Dois assuntos sérios

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Hoje, 7 de Janeiro, um bando de três loucos armados irrompeu pelas instalações da publicação satírica francesa Charlie Hebdo e matou doze pessoas (entre elas Georges Wolinski, o decano da caricatura francesa), ferindo outras dez. Aparentemente, o ataque foi levado a cabo por fundamentalistas islâmicos. O que fez a Charlie Hebdo para ser atacada? Publicou cartoons. Somente.

A minha primeira reacção após o horror da notícia foi a de culpar parcialmente os cartoonistas por terem ido longe demais na sua sátira, mas logo me arrependi de esta ideia me ter sequer passado pela cabeça. Pensar daquela maneira significaria aprovar o medo e aplaudir a autolimitação das nossas liberdades, desde logo a de expressão. Significaria, também, que teria por legítimo que nos vergássemos ao terror e deixássemos que o medo tomasse conta das nossas vida. Não posso aceitar nada disto.

Além dos significados que referi, atribuir uma parte da culpa aos cartoonistas implicaria desconhecer a mentalidade francesa no que toca a problemas desta índole. Há três décadas, um ministro do interior de nome Charles Pasqua ensaiou um discurso censório por conta das liberdades que os cartoonistas se permitiam; estes reagiram caricaturando-o das formas mais grotescas que se lembraram. É assim que, num país livre, se reage quando sente a liberdade ameaçada. Mais do que caricaturar Pasqua, a mensagem foi a de que a liberdade não se aliena e quem tenta fazê-lo apenas merece ser ridicularizado. Foi exactamente desta maneira que os cartoonistas da Charlie Hebdo reagiram às constantes ameaças de fundamentalistas islâmicos. A mensagem das caricaturas publicadas era a mesma: não há medo que derrote a liberdade.

Infelizmente, a liberdade pagou um preço demasiado caro. Tenho sempre muito medo quando estas coisas acontecem porque, apesar de me sentir protegido por viver num país onde habita um povo maravilhosamente tolerante e imune a racismos e xenofobias, sei que atentados como este apenas servem para atiçar o ódio e fazê-lo expandir como fogo num palheiro. Com o efeito altamente pernicioso de dar força aos extremismos de sentido oposto: não tenho dúvidas que Marine Le Pen vai capitalizar com este ataque.

É um erro culpar o Islão e os muçulmanos por ataques como este. O Islão não é nada disto: para quem interpreta o Corão com uma mente sã e olhos de ver, o Islão é paz. Nós, ocidentais de influência cristã, somos, pelo ensinamento de Maomé, «o povo do Livro» que deve ser respeitado e protegido. As derivas fundamentalistas não encontram fundamento no Livro Sagrado dos muçulmanos, mas em interpretações distorcidas. A Al-Qaeda e o Estado Islâmico não são o Islão nem este é sinónimo de barbárie, violência ou fanatismo. A maioria dos muçulmanos vive em paz e não está restrita por uma hermenêutica medieval do Corão. É assim na Turquia, na Indonésia, na Malásia e em Singapura, bem como em todos os países ocidentais onde existem comunidades muçulmanas. Não há que identificar este ataque bárbaro com os muçulmanos e o Islão.

O Ocidente teve um papel que não pode ser ignorado neste incremento do fanatismo. Não podemos esquecer as divisões artificiais dos territórios árabes, a mando das petrolíferas, o apoio a tiranos de confiança do Ocidente – em particular dos Estados Unidos, do Reino Unido e da França – e esse erro histórico crasso que foi a criação do Estado de Israel, que, em boa verdade, nasceu mais da vontade das potências ocidentais do que de uma verdadeira necessidade do povo judeu (que é o outro «Povo do Livro» a que o Corão alude). Tudo isto, bem como a apropriação da riqueza pelas petrolíferas, tornou o Médio Oriente numa região de conflitos perpétuos e insanáveis e abriu caminho ao fundamentalismo bárbaro da Al-Qaeda e do Estado Islâmico. Podemos – devemos – condenar o fanatismo e a barbárie, mas não devemos esquecer quais são as suas raízes.

Curiosamente, neste mesmo dia tive conhecimento de uma mensagem de liberdade. Nos Estados Unidos, o Congresso aprovou um acto legislativo que tem o título abreviado de «Ansel Adams Act». Prevê este dispositivo, que reforça a aplicação da Primeira Emenda da Constituição norte-americana à fotografia, que ninguém pode ser proibido de fotografar em lugares públicos a menos que lhe seja exibido um mandado judicial do qual conste essa proibição, que deve ser fundada em motivos de segurança nacional ou outros motivos justificativos. Nos considerandos desta lei (o equivalente aos preâmbulos dos nossos textos legislativos) diz-se que há pessoas que são ameaçadas com prisão ou apreensão de equipamento por, singelamente, gravarem o que o olhar humano consegue ver. A profundidade e agudeza deste pensamento merecem um texto próprio aqui no Número f/, que ficará para outro dia. Outras proibições consagradas pelo Ansel Adams Act são as de cobrar taxas pela recolha de fotografias em espaços públicos e de apreensão de equipamento fotográfico a quem fotografe ou grave vídeo nestes locais.

A aprovação deste acto legislativo pode parecer um facto insignificante diante da dimensão do ataque ao Charlie Hebdo, mas foi uma vitória da liberdade de expressão – a mesma que três loucos pretenderam condicionar em França.

M. V. M.

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