Ser ou não ser Charlie

Je-suis-charlie-640Houve uma reacção curiosa ao movimento que se disseminou por todo o mundo depois do ataque ao Charlie Hebdo: enquanto toda a gente com um mínimo de bom senso adoptou instantaneamente o lema Je Suis Charlie, alguns inteligentinhos resolveram clamar Je Ne Suis Pas Charlie. Para não serem mal entendidos – o que poderia acontecer facilmente pois, segundo estes crânios, toda a gente é estúpida menos eles –, resolveram atenuar um pouco a rotundidade do seu slogan e explicar que não precisam de se misturar com a carneirada que diz Je Suis Charlie para condenar os atentados. Ou seja, são melhores e superiores em tudo. Alguns exprimem o seu amor pelo Islão e têm muito medo que a massa acéfala do Je Suis Charlie dê causa a uma vaga anti-muçulmana e xenófoba. Alguns outros denunciam a hipocrisia dos que dizem Je Suis Charlie, provavelmente por entenderem que eles sim, são os coerentes e honestos. Todos eles entendem que não é necessário dizer Je Suis Charlie para defender a liberdade de expressão.

Em nome desta última, devo dizer que estas pessoas têm todo o direito de pensar assim. Que reconheçam, porém, aos outros o direito de pensar de modo diferente, especialmente àqueles que, como eu, não lhes conferem qualquer autoridade, seja ela de que natureza for. Estas pessoas estão a ser mesquinhas, porque a sua opinião não é mais que um preciosismo, como se fossem uma gota de água que quisesse provar ser diferente das outras; estão a agarrar-se a coisas que não têm relevância para o assunto e a deixar que lhes passe ao lado o essencial. Estão a dizer que se pode não gostar do Charlie Hebdo e ser contra o terrorismo, mas alguém devia dizer-lhes que não é esta a questão principal. O que importa aqui discutir é a liberdade de expressão, que alguns estão a tentar condicionar pelo medo; e importa, acima de tudo, que sejamos no maior número possível a mostrar que não temos medo do terrorismo nem admitimos que nos amordacem. Isto não tem nada que ver com gostar ou não do Charlie Hebdo: este é um simples símbolo, mas é o símbolo de algo poderoso: a liberdade de expressão. Ao atingi-lo, atingiram bem fundo nos princípios por que muitos lutaram durante séculos para que integrassem o nosso núcleo de valores. Será possível que pessoas que se julgam tão inteligentes não compreendam isto?

Dizer «Eu Sou Charlie» não é o mesmo que aprovar o que era – e, espero eu, continuará a ser – publicado no Charlie Hebdo: é dizer que somos uma imensíssima maioria que condena da forma mais veemente possível o terror e as ameaças à liberdade que ele traz. É dizer que somos um só na defesa da liberdade. Claro que as pessoas que estou a criticar têm egos tão insuflados que nunca poderão entender isto. Estas são, provavelmente, as mesmas pessoas que procuram branquear os crimes do Hamas porque ser contra Israel é esquerda-chique, mas estas inteligências vão mais longe e assimilam o Je Suis Charlie a algum surto anti-islamista. Isto é indescritivelmente estúpido. Aliás, eles é que podem passar por gente que trata o terrorismo com brandura e complacência, ou por pequenos tiranetes da inteligência que se julgam melhores que todos os demais e arrogam-se o direito de fazer prevalecer a sua opinião. Dizer «Je Ne Suis Pas Charlie», neste momento, apenas pode significar uma de duas coisas: ou que se é neutro e indiferente em relação a estas questões, ou que se aprovam e legitimam os actos que ocorreram no dia 7 de Janeiro. Entre o terror e a liberdade não há um meio termo: ou se é por um ou pelo outro. Não há lugar para exibições de egos nesta luta.

Uma coisa que estas inteligências nunca compreenderão é que dizer Je Suis Charlie é um acto de coragem, traço de personalidade de que são completamente falhos. Dizer Je Suis Charlie é dizer que, com os ataques de 7 de Janeiro, todos nós fomos atacados. Eu fui: mataram pessoas apenas porque pensavam livremente e não se coibiam de exprimir o que pensavam, o que me afecta e perturba. Goste-se ou não do que era publicado no Charlie Hebdo, este era um símbolo da liberdade. Foi esta que foi atacada. Podemos não achar piada aos cartoons de Wolinski e Charb, mas não é esta a questão.

Dizer Je Suis Charlie não significa ser anti-islamista ou xenófobo, ao contrário do que alguns dos que demarcam deste movimento parecem pretender insinuar. Antes de mais, porque as acções que tiveram lugar em Paris não são representativas do Islão. A esmagadora maioria dos muçulmanos condenou os ataques. Até o Hamas e o Hezbollah – que, bem ou mal, lutam por uma causa e não procuram o disfarce da religião para justificar os seus actos – condenaram os atentados, fazendo-o, de resto, de forma bem veemente. Depois, porque o terror não tem credo nem raça: terror é terror, é a gratuitidade da morte e a banalização da violência. A morte de inocentes – e os caricaturistas do Charlie Hebdo eram-no – não é melhor ou pior conforme seja infligida por árabes ou judeus. A vida humana é um valor absoluto e inviolável, seja ela de um católico, de um judeu ou de um muçulmano e independentemente da raça a que a pessoa pertence ou do credo que professa. Não há mortes mais legítimas que outras: toda a matança é injustificável, seja quem for que a perpetre.

Por tudo isto, eu, que sou uma pessoa que não hesita em pensar pela sua cabeça, sou Charlie. Se os outros não o querem ser é uma questão que só a eles diz respeito. Apenas deviam pensar um bocadinho para além dos seus egos, porque todos os egos são minúsculos neste momento em que uma causa maior une todas as pessoas de bem.

M. V. M.

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