Pescas

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As minhas incursões por aldeias de pescadores estão a ser deveras interessantes. Já escrevi, num texto anterior, que a minha curiosidade por este tema fotográfico nasceu de uma maneira mais ou menos fortuita aquando daquilo que era para ser um mero passeio junto à praia; a verdade é que descobri que aqueles centros piscatórios são um cenário espectacular. Tanto que estou a consumir rolos a uma velocidade tal que me está a esvaziar a conta bancária a um ritmo alarmante (e o depósito de combustível também). No entanto, vale a pena: no Sábado, recebi as digitalizações de dois rolos, um dos quais – o T-Max 400 – foi quase exclusivamente dedicado a este tema. Gostei do que vi, embora outros sejam livres de ter opiniões diferentes.

As minhas fotografias sobre este tema não são muito diferentes de outras que vi. Quando muito, procurei aplicar as minhas ideias gráficas, que são bastante pessoais, às cenas que se me depararam. Além disto, estas fotografias têm um defeito: são vistas de fora. Salvo uma ou outra excepção, não há nelas uma noção de envolvimento na actividade que se desenvolve naqueles lugares. É quase tudo visto a uma certa distância, como se as cenas fossem vistas por um turista ou, pelo menos, um estranho que deambulasse por ali sem realmente se misturar no meio. O que, podendo parecer desinteressante, é inteiramente coerente com o modo como vi aqueles lugares. Não há nenhuma daquelas fotografias com close-ups de pescadores a descarregar peixe que são tão habituais quando o tema é pesca e pescadores. Isto deve-se a uma certa timidez minha que, todavia, consegui ultrapassar pelo menos numa fotografia. Espero que, nas próximas ocasiões, consiga exprimir melhor a actividade piscatória – mas, se não o conseguir, fica pelo menos uma interpretação que, embora distante, é a que muitos têm.

«Nas próximas ocasiões.» Sim, porque conto que haja mais algumas. As minhas primeiras incursões foram feitas nos dias em que habitualmente fotografo: fins-de-semana e feriados. Não se passa muita coisa nas aldeias piscatórias aos fins-de-semana e feriados. Deste modo, informei-me junto de um natural de Vila Chã (que, curiosamente, não é pescador) sobre os melhores dias e horas para fotografar a faina. Fiquei a saber que é a partir das nove e meia da manhã que as coisas começam a acontecer. Nesta conformidade, na última sexta-feira fui a Angeiras. A informação que recebi era boa, embora não tenha tido muito tempo para fotografar por compromissos ulteriores. Mesmo assim, fiquei satisfeito com o que fiz: nestas últimas fotografias, reveladas e digitalizadas por Raúl Sá Dantas em tempo recorde, já não aparecem apenas barcos e apetrechos: já surge gente – embora sem close-ups.

Este sábado fui à Aguda, que é outro centro piscatório. Curiosamente, não gostei tanto de fotografar lá como em Angeiras. O areal extenso retira a sensação de proximidade, convidando a fazer fotografias com muito espaço negativo – o que é igualmente válido, mas de modo nenhum exprime a dureza da faina: em Angeiras estive sempre próximo dos barcos e dos pescadores, o que permitiu uma percepção mais agreste da faina. Na Aguda tudo se passa como se estivesse a ver um filme, sem ter uma verdadeira noção da realidade da pesca. As cenas eram apenas coisas que estavam a acontecer ao longe.

O meu próximo alvo é Vila Chã. Não sei muito bem quando irei, pois esta semana e a próxima vão ser de muito trabalho, mas terei forçosamente de ir bem cedo. De preferência mais cedo do que as nove e meia, ao contrário do que me foi aconselhado. Espero, desta vez, conseguir uma interacção maior com os pescadores – não há motivo para o não fazer: aquela é gente boa, simples e franca –, mas não faço disso uma obrigação: a minha linguagem fotográfica não vive muito de close-ups de pessoas e, em qualquer caso, estaria a ser influenciado pelo que vi outros fazer, o que procuro sempre evitar.

No plano técnico, não há muito a dizer: a única dificuldade é a escolha de um rolo apropriado. O ideal seria usar o meu favorito FP4, mas há algumas circunstâncias que impõem uma velocidade ASA maior. O Kodak T-Max 400 não me convenceu; talvez o Ilford Delta se adeqúe melhor às minhas ideias. Uma coisa é certa: este é um empreendimento que me está a agradar e a fazer-me fotografar com avidez. Talvez por ser algo diferente de tudo o que fiz até aqui e me ter livrado de uma certa desinspiração, ou talvez pelo interesse intrínseco deste tema, estou a fazer fotografias a um ritmo potencialmente ruinoso: instalei o Ilford Delta na sexta-feira e, no Sábado, depois de ter estado na Aguda, descobri que já tinha vinte e quatro fotogramas expostos. Isto é uma ninharia para quem fotografa digital, mas para quem usa rolos com parcimónia – um rolo costuma durar-me cerca de três semanas – é uma verdadeira orgia fotográfica. Só de pensar que ainda há as Caxinas, a Apúlia e a Aguçadoura, e que ainda não desisti da ideia de fotografar num grande porto de pesca como Leixões… vou arruinar-me por conta das pescas. E logo eu que até não sou um grande apreciador de peixe!

M. V. M.

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