O fenómeno

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Nos últimos dois dias de 2014 aconteceu um fenómeno absolutamente inesperado: de repente, a minha página do Flickr foi invadida por milhares de visitantes. A causa desta afluência? A publicação da fotografia que ilustra o texto. Curiosamente, não a incluo entre as minhas melhores, mas as pessoas que gerem o Flickr têm, aparentemente, uma apreciação muito diferente da minha. O Flickr selecciona diariamente algumas das fotografias que são publicadas todos os dias e inclui-as num portfólio chamado Explore. Não sei, ao certo, quais os critérios da escolha, mas a minha fotografia, de título Surfers’ paradise 30 (mais um título irónico), foi seleccionada. Por seu turno, há uns assinantes do Flickr que fazem uma depuração das fotografias publicadas no Explore e as incluem num grupo chamado In Explore, que tem três centenas de milhar de membros. A Surfers’ paradise 30 foi publicada neste grupo.

O resultado dessas publicações da minha fotografia foi ter atingido dez mil e setenta e duas visitas no dia 30 e, no momento em que estou a escrever, duas mil e vinte e duas. Só a fotografia Surfers’ paradise 30 teve seis mil trezentas e oitenta e quatro visitas no dia 30 e hoje, 31 de Dezembro, vai em mil quatrocentos e noventa e uma. Os números do dia 30 são recordes absolutos: até ontem, o recorde de visitas diárias ao meu Flickr era duas mil trezentas e sessenta e sete e a fotografia mais vista tinha atingido pouco mais de oitocentas visualizações – ao longo de nove meses.

Não sei muito bem o que pensar sobre isto. A fotografia em questão saiu-me bem, mas não a considero a minha melhor. Quando faço fotografias com o surf por tema, pouco me preocupo em fotografar surfistas a cavalgar ondas; prefiro outras cenas de significação menos óbvia, como pranchas de surf pousadas na areia, surfistas a entrar ou a sair da água ou, pura e simplesmente, parados no areal à espera de uma oportunidade para entrar na água. Neste aspecto a fotografia seleccionada está em perfeita coerência com o que mais gosto de fazer quando o tema é surf. Penso que estas fotografias são mais subtis, originais e interessantes do que as de surfistas sobre as ondas. Pelos vistos as pessoas do Flickr também.

Esta é uma glória fátua e não significa absolutamente nada. À medida que outras fotografias irão sendo adicionadas ao Explore e ao grupo In Explore, a minha fotografia irá descendo nas respectivas páginas até a um ponto em que as pessoas já terão perdido a paciência para fazer scroll para baixo e ver mais fotografias. Em breve os números voltarão ao normal, que é algures entre as duzentas e as duas mil visitas diárias. Não creio que estes recordes tenham outro significado para além do facto de todas aquelas pessoas terem visto a fotografia. Seria tolo se imaginasse que esta era uma prova da excelência das minhas fotografias ou que me tornei imensamente popular. Nem é esse o meu propósito: o que eu faço, quando fotografo, é divertir-me. Não fotografo para atingir a notoriedade nem para me elevar a algum estatuto especial. Contudo, devo dizer que estou a procurar a fotografia da minha vida: cada vez me empenho mais em fotografar melhor, o que vai muito para além da aplicação das técnicas. Neste sentido, subscrevo em pleno as palavras de Imogen Cunningham: a minha melhor fotografia é a que vou fazer amanhã. Claro que amanhã direi o mesmo, e assim até ao fim dos meus dias: a melhor fotografia é quase uma quimera e pode muito bem estar entre aquelas que rejeitei ou a que não dou muito valor. É-me extremamente difícil aferir o mérito das minhas fotografias e tendo a confundir o entusiasmo que extraí de tê-las feito com a sua real qualidade.

Uma coisa é certa: embora as estatísticas do Flickr não signifiquem nada de especial, não posso, honestamente, dizer que não gostei que este fenómeno tivesse ocorrido. Pelo menos envaideceu-me um pouco. E é sempre bom saber que há quem veja as minhas fotografias, o que não resulta muito claro de outras «redes sociais». Publiquei uma ligação para esta mesma fotografia Surfers’ paradise 30 no facebook e teve a quantidade astronómica de zero «gosto». A apreciação que os «amigos» do facebook dedicam às minhas fotografias é verdadeiramente comovedora…

M. V. M.

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1 thought on “O fenómeno”

  1. Compreendo a dificuldade de avaliação do próprio trabalho, verifico ser um elemento comum a todos os fotógrafos. Pessoalmente só consegui fazer uma analise mais objetiva, após concluir os estudos em semiótica da imagem.

    É o que em grande parte, mais me fez crescer como fotografo, a capacidade de construir e desconstruir uma imagem.

    Para levantar um pouco o véu, na linguagem visual existem as mesmas figuras de estilo da linguagem escrita, desde a metáfora, metonímia, sinedoque, hipérbole etc…

    São estes por norma, alguns dos processos de construção da imagem publicitaria, entre outras, quer seja estática ou dinâmica…

    Neste contexto, deixo como sugestão de leitura, um dos livros de Roland Barthes, A Câmara Clara.

    Bom ano.

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