A Entrevista e eu

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Permitam-me começar o ano bloguístico com um texto fora do tema, mas há uma razão para fazê-lo. Como sabem, no último fim de semana do defunto 2014 assisti a um filme que me devolveu as alegrias da cinefilia, interesse que, ao longo das últimas duas décadas foi cedendo o seu lugar a outros como a música e – evidentemente – a fotografia. Esse filme foi Boyhood, um exemplo do que pode ser o bom cinema quando procura um caminho próprio em lugar de se enredar em fórmulas de sucesso para agradar às multidões e garantir um retorno rápido, pela bilheteira, das verbas investidas na realização e produção. Assisti a Boyhood num estado que, em algumas passagens, foi de completa beatitude. Há muitos anos que não via um filme tão genuinamente bom e interessante.

Pois bem: ontem, procurando divertir-me um pouco antes da meia-noite, resolvi assistir a A Entrevista, um filme controverso que pretendia ser uma comédia sobre um apresentador de um show televisivo e o produtor deste último que, tendo conseguido uma entrevista com Kim Jong-Un, o ditador da Coreia do Norte, são recrutados pela CIA para assassiná-lo. Foi-me garantido que o filme era hilariante. Ora bem: eu gosto de hilariante. Adoro rir e tenho entre a minha lista de preferências os Monty Python, Woody Allen, Jerry Seinfeld e Larry David, Ricky Gervais e alguns nomes nacionais (quando estão inspirados). Não resisto a uma boa anedota, nem a lançar uma piada quando o momento é oportuno. Posso, com toda a propriedade, dizer que sou um grande apreciador de humor. A isto acrescentei a curiosidade oriunda de uma campanha de marketing na qual me deixei levar e resolvi ver A Entrevista.

O mais benévolo que posso dizer sobre este filme é que é uma perda de tempo, a qual só não foi mais grave porque decidi não ver A Entrevista até ao fim. Se querem uma opinião sincera e sem rodeios sobre o filme, aqui vai (preparem-se): A Entrevista é uma merda. O filme tem tanta piada como um agente funerário em serviço no dia seguinte à morte da sua mulher e dos filhos num acidente de viação. As piadas são estereotipadas e o guião, à custa de querer arrancar gargalhadas fáceis, envereda frequentemente pela pura ordinarice. James Franco representa bem o papel de um idiota, mas isto acontece porque provavelmente é ele também um idiota; Seth Rogen nunca devia ter tido pretensões de ser actor; o guião parte de uma ideia que podia ter resultado bem se tivesse sido devidamente explorada, mas tudo se perde na brejeirice, no humor fácil, nos gags de pacotilha e na mera boçalidade. Dizer que este filme é uma merda acaba, afinal de contas, por não ser excessivamente ofensivo.

A controvérsia que este filme gerou parece-me artificial, provocada pelos homens do marketing para promover um filme que, de outra maneira, as pessoas não veriam por ser tão foleiro. Se as pessoas de Pyongyang viram o filme, não devem ter ficado revoltadas com o seu conteúdo, mas sim com a evidente falta de qualquer tipo de humor inteligente. O mais provável é que tenham desistido de ver este filme até ao fim por não haver nada que seja sequer capaz de provocar um sorriso. O filme não ofende, a não ser pelo mau gosto das piadas e dos gags; não provoca reacções adversas, a não ser pela inépcia com que uma boa ideia é tão flagrantemente desperdiçada. Não acredito que o Comité Central do Partido Comunista da Coreia do Norte se tenha sentido minimamente incomodado com A Entrevista, porque a única revolta que este filme pode causar é a da autorecriminação por se ter perdido tempo a vê-lo.

Alguns cinéfilos referem existir uma crise na comédia americana. Têm razão. Há muitos anos que não sai um filme verdadeiramente cómico dos estúdios de Hollywood. Desde que Woody Allen começou a tentar ser um novo Ingmar Bergman que a comédia americana não existe. Só os filmes dos irmãos Coen e alguns das décadas de 80 e 90, protagonizados por Steve Martin, James Belushi, Dan Aykroyd ou Bill Murray (como The Three Amigos, por exemplo), tinham graça, mas o mais comum é filmes rascas de um humor ao nível da fossa séptica como os Porky’s ou os disparates dos irmãos Abrahams e David Zucker, que de inteligentes têm muito pouco. A Entrevista é apenas a confirmação desta crise. Quando o humor se resume a algumas fórmulas que são o mínimo denominador comum calculado para fazer rir o americano médio, acontecem filmes como este.

Ver esta porcaria depois de ter visto Boyhood foi um verdadeiro anticlímax. Na mesma semana vi o melhor e o pior do cinema americano. Não admira, pois, que nomes como Lars von Trier e Michael Haneke sejam, cada vez mais, as minhas referências cinematográficas. Boyhood foi apenas uma excepção à enorme mediocridade que tem assolado um cinema americano cada vez mais mercantil e sem nada a dizer.

M. V. M.

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1 thought on “A Entrevista e eu”

  1. Além de ser extremamente ofensivo por se dirigir a um líder de uma nação. Parece mais uma prévia do que está para acontecer, como fizeram com a Líbia…

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