O Kodak T-Max 400

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Antes de iniciar o texto de hoje, devo fazer aqui uma espécie de declaração de intenções. Eu não levo a mal se uma grande parte dos meus leitores considerar uma perda de tempo ler sobre películas neste primeiro quartel do Século XXI. Fazer uma apreciação de películas é tão novo e actual como discutir qual o melhor carburador para motores de automóveis numa época em que a injecção electrónica se tornou há muito a norma e os motores eléctricos são vistos como a tecnologia do futuro. Contudo, há muita gente que ainda usa película. Vou mais longe: há muitos que estão agora a descobrir o prazer enorme que é fotografar com rolos ou chapas. Deste modo, não me parece de todo inoportuno ou inconveniente abordar este assunto.

No texto de Sexta-feira referi que a minha busca do rolo ideal para preto-e-branco ainda não acabou. Quer dizer: quanto a rolos de velocidade média ou alta, porque o de velocidade baixa está encontrado há muito – é o Ilford FP4, que é, sem disputa, o melhor rolo de preto-e-branco alguma vez fabricado. Quanto a rolos ASA 400, porém, a minha indefinição é completa: há, evidentemente, o Kodak Tri-X, o rolo mais reverenciado da história da fotografia, mas a verdade é que os seus resultados nem sempre me satisfazem: o contraste não é muito bom e os médios tons também não. Eu não preciso do contraste exagerado que agora está em voga, mas gosto de contrastes fortes. (O problema das pessoas é pensarem que «contraste» é abundância de negros, o que é um erro: contraste é a diferenciação entre os tons claros e escuros.)

Por seu turno, também aludi aqui à compra, por uma contingência absolutamente fortuita, daquele que foi o rolo mais caro de sempre entre os negativos para preto-e-branco que já adquiri: o Kodak T-Max 400. Usar película de grão tabular para velocidades altas pode ser uma ideia inteligente: afinal, se o problema destas velocidades (ou sensibilidades, se quiserem) é o grão excessivo, usar película de grão ultra-fino pode ser uma boa ideia. Deste modo, embora ainda esteja combalido por ter despendido mais dois terços do que aquilo que o T-Max 400 custa nas lojas decentes, pareceu-me interessante experimentar este rolo.

O T-Max 400 tem, como seria de prever, grandes semelhanças com a versão ASA 100, que experimentei no início da minha conversão à fotografia analógica sem grandes resultados. Tal como neste último, as imagens são extremamente límpidas e suaves. O grão, mesmo naquelas porções da imagem que o scanner tem dificuldade em penetrar, permanece sempre muito bem controlado. O contraste está, como seria previsível, em igualdade com o Tri-X, que é um rolo de grão cúbico. Em muitos aspectos este é um rolo quase ideal: as ampliações devem resultar extremamente límpidas, mesmo em grandes tamanhos.

É difícil, depois de ter visto as imagens que fiz com este rolo, apontar-lhe defeitos: o grão é excelente para uma película ASA 400, o contraste varia entre o bom e o muito bom e a agradabilidade geral da imagem é francamente positiva. Contudo, como frequentemente acontece com tudo o que é estudado para ser perfeito, o Kodak T-Max 400 é um rolo cujas imagens não excitam. Falta-lhe, tal como ao T-Max 100, uma característica inefável à qual só posso chamar «carácter». As imagens são excelentes, mas não têm a vida que os Ilford lhes conferem. Todos os Ilford, note-se bem: apesar de ainda não conhecer os resultados que podem ser obtidos com o Delta 400 que ainda estou a expor, posso dizer, pelo que vi no Delta 100 em comparação com o rival T-Max 100, que este não é um problema da natureza do grão. O Delta 100 é um rolo de grão tabular, mas tem carácter. Na minha opinião, o ar distinto que tem quando comparado com os T-Max deve-se ao melhor contraste – não ao contraste global, de que os Kodak não são falhos, mas ao contraste local: há, no Ilford, uma descrição do pormenor que acentua a nitidez da imagem, tornando-a mais viva e expressiva.

Uma experiência curiosa é comparar o Ilford HP5 com este T-Max 400. No primeiro há muito grão, e este é grosseiro – mas as imagens têm muito mais carácter; são mais expressivas e têm mais espírito de película. O microcontraste é muito superior, o que cria a ilusão de haver mais nitidez (o que não é, evidentemente, verdadeiro). O que me parece, contudo, é que este microcontraste é uma marca muito própria dos Ilford, sejam eles de grão cúbico ou tabular. Como referi, ainda não sei de que é capaz o Ilford Delta 400 – mas, se for tão bom como o Delta 100 e tiver as características de ausência de grão do Kodak T-Max, pode muito bem vir a ser o meu rolo de eleição para velocidades ASA elevadas.

Devo, porém, dizer que o Kodak, mesmo não sendo distinto como os Ilford, é bom. Muito bom mesmo. Não me importaria de usar este rolo sempre que precisasse da sensibilidade alta. A qualidade do grão é simplesmente fenomenal. É um Tri-X mais educado, se quisermos. Optar por este rolo significaria imagens com menos espírito analógico, mas livrar-me-ia do grão excessivo do Tri-X e, sobretudo, do Ilford HP5. Mas o Kodak T-Max 400 tem um adversário à espreita… watch this space!

M. V. M.

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2 thoughts on “O Kodak T-Max 400”

  1. Não é um comentário mas antes uma pequena provocação: para quando o teste de uma película da Fuji?
    No preto e branco a minha película de eleição é justamente a Fuji Acros 100.

    Produz gradações de cinzas muito ricas e um contraste maravilhoso. O grão é praticamente inexistente e a nitidez é muito alta. Em exterior produz resultados excelentes. Em interiores tende a produzir contrastes mais carregados.

    Abraço,
    MS

    1. Caro Marques da Silva, obrigado pelo seu comentário. A razão de ainda não ter escrito sobre o Fuji Acros 100 é muito simples de entender: ainda não o usei. As minhas impressões sobre rolos referem-se aos que já experimentei, mas as minhas experiências cingem-se aos rolos que encaro como passíveis de vir a utilizar. Pretendo fixar-me em apenas dois ou três rolos e usá-los regularmente: um a preto-e-branco de baixa sensibilidade, outro de alta sensibilidade e um outro a cores. Já encontrei o meu favorito para preto-e-branco com velocidade ASA reduzida, que é o Ilford FP4 Plus 125; é perfeito para as minhas concepções.
      O Fuji tem uma desvantagem: é extremamente caro. Nunca o consideraria para um uso regular. Custa mais dois euros que o FP4, que não é exactamente o rolo mais barato do mercado, o que torna o Acros verdadeiramente proibitivo. Talvez venha a experimentá-lo um dia, mas será por mera curiosidade.

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