Um álbum injustamente injustiçado

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No último dia de 2014, ao fim da tarde, resolvi matar saudades de um álbum que já não ouvia há muito: The Impossible Thrill, dos Alpha. Este álbum foi pessimamente recebido pela crítica, o que sempre me causou grande perplexidade: como pode alguém não gostar de um álbum que tem um gato, e logo um tigrado, na capa? A despeito de ser um dos meus álbuns preferidos da primeira década deste século, The Impossible Thrill foi vítima das críticas mais negativas – e injustas – que alguma vez li.

Os Alpha eram, em 2001, ano da edição de The Impossible Thrill, Corin Dingley e Andy Jenks, dois produtores de Bristol, cidade inglesa onde nasceu a cena Trip-Hop com os Massive Attack e depois com os Portishead (mas também com os Attica Blues, Monk & Canatella, Purple Penguin e, evidentemente, os Alpha). O seu primeiro álbum, Come From Heaven, teve a característica de não ser apenas mais um álbum de Trip-Hop; na verdade, é um álbum extraordinariamente bom. Contudo, pouco depois da sua saída aconteceu a conversão dos Massive Attack e dos Portishead a estilos que não podem ser englobados no Trip-Hop e o interesse por este género musical desapareceu rapidamente. Hoje o som Trip-Hop é irremediavelmente datado, apenas sendo suportáveis algumas canções de Blue Lines, dos Massive Attack, e Dummy, dos Portishead. Alguns grupos, como os Purple Penguin, Attica Blues e Monk & Canatella, simplesmente acabaram; outros continuaram, cientes de que o filão do Trip-Hop estava exaurido. Já ninguém tinha paciência para as batidas Techno desaceleradas, os samples extraídos de vinil riscado, os graves exagerados até ao absurdo e as líricas sofredoras que caracterizam as canções Trip-Hop.

Para fugir aos estereótipos decadentes do estilo moribundo em que os Alpha se inseriam, Corin Dingley e Andy Jenks voltaram-se para a melodia e harmonia em detrimento do ritmo. Compuseram dez canções e um instrumental e recrutaram um coro, uma orquestra e os vocalistas Helen White, Wendy Stubbs e Martin Barnard. As canções estão algures entre Burt Bacharach, bandas sonoras de filmes de contos de fadas e o Trip-Hop, que não é de todo abandonado, surgindo discretamente em alguns temas. Num deles, Wishes, canta um dos padrinhos do Trip-Hop: Daddy G, dos Massive Attack (que, de resto, são os donos da editora Melankolic, para quem os Alpha gravam). The Impossible Thrill é um álbum com enormes cuidados na produção, o que só serve para acentuar a injustiça de muitas das críticas que recebeu.

Com efeito, The Impossible Thrill é um álbum belíssimo. Algumas das suas canções são lindas de morrer: Eon tem uma melodia tão bela que é quase mágica; Dim é belo e calmo, mas poderoso; Wishes – com a tal participação de Daddy G – é uma das melhores canções oriundas da cena em que os Alpha se inserem. Especial, o tema instrumental, é aquele que eu considero o melhor do álbum. As canções de The Impossible Thrill são magistralmente cantadas e muitíssimo bem instrumentadas. Este é um álbum simplesmente excelente. É o tipo de álbum que se ouve relaxadamente, mas com atenção por, melodicamente, ser tão rico.

Por que terá, sendo assim, sido sujeito a críticas tão ácidas? The Impossible Thrill é um álbum de ritmos lentos. Wise, a despeito de ser uma canção esplêndida, é demasiado longa e soporífera. Os seis minutos de duração podem despertar sentimentos de impaciência piores do que os vinte e três minutos do Adagio da 8.ª Sinfonia de Bruckner. O mesmo acontece com os dois últimos temas, que, além de serem lentíssimos, estão mal distribuídos pelo álbum, fazendo com que, por vezes, se torne penoso ouvir este último até ao fim. Além disto, The Impossible Thrill tem um problema evidente de mistura: muitas vezes as vozes tornam-se imperceptíveis, parecendo sussurros soterrados pela massa de instrumentos orquestrais, coros, sintetizadores, vibrafones e pianos eléctricos.

Acresce a estes um outro problema: Come From Heaven, o primeiro álbum dos Alpha, lançado em 1997, foi o terceiro melhor álbum de Trip-Hop, ex æquo com Endtroducing, de DJ Shadow e atrás dos já mencionados Blue Lines e Dummy. As expectativas em relação a The Impossible Thrill, quer pela qualidade de Come From Heaven, quer pelo tempo que mediou entre os dois álbuns, eram enormes. Isto explica as críticas negativas que recebeu: muitos esperavam, porventura, que este segundo álbum fosse uma continuação do primeiro sem os tiques do Trip-Hop. Ficaram desiludidos e frustrados, mas sem razão: apesar das canções que podem ser consideradas chatas, The Impossible Thrill é um álbum belíssimo que não merecia tanta acrimónia da crítica. Aparentemente, ninguém o ouviu como aquilo que foi – uma mudança radical de estilo.

Se eu gosto deste álbum? Deixem-me pôr as coisas nestes termos: a grafia que surge na capa do disco é «TheImpossibleThrill». Assim mesmo, sem espaços mas com maiúsculas. É por causa deste álbum que o meu nickname no Flickr é ManuelVilardeMacedo. É a minha maneira de homenagear os Alpha e este álbum lindíssimo.

M. V. M.

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1 thought on “Um álbum injustamente injustiçado”

  1. :) Sem ofensa, mas ensinanram-me os professores de algoritmia e programação, de que isso se designa de notação de camelo:

    pt.wikipedia.org/wiki/CamelCase

    Surge como forma de reduzir a utilização de caracteres e espaços, otimização do código e devido às limitações de sintaxe de algumas das linguagem de programação…

    Por sinal tb já recorri a essa estratégia como forma de contornar alguns problemas de comunicação em trabalhos gráficos.

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