por Vasco Granja, que era publicada semanalmente. Foi com o Tintin – mas também com os livros da série Peanuts, de Charles M. Schulz – que formei a minha apreciação estética. A banda desenhada está, deste modo, na base dos conceitos estéticos que procuro incorporar nas minhas fotografias. Que ninguém se lembre de reduzir a banda desenhada a «bonecos» como os da Disney: a BD de origem belga e francesa contém exemplos de traços rigorosos e realistas e – acreditem ou não – mesmo os autores que, como Franquin, tinham um traço mais livre e caricatural, dominavam perfeitamente as noções de composição e enquadramento. Tal como na fotografia, a BD trata de arrumar vários motivos no espaço confinado que é o rectângulo onde a cena é desenhada.

Ora, isto é exactamente como na fotografia. Os rudimentos da organização de elementos gráficos no espaço aprendi-os, ainda que de modo autodidáctico e por intuição, nos milhões de quadradinhos que vi e li. Aqui está a relação entre a BD e a fotografia e a razão por que senti de modo especialmente doloroso o assassínio dos cartoonistas do Charlie Hebdo: estes eram pessoas que faziam algo que me dizia respeito, que eu estimava e admirava. Contudo, a BD não me interessava apenas pela estética – embora esta fosse importante: foi com ela que aprendi que o humor, nas suas vertentes de sátira e sarcasmo, pode ser exprimido de uma maneira incrivelmente eficaz através do desenho.

O cartoon é uma forma de banda desenhada, mas é mais difícil porque, ao contrário desta última, que pode estender-se por uma narrativa mais ou menos complexa, tem de exprimir uma mensagem no espaço de um (ou poucos mais) quadrados. A mensagem tem de ser sintética e eficaz. Fazer cartoons é uma arte a que poucos autores de BD se atrevem. Aliás, é mais frequente que os cartoonistas venham eventualmente a fazer álbuns de BD do que o contrário, i. e. os autores desta última fazerem cartoons.

Agora que o leitor compreendeu por que incluí textos sobre os ataques de 7 de Janeiro no Número f/, deixem-me escrever aquelas que espero ser as últimas linhas sobre o assunto neste blogue. Ontem saíram milhões de pessoas à rua em Paris, mas eu, se tivesse acontecido estar lá, provavelmente não teria ido à manifestação. A razão desta minha abstenção teria sido a presença de tantos chefes de Estado e de governo. Entre estes estavam alguns dos que contribuem para que o conflito israelo-árabe, que está na origem de todos os extremismos islâmicos, se eternize. Estavam lá os primeiros-ministros e presidentes dos países que têm assistido à política de colonatos e aos atentados bombistas sem nada fazer para acabar com eles. Estava lá Benjamin Netanyahu, certamente com o fito de conquistar mais apoios às suas políticas de ocupação ilegítima de territórios à custa do incremento do ódio pelos muçulmanos que os ataques poderão trazer. Aquela manifestação, que podia ter sido um grito veemente de união, tornou-se num desfile de cinismo e hipocrisia. Eu não teria alinhado nisto; apesar de ter ficado impressionado por ver aquela multidão nas ruas de Paris, entristeceu-me ver que aqueles dois milhões de manifestantes estavam a ser instrumentalizados. Continuo a ser Charlie, mas não me deixo manipular.

M. V. M.

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2 thoughts on “Uma explicação”

  1. Caro MVM.
    Concordo plenamente com a apreciação que faz dos assuntos em questão. Desculpe-me talvez a frivolidade do meu assunto, mas escrevo principalmente para lhe dizer que também fui leitor e coleccionador da revista Tintin e de outras boas revistas de BD (não incluo as dos super heróis da Marbel e outras afim) que se publicaram em Portugal e do muito que contribuíram para o meu sentido de composição e estética e para o meu gosto pela área do desenho, do qual fiz a minha profissão. Quantos sorrisos e momentos de boa disposição me foram proporcionados pelo humor refinado e sarcástico das tiras dos cartoonistas aí publicados. Embora tecnicamente seja um zero em fotografia, penso que as fotos que faço, em termos de composição, são equilibradas, talvez devido à influencia da composição das vinhetas das muitas histórias que li e que ainda hoje gosto de ler. Ainda não sabia ler, mas já me deleitava com as páginas do Cavaleiro Andante, quando em criança ia ao barbeiro cortar o cabelo.
    Cumprimentos.

    MMM

    1. Os principio de construção da imagem, são comuns na pintura, desenho, fotografia e imagem dinâmica (vídeo), tais como as linhas axiais, pontos fortes, centros de interesse etc…

      Inconscientemente foi também assim, que eu e outras pessoas que conheço, começaram criar “composições (foto)gráficas” pelo processo de seleção ao enquadrar os elementos, e outros tantos que ficavam fora do enquadramento.

      Cps

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