Vícios

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Ao longo da minha ainda muito curta carreira (não é carreira nenhuma, mas à míngua de uma expressão mais exacta esta terá de servir) de amador de fotografia, tenho-me esforçado por me livrar de vícios que são mais ou menos inevitáveis quando se começa a fotografar – ou a enveredar por qualquer outra actividade criativa, seja ela qual for.

Um destes vícios é o de procurar fazer fotografias que agradem. É muito difícil livrar-me dele: está sempre, inconscientemente, presente. A ideia de fazer uma determinada fotografia porque vai ser apreciada por muita gente é, ao contrário do que se pode pensar, altamente perniciosa e castradora: quem a tem vai prescindir de encontrar uma expressão própria, trocando-a por um mínimo denominador comum que os outros possam assimilar facilmente. A arte da fotografia não é nada disto. Ao enveredar por este caminho está-se a dar às pessoas o que elas gostam em lugar de obrigá-las a ver com atenção; está a produzir-se uma sensação fátua em lugar de uma impressão duradoura.

Uma boa fotografia não é aquela que agrada às multidões. Estas não estão preparadas para interpretar a intenção do autor. Contentam-se com uma impressão superficial, com a satisfação instantânea de uma sensação. Quando digo que fazer fotografias para agradar aos outros é castrador, faço-o porque este meio implica seguir fórmulas e lugares-comuns. Não brota qualquer criatividade desta maneira de fotografar. Tudo que se obtém é fotografias iguais a milhares de outras.

Ora, proceder assim não é criar arte. A arte está em exprimir uma visão pessoal que cabe ao espectador decifrar. São decerto poucos os que se dão a este trabalho, mas são eles que fazem com que fotografar valha a pena. As fotografias feitas para agradar às massas sofrerão sempre, quando menos, de falta de imaginação. Serão rapidamente esquecidas, mergulhando num anonimato composto de milhões de fotografias iguais.

Não vale a pena fotografar assim. É estéril, não desenvolve aptidões e, em lugar de levar ao reconhecimento, leva ao exacto oposto. Uma fotografia assim será apenas mais uma. Eu não quero isto para as minhas fotografias. Embora não tenha a pretensão de criar obras eternas – falta-me o génio para tanto –, quero que as minhas fotografias emanem de quem eu sou, e não de quem eu quero que pensem que sou.

Outro vício de que me quero desprender – e aqui penso ter mais sucesso – é o de incluir o que faço em escolas ou estilos. Isto redunda, as mais das vezes, em imitações. Também não é isto que quero para as minhas fotografias. É extremamente difícil ser original e único: com tantas fotografias que existem, é quase impossível que faça alguma que não se pareça com algo que já foi feito por alguém. Por outro lado, alinhar num estilo ou escola (e. g. a fotografia de rua) é uma autolimitação que não me interessa. Quando muito, devo aspirar a ter o meu estilo; criar uma escola já não tem qualquer interesse porque tal significa ter imitadores. O que é irritante.

Estes vícios conduzem a outro, que é a tentação de dar um conteúdo iminentemente técnico às fotografias. Já tive tempos em que o fazia: fotografias de flores com muito bokeh, arrastamentos de ondas do mar, etc. Fotografias como estas não são expressivas nem originais. Há decerto boas fotografias nestas categorias, mas foram feitas por outrem, não por mim. Deixei de ter interesse em seguir este caminho. Conheço as técnicas e emprego-as quando tal me parece necessário para conferir expressão às fotografias que pretendo fazer, mas não centro estas últimas na técnica. Fotografias que dependem exclusivamente da técnica podem ser vistosas e espectaculares, mas não dizem nada sobre o seu autor a não ser que domina as técnicas. O que, convenhamos, é o mínimo dos mínimos que se pode exigir a quem fotografa.

Esta fuga aos vícios pode conduzir, paradoxalmente, a um outro – o de forçar demasiado a originalidade, procurando imagens rebuscadas ou mesmo, o que muitas vezes sucede, sem qualquer sentido. A originalidade é deixarmos todas as preconcepções de lado e fotografarmos o que a nossa mente vê; é transmitir uma maneira de ver as coisas que nos é própria. Não é necessário complicar demasiado para atingir esta forma de expressão: basta fazermos o que queremos e gostamos sem interferências e sem tentar fazer o que agrada aos outros. As minhas fotografias só têm de me agradar a mim. Se, ao fotografar assim, agrado a outros, é porque estes viram o que há em mim numa fotografia. O resto é mero ruído.

M. V. M.

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